Folclore, migas carvoeiras, Pego. Desta vez foi o Rancho Folclórico da Casa do Povo do Pego, representado por Francisco Vicente e Joaquina Lopes, que ocuparam os lugares de protagonistas da Academia do Mercado em Abrantes. Os dois, em equipa, divulgaram a história e a receita das “Migas Carvoeiras” que fazem parte da gastronomia local da aldeia do Pego. Com a mão na massa, ou melhor, no pão, alho, batatas, toucinho branco, azeite e, claro, o bacalhau e o entrecosto fritos na hora para acompanhar a receita. Desvendaram o caminho, supostamente do Alentejo para o Pego, que as “Migas Carvoeiras” fizeram juntos com os habitantes “da terra”, comida que faziam habitualmente no contexto das carvoarias.
As pessoas viviam em um contexto onde não era possível ir as compras todos os dias, por isso era comum utilizar as “batatas, que era uma coisa que se conservava naturalmente, e o pão, que aguentava quase uma semana inteira”. Como “aos fins de semana, e normalmente ao domingo, é que iam as mercearias”, traziam o toucinho branco e o bacalhau salgado, lembbrou Francisco Vicente, na manhã de sábado, dia 28 de maio, no primeiro piso do Mercado Municipal de Abrantes.
O toucinho branco fatiado e os dentes de alhos inteiros e descascados eram submetidos ao azeite quente, que cobria a frigideira antiga utilizada em fogões a carvão chamada sertã. Só então era acrescentado o pão, passado de dias e que se tornara mais rijo, cortado em lascas finas de forma a que se dissolvesse por completo. De seguida as batatas amassadas eram acrescentadas. “Na altura nas carvoarias as pessoas que andavam lá a trabalhar tinham que fazer essas coisas”, explicou “o cozinheiro”.

Toda a gente estava com o olhar e o olfacto atento para apreciar a gastronomia típica do Pego e, logo que a “sertã” foi à placa de indução, alguém segredou: “já está a cheirar”. Francisco Vicente, ao virar as migas com o balanço da sertã, lembrou que no passado os cozinheiros as viravam atirando-as por cima dos ramos dos sobreiros.

As idosas da Santa Casa de Misericórdia do Sardoal, juntamente com cidadãos locais e os elementos integrantes do Rancho Folclórico da Casa do Povo do Pego, presenciaram a confecção das migas carvoeiras e também comeram a iguaria, feita na hora. A porção confeccionada serviu mais de 20 pessoas e ainda foi oferecido vinho.
Pratos com porções de Migas Carvoeiras e lascas de bacalhau frito, para acompanhar, com entrecosto à parte e um pouco de vinho. E o cheiro convidativo do pitéu inebriava todo o mercado. A receita foi inventada no passado, mas parece que os paladares continuam a aprovar os saberes e os sabores do presente.
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