A primeira grande prova internacional de Octávio Vicente foi longe! Tão longe quanto os seus sonhos podem alcançar. De Lisboa ao Havai percorreu cerca de 12 500 quilómetros para competir no Mundial XTerra, em 2012, num caminho com um ponto de chegada que demorou quase uma década a alcançar. Era o sonho a comandar uma vida de objetivos, até porque a modalidade de XTerra conta-se entre as preferências do atleta abrantino, campeão da Europa Triatle e de Laser Run M40.
A grande aventura no Havai foi pensada com muita antecedência e muita persistência, com Octávio a promover uma campanha de angariação de fundos e a contar com o apoio de familiares, amigos e de alguns patrocinadores. E lá esteve. A competir com a Elite mundial, numa modalidade tão exigente quanto competitiva, envolvendo os segmentos de corrida, natação e ciclismo (BTT).
Os resultados menos bons, na competição de Elite, nunca o fizeram desistir. Queria era estar lá, entre os melhores! Aos 37 anos encerrou o capítulo competitivo de XTerra, em Itália, em 2022. Foi, porém, na Roménia, no Europeu de Duatlo Cross, onde se classificou em penúltimo lugar, que diz ter ocorrido “o ponto de viragem”. Entre profissionais teve a certeza que queria continuar. E assim fez. Quem o vê a sorrir, emocionado ao recordar o seu percurso enquanto atleta, à beira de completar 40 anos – no próximo mês de outubro -, revela ter aceitado o bom e o menos bom, numa história de superação que começou porque Octávio Vicente entendeu estar com excesso de peso.

No segundo ano da Faculdade de Desporto em Rio Maior, para onde decidiu ir estudar por influência de um amigo, “praticava futebol, uma coisa muito amadora e de pouco nível. Comecei a ficar com peso mais e decidi que não podia ser”, contou ao mediotejo.net.
Para combater a obesidade, aos domingos iniciou a prática de BTT. “O peso baixou, ganhei o gosto e veio a competição em BTT”, conta ao nosso jornal. Ao jogar futebol destacava-se mais na corrida do que na parte técnica, com a bola nos pés. Decidiu apostar no atletismo, conseguindo bons tempos, e Octávio associou o BTT e o atletismo, iniciando provas de Duatlo e também de Triatlo uma vez que “sabia nadar” sendo até, durante 19 anos, professor de natação nas piscinas municipais, em Abrantes e Tramagal. “Adorava estar com os miúdos dentro de água!”, afirma.
Octávio manifesta maior interesse pelo ensino das crianças mais pequenas do que pelo treino dos jovens, mais velhos. “Aquelas idades complicadas, em que muitos desistiam, em que só ficavam os melhores”.
Além disso, nota, “tinha de lidar muito com os pais como treinadores de bancada e abdiquei, não me sentia feliz no que fazia e fiquei só com a adaptação ao meio aquático, aquilo que realmente gostava”, explica, admitindo que lidar com os pais dos atletas é “muito difícil”.
Porventura, “muitos dos bons atletas que temos acabam por abandonar por culpa deles. Metem-se demais e não deixam viver! Não dão tempo aos miúdos para beber uma coca-cola, ir ao cinema, treinar… e eles precisam desse tempo. E é possível conjugar tudo e ser um bom atleta”, defende.


