Centro histórico de Abrantes. Fotografia: Nuno Caetano Pais

É literalmente um deleite para a vista poder treinar o foco até 70 quilómetros de distância, quando passamos os dias com os olhos pousados em ecrãs. Chegando à Torre de Menagem, mandada construir por D. Afonso III e concluída no reinado de D. Dinis, em 1300, é difícil não ficar impressionado com aquela panorâmica de 360º sobre o Ribatejo, o Alto Alentejo e a Beira Baixa.

Entende-se de imediato porque esta cidade, com o Tejo a seus pés, foi estratégica para muitos exércitos, desde os de Roma aos de Napoleão, e tem o seu nome impresso como “notável” nas conquistas (e reconquistas) da coroa portuguesa.

Torre de Menagem, no Castelo de Abrantes. Fotografia: CMA

Dentro das muralhas, é obrigatória uma visita à igreja de Santa Maria do Castelo, classificada como monumento nacional e que se presume ter sido mandada construir por D. Afonso II em 1215. A igreja é também o Panteão dos Almeida, que tinham o seu palácio dentro do recinto do castelo, construído por ordem do alcaide-mor de Abrantes, D. Diogo de Almeida, em 1432.

Igreja de Santa Maria do Castelo, em Abrantes. Fotografia: CMA

No panteão há seis túmulos da família: de D. Diogo Fernandes de Almeida; de D. Lopo de Almeida, 1º Conde de Abrantes; de D. João de Almeida, 2º Conde de Abrantes; de D. António de Almeida; e de D. Rodrigo Anes de Almeida Meneses, 1º Marquês de Abrantes.

Na linhagem dos Condes de Abrantes contam-se conselheiros reais, priores, diplomatas nas altas esferas estatais, cavaleiros valorosos, bispos e inquisidores, aios de infantes e protetores de rainhas.

Panteão dos Almeida Fotografia: CMA

O 1º Conde de Abrantes, D. Lopo de Almeida, era bisneto do Infante D. João, filho de D. Pedro I e Inês de Castro, e primo do rei D. Afonso V.  Em 1451, foi ele que acompanhou à Alemanha a infanta D. Leonor, quando esta foi desposar o imperador Maximiliano.  O seu filho, Francisco de Almeida, foi o 1º vice-rei da Índia (1505-1509), e a proximidade com o rei D. Manuel expressa-se também com o facto de ter sido nesta igreja de Abrantes que o seu filho, o príncipe D. Luís, foi batizado.

Também os outros dois filhos de D. Lopo tiveram papéis importantes no reino. D. Jorge de Almeida (1458-1543) foi um dos mais distintos bispos de Coimbra, e D. Fernando de Almeida (1467-1500) foi bispo de Ceuta, com um papel decisivo nas negociações que culminaram no Tratado de Tordesilhas.

Por baixo dos azulejos hispano-mouriscos foram descobertos recentemente frescos do século XV. Fotografia: CMA

O Panteão dos Almeida reabriu ao público em junho de 2021, depois de uma profunda intervenção, e abriga vários túmulos em estilo gótico florido flamejante, uma estrutura retabular quinhentista, azulejos hispano-mouriscos e frescos do século XV. Uma parte dos acervos do antigo Museu D. Lopo de Almeida, criado em 1921, pode agora ser vistos no MIAA – Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, inaugurado em dezembro de 2021.

Já lá iremos. Ainda é preciso dedicar tempo aos vários recantos do Jardim do Castelo. Além das vistas sobre o rio Tejo, o seu estilo romântico, típico do século XIX, convida a passeios vagarosos e a pausas para retemperar forças – físicas e anímicas.

Jardim do Castelo de Abrantes. Fotografia: Nuno Caetano Pais

Ali não falta o típico coreto e o lago de cisnes, além das esculturas arbóreas e canteiros cuidados com plantas de mil cores, e há também, desde novembro de 2021, um baloiço panorâmico.

