Maria de Lurdes Martins. Foto: mediotejo.net

O caminho dos cineclubes prossegue a sua missão, mesmo nestes tempos dominados pelo streaming. Continuam a ser os maiores divulgadores do cinema português, contribuindo, por isso, para a formação de públicos ao mesmo tempo que promovem a coesão territorial, tendo em conta a distribuição das salas, levando a sétima arte a locais onde raramente há cinema, como as aldeias do interior do País.

A sua principal razão de existir mantém-se. “É o conforto e a liberdade de podermos agir fora de um sistema que impõe” os filmes que devem ser vistos pelo público, no chamado cinema comercial, que tem como prioridade “o resultado económico, financeiro, de bilheteira – e nós não agimos assim”, começa por afirmar ao nosso jornal Lurdes Martins, falando sobre o trabalho dos cineclubes.

Apresentam-se como “a sociedade civil em coletivos”, próximos do público, garantindo a diversidade cultural e agindo na divulgação da cultura cinematográfica. “São quem mantém a constância do cinema, e funcionam bastante bem”, considera, dando o exemplo do cineclube de Guimarães, que tem 600 sócios, ou o de Viseu, que tem por trás o apoio do Município, tal como acontece em Montemor-o-Novo.

O cineclube abrantino Espalhafitas conta com apoio do programa municipal Finabrantes, mas de acordo com Lurdes Martins, o valor atribuído “é muito curto para a dimensão dos projetos ” realizados, designadamente para o Animaio. “Não se faz com 5 mil euros”, garante.

A Federação Portuguesa de Cineclubes (FPCC), fundada em 1978 como estrutura representativa dos cineclubes portugueses, surge como aglutinador do movimento cineclubista nacional. Integrando três dezenas de associados, é a representante legal dos cineclubes no país e no estrangeiro.

Promove regularmente, no âmbito das suas atividades, ações de promoção da cultura cinematográfica, ações de formação, seminários e colaborações com outras entidades, assim como apoios à criação de novos Cineclubes. Esteve quase sempre na primeira linha do combate da política cultural nacional e tem agora novos corpos gerentes.

Lurdes Martins, do cineclube Espalhafitas, de Abrantes, é a nova presidente da direção da FPCC, que realizou o Encontro Nacional de Cineclubes, na Póvoa de Varzim, no dia 5 de dezembro, no qual decorreu o ato eleitoral. A tomada de posse está marcada para janeiro de 2022.

“De concreto acho que vai trazer mais trabalho. Estamos a falar da FPCC, que é uma associação de extrema importância a nível nacional – e até internacional. Não é por acaso que há uma Federação Internacional de Cineclubes que reúne frequentemente e que também tem na presidência, neste momento, um português”, diz ao mediotejo.net.

O cineclube abrantino já esteve representado numa direção anterior. Carlos Coelho – que juntamente com Lurdes Martins e Paula Dias são os grandes impulsionadores do cineclube Espalhafitas – foi vice-presidente da Federação Portuguesa de Cineclubes.

“Mesmo quando representamos uma casa cuja direção tem 10 pessoas, há sempre alguém que é a cara. Vou tentar que não seja assim, até porque não me parece que alguma vez tenha sido assim. Os cineclubes têm sabido preservar o seu nome e não o nome das pessoas. Estou em nome do Espalhafitas, algo que 20 anos depois de ter sido criado vem consolidar a vida do cineclube, e nessa medida conta no mapa de cineclubes a nível nacional, e isso é importante”, vinca.

No interesse do cinema, do espectador, na defesa da difusão cinematográfica pelos cineclubes, no reforço da FPCC, a lista vencedora integra cineclubes de norte a sul de Portugal e Ilhas.

Maria de Lurdes Martins considera que “está bem distribuído pelos cineclubes que temos no território e ilhas”. O que vem por acréscimo são algumas dificuldades devido à dispersão geográfica. “Quando queremos a representatividade desta forma, que exige trabalho, reuniões, que as pessoas se conheçam e o conhecimento não pode ser feito eternamente através de um ecrã. É sempre a parte mais difícil”, explica, falando não só de disponibilidade mas também de custos.

Falando num trabalho de equipa, a nova presidente recusou detalhar os projetos que serão desenvolvidos pela FPCC nos próximos dois anos, mas traçou em linhas gerais os objetivos que passam pelo “papel relevante” da Federação e instalá-la na sua nova sede, em Torres Novas.