Natural de São Miguel do Rio Torto, mas a viver em Tramagal desde os 6 anos de idade, vila onde iniciou o primeiro ano do ensino básico, Octávio Vicente confessa que o desporto nunca lhe despertou interesse na infância.
“Comparando-me com os meus colegas, nunca fui um menino predestinado para o desporto. Ninguém na minha família era atleta, exceto a minha mãe, que jogou basquetebol em miúda, mas nunca houve um ADN de atleta em minha casa. Sempre joguei futebol, desde os infantis, no Tramagal Sport União, e gostava. Fiz pesca desportiva e tinha mais jeito para a pesca do que para o futebol. Mas veio a faculdade e a pesca ocupava-me os fins de semana e acabou por ficar para trás”, relembra.
A sua estreia na competição deu-se na modalidade de BTT, em provas amadoras, entrou no Duatlo (corrida e bicicleta) onde obteve “bons resultados”, num crescimento gradual. “A minha primeira vitória a nível nacional chegou oito anos depois de começar esta aventura na competição. Nunca achei que fosse muito tempo. Sempre soube apreciar cada vitória. Sempre que melhorava era uma conquista”, lembra, apontando a natação como o seu ponto fraco embora se sinta “completo” com água. Por isso, e para melhorar os registos, recorre à Albufeira de Castelo de Bode para treinar.
O Triatlo chegou depois, em 2010, numa prova internacional na Figueira da Foz, com 1500 metros a nadar, 40 km de BTT e 10 km a correr. “Dei um bocado nas vistas porque fazia a diferença na bicicleta. Não para ganhar provas, não para fazer um top 10 ou um top 20”, contudo, naquele dia, confirmou a sua vocação.
Lembra as palavras de uma amiga médica que lhe disse certo dia: “o nosso corpo educa-se”. Palavras que preservou e relembra para falar do sacrifício e da persistência que o desporto exige. “Sou teimoso! Também tenho as minhas fases más, em que quero desistir de tudo, mas acabo sempre por continuar”, refere.

Em 2012, Octávio vence a sua primeira prova nacional, um Duatlo de longa distância, em Estremoz. Nesse mesmo ano foi apurado, na Alemanha, para o Campeonato do Mundo de XTerra no Havai. “Um orçamento muito elevado. As Federações mal apoiam. Conseguimos com pedidos financeiros a empresas, aos Municípios, às Juntas de Freguesia. Estive até à ultima da hora mas consegui ir”, relembra.
Aos 27 anos percorreu a tal linha reta de 12 500 quilómetros “sozinho”, e como se não bastasse pelo caminho ficaram a bicicleta e a mala de porão. Este última “nunca chegou” e a bicicleta apenas “cinco dias depois”.
Uma aventura em que obteve a classificação de 13º no seu grupo etário. “Saí muito tarde da água”, recorda. “Foi mais a vivência de estar ao lado dos melhores do mundo. Foi uma boa experiência”.



Por cá, Octávio destacava-se nas provas nacionais, ficando sempre no top cinco, e em 2017 venceU o Duatlo das Lezírias, a primeira prova da Taça de Portugal, indo depois ao Europeu de Duatlo Cross na Roménia, como profissional, pela seleção nacional.
“Sempre me seduziu estar entre os melhores. Mas na véspera, fazer os reconhecimentos, mau tempo, prova duríssima, não estava habituado àquelas condições. Para ajudar, o voo chegou atrasado, o que impediu que assistisse ao briefing e por causa disso levei 30 segundos de penalização”. Ficou em penúltimo lugar. “Não foi fácil aceitar. Tenho aquela imagem do corredor e só lá estar a minha bicicleta”. Mas também não foi esse desaire que desmoralizou Octávio.
Em 2019, conseguiu o seu melhor resultado em XTerra; terceiro lugar no Campeonato Nacional e terceiro na geral no XTerra Portugal, sempre como Elite. Três anos depois, já com 37 anos, foi ao Campeonato do Mundo na Itália.
“Sabia que ia andar no final da tabela mas era o meu objetivo, o meu sonho de vida. Era estar lá, dar o meu melhor, independentemente do lugar em que ficasse”, diz, sentindo ser “capítulo encerrado” enquanto competição.
Conta que o Laser Run (corrida e tiro) chegou à sua vida quando praticava atletismo pela Casa do Benfica de Abrantes, em 2019. “Quando era miúdo, com uns 12 anos, com uma pressão de ar, atirava aos pássaros e a mira da arma (de laser) era precisamente igual. Foi espontâneo! Tive um ano fantástico”. Nesse ano, Octávio foi campeão nacional de Laser Run, em Coimbra.
“Comecei a prova em último, e a cada carreira de tiro ia ganhando tempo. Lembro-me de entrar lado a lado com o Pedro Valido na última carreira de tiro e conseguir sair primeiro que ele”.
E continuou. No Campeonato de Mundo, em Budapeste, em 2020, alcançou um décimo lugar. Em 2021 consegue o terceiro lugar no Campeonato da Europa de Laser Run, em Lisboa, e em 2022 consegue o sexto lugar no Campeonato do Mundo. No ano passado alcançou o 13º lugar no Campeonato do Mundo em Inglaterra. Por cá, ninguém lhe retira o titulo de campeão nacional.