Baloiço panorâmico no Castelo de Abrantes. Fotografia: Paulo Jorge de Sousa

Descendo ao centro histórico, quase todo fechado ao trânsito, o melhor a fazer é esquecer os mapas e ir deambulando pelas ruas estreitas, onde há sempre alguma descoberta a fazer: janelas com as suas varandas floridas, paredes de azulejos deslumbrantes, fachadas com pinturas murais coloridas, uma tasca, retrosaria ou drogaria à moda antiga, inúmeras portas a que apetece bater e perguntar a sua história.

Edifício da Gelataria Liz, um dos muitos imóveis coloridos da cidade de Abrantes. Fotografia: Paulo Jorge de Sousa

Muitas ruelas têm telas transparentes a fazer sombra entre os prédios, para ajudar às caminhadas no pico do calor, e há muitas esplanadas a convidar a uma pausa. 

Uma das muitas esplanadas do centro histórico de Abrantes. Fotografia: Paulo Jorge de Sousa

Ao lado da Biblioteca Municipal António Botto (em honra do poeta que nasceu no concelho, na aldeia de Concavada), o Convento de São Domingos (séc. XVI) foi requalificado pelo arquiteto Carrilho da Graça para acolher o MIAA – Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, que é imperativo conhecer. Aqui mostra-se a Coleção Municipal de Arqueologia e Arte, a coleção privada João Estrada e a coleção da pintora Maria Lucília Moita, além de outras exposições temporárias.

O MIAA nasce integrado no Convento de São Domingos, edifício do séc. XVI requalificado pelo arquiteto Carrilho da Graça. Fotografia: António Cunha

O grande tesouro deste museu são os artefactos arqueológicos pré e proto-históricos em pedra, cerâmica, bronze e outros materiais que representam a vida económica e social de várias culturas e povos que viveram no território da então Lusitânia, numa mostra selecionada de uma coleção com cerca de cinco mil peças.

Muitos dos objetos do período romano expostos no MIAA foram encontrados na zona de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Muitas das peças do período romano aqui expostas foram recuperadas em locais do concelho, como a zona de Alcolobre, na fronteira da freguesia do Tramagal com Constância, onde são visíveis estruturas de um complexo termal de uma vila romana dos séculos I a III. É mais um pretexto para descobrir a ribeira de Alcolobre, e o seu bosque ripícola que parece saído de um conto de fadas.

A ribeira de Alcolobre, que corre em Tramagal e Santa Marqarida da Coutada, mereceu destaque na revista National Geographic. Fotografia: Carlos Correia

Passando pelo Tramagal, a única vila do concelho, há que parar no miradouro da Penha, desenhado pelo arquiteto Keil do Amaral – que também assinou o projeto do campo de jogos da equipa local, o Tramagal Sport União, e que este ano cumpriu 100 anos de vida. Se puder, junte-se aos adeptos para ver um jogo, sempre “entremeado” com bons petiscos e (mais) um copo.

Perto da estação de caminhos de ferro fica o Museu MDF – Metalúgica Duarte Ferreira, inaugurado em 2017 e eleito “Melhor Museu do Ano” pela Associação Portuguesa de Museus. Instalado nos antigos escritórios daquela que foi uma das maiores empresas do país, visa preservar a memória e o património material e imaterial da fábrica que nasceu do sonho de um simples ferreiro, Eduardo Duarte Ferreira, há 150 anos – um homem visionário e com um raro espírito empreendedor, numa época em que a palavra ainda nem sequer entrara no vocabulário.

Museu MDF, em Tramagal. Fotografia: mediotejo.net

Em busca de sombras e momentos de frescura, quem passeie pela cidade de Abrantes encontra-as no Parque de São Lourenço – um extenso pulmão verde, com percursos marcados para caminhadas e um tranquilo restaurante-bar com esplanada: o São Lourenço by Trincanela.

São Lourenço by Trincanela, em Abrantes. Créditos: Trincanela

Outra possibilidade, na ponta oposta da cidade, é o Aquapólis, um espaço de desporto e lazer que se ergue nas duas margens do rio. Na margem norte há campos de voleibol e de futebol de praia e é possível alugar canoas e kayaks.