Na semana passada o atleta abrantino sagrou-se Campeão da Europa de Triatle M40, no Funchal, ilha da Madeira. Nessa prova de Triatle, Octávio Vicente teve de competir em três disciplinas (tiro, corrida e natação), três vezes seguidas, sempre em contínuo, tendo sido o melhor atleta europeu no seu escalão. Poucos dias depois conseguiria ainda ser Campeão Europeu de Laser Run. No Biatle (natação e corrida) obteve o quarto lugar.
O Triatle é uma modalidade que integra o Pentatlo Moderno. Na verdade são cinco modalidades diferentes – esgrima, natação, equitação, tiro e corrida –, as disciplinas deste desporto e que obriga os seus praticantes a superarem os seus limites.
“A idade faz a diferença porque são provas muito intensas, muito curtas, e embora sempre tenha tido essa especificidade de provas curtas, e gosto, mas no ano passado em Inglaterra, tal como encerrei o XTerra na Itália, encerrei o Laser Run ao nível de Elite” como competição, avança.
“Aceitei que já não conseguia mais do que aquilo. Que os atletas mais novos são melhores, meninos com 25 anos que competem como profissionais, que moram em centros de alto rendimento. O meu fim de carreira tem acontecido naturalmente. Fiz o meu papel, fui muito feliz mas aceitei” o final, confessa.
Lamenta, no entanto, que os atletas portuguesas tenham “menos condições” de treino que os seus adversários estrangeiros. “Têm muito melhores condições que nós, sem dúvida! Não sei se por terem uma maior população… sinto que por cá vai demorar muitos anos a mudar a mentalidade do nosso povo. Estamos uns 10 anos atrasados em relação a Inglaterra, por exemplo. Os meninos em Inglaterra têm os treinos e depois vão para a escola. Em Portugal, os miúdos com 17 ou 18 anos se pedirem ao professor para adiar um teste ou adiar um exame porque têm uma prova internacional quase ninguém aceita isso. Nos outros países dão prioridade aos estudos, mas programam os horários de acordo com os treinos dos atletas para conseguirem tirar proveito tanto do estudo como do treino. Em Portugal não temos essa mentalidade”, refere.
Por outro lado, o português “tem algo muito bom que é fazer as coisas com sacrifício e quase com zero euros”, opina.

Octávio Vicente já representou vários emblemas, designadamente a Casa do Benfica de Abrantes, mas diz que a sua maneira de estar na vida incompatibilizou-o com “certas pessoas que faziam parte da direção e da Casa do Benfica. Nunca houve problemas com ninguém, apenas senti que as nossas vidas tinham de seguir caminhos diferentes. E saí”.
Entretanto, competiu por vários clubes, até nas diferentes modalidades, tentando encontrar “as melhores condições” até que chegou a uma fase da vida que prefere correr sozinho, embora tenha competido na Madeira pelo Clube de Natação da Amadora.
“Senti, durante anos, que era um atleta que trabalhava muito para as equipas e nunca sentia o retorno do outro lado. Às vezes um ‘obrigado’ ou um ‘estás bem’ ou ‘como é que correu’ era superior a um cheque no final do mês. Agora prefiro gastar uns trocos do que me sujeitar a regras com as quais nem concordo”, confessa.
Em 2024 decidiu “correr nos Masters. Na Elite são atletas profissionais e com e vinte e poucos anos. Eu era o mais velho. Nos Masters provei a mim próprio a diferença. Agora sou o mais novo”, declarou. Confessa que foi para a Madeira com o objetivo de ser campeão europeu no Triatle, Biatle e Laser Run. Não conseguiu no Biatle. Para ganhar uma prova “a parte psicológica do tiro é muito importante. Quando chegamos da corrida com a pulsação quase no máximo, e ter alguém ao nosso lado na carreira de tiro, querer fazer as coisas na calma versus temos de fazer depressa porque não podemos estar aqui uma eternidade, é isso que o Laser Run tem de bonito; saber gerir a carga emocional, com pouquíssimos milímetros de falha. O fascinante é que nunca é igual. No domingo não consegui ir buscar o meu melhor Octávio, que é o que faço para me superar”, afirma.
Em jeito de reflexão afirma também que uma das maiores lições que aprendeu nesse seu longo caminho foi que “o que nos define são os nossos princípios e não os nossos êxitos ou fracassos”.
E, pensando no futuro, fala no Campeonato do Mundo de Biatle e Triatle, em outubro de 2024, em Port Said, no Egito. O Campeonato do Mundo de Laser Run, aconteceu na China, em junho, mas, por impossibilidade financeira, Octávio não marcou presença. Em 2025, quer voltar à Elite em Laser Run. Para já quer preparar-se para o Campeonato, perdendo cinco ou seis quilos, com o objetivo de “tirar mais rendimento”.