Vista da margem norte para a margem sul do Aquapolis, em Abrantes. Fotografia: CMA

Na margem sul, no Rossio, há um hipódromo e uma tenda aberta gigante onde decorrem por vezes mercados de produtos locais e artesanato, e protege do sol quem queria desfrutar da esplanada à beira-rio. Ali existe também um parque de campismo e caravanismo, desenhado pelo Atelier Rua, e que mereceu destaque em várias publicações internacionais de arquitetura.

Parque de Campismo e Caravanismo de Rossio ao Sul do Tejo, em Abrantes, desenhado pelos arquitetos do Atelier Rua. Fotografia: Fernando Guerra

Contudo, o campismo mais antigo de Abrantes é um clássico entre os amantes das dormidas ao ar livre, e o seu enquadramento vale por muitas estrelas hoteleiras: o Parque de Campismo de Castelo do Bode, gerido desde 1973 pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, fica em Martinchel, com o rio Zêzere a convidar permanentemente a um mergulho. No parque também há duas piscinas e, nestes 25 mil metros quadrados de verde, não faltam opções para passear (e descansar).

Parque de Campismo de Castelo de Bode. Fotografia: David Belém Pereira/mediotejo.net

Ali bem perto ficam as praias fluviais de Aldeia do Mato e de Fontes, onde também é possível alugar um bungalow. São ambas vigiadas, com bandeira azul e acessos para pessoas com mobilidade reduzida.

A praia fluvial de Aldeia do Mato, em Abrantes é um dos cartões de visita do concelho em termos turísticos e de lazer. Fotografia: mediotejo.net

Nestas duas praias fluviais não faltam recantos para descontrair, a sós ou com um grupo de amigos, sendo também uma excelente opção para famílias com crianças.

Praia fluvial de Fontes, em Abrantes. Fotografia: Rafael Ascensão/mediotejo.net

Os mais desportistas podem também aproveitar para pagaiar pela albufeira ou experimentar wakeboard. Com sorte pode apanhar uma das provas do circuito mundial, e ver as acrobacias de alguns dos melhores atletas internacionais nesta modalidade.

Wakeboard em Castelo de Bode. Fotografia: Wakeboard Portugal

Também na zona norte do concelho, e antes de chegar à aldeia de Carvalhal, vale a pena fazer o desvio para o Miradouro da Matagosa. Aqui, além de um curioso Cristo Rei, também há monumentos a homenagear a Mulher Portuguesa, os Navegadores e os Aviadores. É o sítio perfeito para um piquenique de verão, com uma vista digna de Instagram.

Miradouro da Matagosa, Abrantes. Foto: Joana Santos/mediotejo.net

Para os amantes das caminhadas, existem muitos trilhos de percursos pedestres e no concelho passam 45 km da Grande Rota do Zêzere, em seis etapas, percorrendo o norte do concelho de Abrantes até chegar a Constância, por entre caminhos de terra batida, campos de cultivo, zonas florestais e tendo como “bónus” a passagem por uma “levada de água” na povoação de Água das Casas.

Grande Rota do Zêzere. Foto: DR

Quem preferir bicicletas (e BTT) também encontra muitas opções marcadas na região, sem esquecer os passeios a cavalo – ou não estivéssemos em terras do Ribatejo. Pode ser o pretexto perfeito para se iniciar na prática equestre, ou apenas levar as crianças a experimentar. É possível fazê-lo, por exemplo, em Vale de Ferreiros, no Pego, aldeia onde também fica a Quinta de Coalhos, na família de José Alberty há mais de 100 anos, uma magnífica casa apalaçada, ao melhor estilo romântico da Belle Époque, e que também providencia passeios românticos a cavalo.

O turismo equestre é uma das possibilidades a explorar em Abrantes. Fotografia: Vale de Ferreiros
Quinta de Coalhos. Créditos: DR

Outra opção para quem goste do mundo equestre é o Monte da Várzea, em Alvega – onde também há uma pista de todo o terreno para jipes e motas, ou não fosse este um empreendimento criado por uma antiga glória dos ralis, Francisco Romãozinho.

Monte da Várzea, em Alvega. Créditos: DR

Com menos adrenalina, mas muito por explorar, há a Estrada Nacional 2, que também cruza Abrantes ao longo de 45km, tendo em Bemposta uma estação de caravanas pensada para quem ali quiser fazer uma pausa.

Bemposta, em Abrantes, está na Rota da Estrada Nacional 2, que liga Chaves a Faro. Fotografia: CMA

Nas Mouriscas, poderá encontrar aquela que está classificada como a árvore mais antiga de Portugal. É uma oliveira com 3.350 anos. Nos campos em volta há muitos exemplares de oliveiras com mais de mil anos, ou não fosse esta uma terra de azeite, desde tempos imemoriais. Por isso, não deixe de levar consigo algum deste “ouro vegetal” que ainda se produz nos lagares tradicionais da região. São especialmente afamados entre os gastrónomos os azeites da Casa Anadia, Cabeço das Nogueiras e VAL, embora seja de Abrantes uma das marcas nacionais de maior notoriedade, “a cantar desde 1919”: o azeite Gallo, da casa Victor Guedes.

Oliveira do Mouchão, em Mouriscas, tem 3350 anos. Foto: mediotejo.net

À mesa, além do bom azeite, também há bom (e premiado) vinho, como o Casal da Coelheira, do Tramagal, a acompanhar pratos com marcadas influências ribeirinhas e do mundo da caça. São famosas as perdizes à moda de Alferrarede, receita que o Chef Victor Felisberto recuperou para o seu restaurante, onde impera a cozinha em forno de lenha e o respeito pelos produtos locais e tradicionais, o que lhe valeu nos três últimos anos um “Bib Gourmand” no Guia Michelin.

Restaurante Casa Chef Victor Felisberto

Típico é também o bucho, que no Pego tem até uma Confraria. Às quartas-feiras há sempre bucho, tripas e passarinha (entre outros petiscos típicos da matança do porco) nos restaurantes da chamada “aldeia das casas baixas”.

O Pego, a chamada “aldeia das casas baixas”. Fotografia: CMA

Não deixe também de provar os enchidos feitos ainda de forma tradicional em charcutarias familiares, como a Margaridos, com a sua loja mais antiga no Rossio, e a MF, em Rio de Moinhos, (vários chefs dizem ser de Abrantes a melhor farinheira e a melhor morcela de arroz do país) e, claro, os doces: da palha de Abrantes às afamadas tigeladas, broas de mel, filhós e toucinho do céu, todos de comer e chorar por mais.

E aqui que ninguém nos ouve, deixamos um segredo: prove, por favor, as passas fritas das Mouriscas. Não se vendem nas pastelarias, mas na aldeia basta perguntar por alguma senhora que faça por encomenda… Vá por nós, é mesmo uma Descoberta!

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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3 Comentários

  1. Amei este texto.
    A minha mãe que infelizmente já faleceu vai fazer 2 anos é nascida e criada em Carvalhal.
    Temos lá casa recuperada e mantenho lá o meu pai.
    Viveram em Lisboa mas sempre mantivemos a relação com Carvalhal “dizia se vamos à terra”
    Da parte do meu pai a raiz é o Carril que está a ficar deserto e abandonado,tenhouita pena,era onde eu passava férias com os meus avós paternos.
    Mantenho amizades ai pois não herdamos casa mas sim terrenos.
    Não conheço muita coisa, pois casei e deixei de estar tão presente na evolucao. Fiquei deslumbrada com este texto e imagens
    O presidente da câmara de Abrantes devia se empenhar mais a colocar a cidade nos roteiros turísticos.

  2. Para quem não conhece Abrantes é uma boa apresentação da nossa cidade, concelho, história e geografia! (Digo eu que costumo apresentar-me como abrantino apesar de ter ido nascer a Lisboa!)

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