Os treinos, que por semana ocupam entre 20 a 25 horas, decorrem “muitas vezes” no Parque Urbano de São Lourenço, em Abrantes, o tiro (laser) treina na garagem de sua casa mas diz gostar de treinar em “vários sítios” porque a luz não está igual a todas as horas e difere de dia para dia.
Por isso, semanas antes da competição, quando conhece a posição da carreira de tiro, treina àquela hora específica do dia e com o alvo como se estivesse no local da prova. Treina ainda na pista da Cidade Desportiva, no ginásio, na passadeira, e nas águas abertas da Albufeira de Castelo de Bode, em Aldeia do Mato, ou na piscina. A natação entra no treino diário mas prefere a bicicleta para treinos de recuperação do que propriamente correr.
Após ter cumprido o objetivo de competir até aos 40 anos “ao mais alto nível”, sente que está a entrar na fase de procurar “novos desafios” deixando para trás a competição, dando lugar a outras descobertas. Desde logo com alterações na sua vida profissional.
Após 19 anos como professor de natação, a precariedade dos recibos verdes que se manteve até à decisão de abandonar o ensino, levou-o a mudar de vida, sendo atualmente operário fabril ao mesmo tempo que voltou a estudar, inscrevendo-se num curso superior de Segurança e Higiene no Trabalho. Também não afasta a possibilidade de ainda se aventurar num curso de engenharia mecânica.
“Tive a profissão que sempre quis ter. Dava aulas e tinha tempo para treinar, mas sentia que a minha vida não mudava. A realização profissional estava a ficar para trás em relação à estabilidade financeira. Também não concordava muito com o que se passava ao meu redor… afinal foi para aquilo que estudei! Tive o meu período de luto… se calhar ainda estou na fase final desse processo. Dificilmente voltarei a dar aulas. Mas foi muito bonito e saí bem”, garante, esperando que a curto prazo “as coisas mudem”. De outra forma, nota, “ninguém evolui e ninguém é feliz assim. Nesta fase da minha vida prefiro ter paz do que razão”.

Atualmente Octávio trabalha por turnos como operário fabril, mas manifesta-se contente porque pela primeira vez enquanto trabalhador sabe o que é folgar a um sábado e tem “regalias” laborais que até então “nunca soube o que eram”.
Esses “desafios” a que se propõe passam por fazer provas longas de bicicleta, no estrangeiro, viajar sem pensar na competição, fazer os 5 km do Trail de Abrantes, “lutar pela vitória, claro! A minha motivação para treinar é ter um objetivo. Procurar mais as longas distâncias, fazer um Ironman”, a distância maior no Triatlo: 3,800 km a nadar, 180 km de ciclismo e 42,195 km de corrida (maratona), explica.
Manifesta contudo alguma mágoa por ter sido, por vezes, “deixado para trás” pela comunicação social ao longo da sua carreira, isto porque considera “importante” a questão da valorização profissional.
Octávio Vicente tem uma filha de 16 anos do primeiro casamento e é casado atualmente com Ana Macide, que tem dois filhos, com 20 e 9 anos de idade. Nenhum dos filhos tem “queda para o desporto”, afirma. No entanto, conseguiu levar Ana para a prática desportiva e até para a competição, apesar de não treinarem juntos. Aproveitam as provas internacionais para viajar e conhecer o mundo.
Se não tivesse seguido uma carreira desportiva, Octávio possivelmente teria escolhido uma carreira na Polícia Judiciária, na Força Aérea ou como mergulhador de busca e salvamento, revela.