A vida das associações é ondulante e a Federação tem feito também esse caminho ondulante”, refere.

Maria de Lurdes Martins é a nova presidente da Federação Portuguesa de Cineclubes. Créditos: mediotejo.net

Atualmente a Federação tem sede em Abrantes, sendo que nasceu no Porto “mas era preciso um lugar mais central”, explica Lurdes, sendo a própria quem falou com a Câmara Municipal de Abrantes sobre a possibilidade da FPCC passar a ter sede no Edifício Carneiro, que abrigava também a Associação Palha de Abrantes. Mas “a sala era muito precária, sem condições”. Quando a Palha de Abrantes saiu do Edifício Carneiro, a FPCC também teve de sair. “O espólio da Federação neste momento está no antigo Mercado Diário”, dá conta.

No entanto, a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Torres Novas “disponibilizou uma sala em Torres Novas para receber a FPCC e esse vai ser outro papel que a direção vai ter de desempenhar: instalar a FPCC numa sala, definitivamente, com as condições que lhe são merecidas e que deve ter para reuniões, para acolher o material que tem, para fazer outros trabalhos”, diz, considerando o Centro do País “um bom local”.

Permanecer em Abrantes seria igualmente uma boa opção. “Se houvesse um bom espaço em Abrantes… se temos a Federação Portuguesa de Basebol, que praticamente não existe”, critica, dizendo que, por oposição, a FPCC “existe, está viva, mexe”.

O País conta com cerca de 60 cineclubes, mas nem todos podem ser federados nem têm a mesma dinâmica. “Nós próprios gostaríamos de ter uma dinâmica mais ativa mas não temos, muitas vezes as melhores condições, ou os melhores apoios, ou o melhor número de pessoas para o fazer. Estas coisas são sempre de resistência e de luta”, observa.

Segundo Lurdes Martins, “os cineclubes que são pertença das Câmara Municipais não podem ser federados. Há Câmaras que têm cineclubes, apoiam, mas não os geram. E é importante ser a sociedade civil a desempenhar esse trabalho porque os cineclubes não obedecem a números. Vamos olhar primeiro para uma obra que urge em ser passada, será vista pelo número de pessoas que quer ver a obra mas ainda assim essa obra vai ter a repercussão no espaço e no local onde está a ser exibida. Se não é através das 100 pessoas da escola que vão ver é através das 10 que vão ver, isso tem sempre impacto”, assegura.

Embora os cineclubes sigam algumas regras, também no que diz respeito ao cinema comercial, “a regra número um” é não exibir só filmes vindos de Hollywood. “Podemos passar, mas temos margens. Temos a preocupação de mostrar filmes de todos os continentes. Há muitos filmes europeus mas também da América do Sul ou africanos. Saber distribuir os filmes pelo mapa, pelos realizadores e pelos temas. A escolha é cuidada”, explica.

Sendo de Abrantes, o cineclube Espalhafitas realiza sessões de cinema todas as quartas-feiras no Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal, porque a cidade não tem atualmente uma sala de cinema.

“Essa é uma luta que talvez tenhamos de travar, até porque não é certo que todos os cineclubes tenham as mesmas condições. Embora na minha perspetiva, se estivermos sempre a exigir as melhores condições ou as condições de uma sala de cinema ou a existência de uma licença para a sala… o espírito dos cineclubes, que é poder passá-los em qualquer parte, desaparece. Não queremos ficar condicionados. Hoje as pessoas exigem ver um filme nas melhores condições e nós queremos passá-lo nas melhores condições”, que passa por uma sala de cinema, diz.

A festa da formação de públicos é feita pelo Espalhafitas a partir das escolas e no cinema de animação. Foto: mediotejo.net

Recorda que o Espalhafitas nasceu no Cineteatro São Pedro, porque a sala quando foi renovada apostou no cinema comercial. “E na nossa ideia, a programação poderia ser mista, daí a urgência de fazer nascer um cineclube que fosse buscar filmes para além do comercial.”

O Espalhafitas acabou por sair no Cineteatro São Pedro “quando alguém se lembrou de dizer que a sala era muito grande para meia dúzia pessoas”. O Cineteatro contava inicialmente com 999 lugares e depois das obras de renovação reduziu para 500. “Ter 20 ou 30 pessoas, que para um cineclube é um público constante e bom, para uma sala de 500 lugares não é nada, mas sendo a única que havia, era a sala que tínhamos”, conta, salientando que “a sala enchia no Animaio, nas sessões de cinema para a terceira idade, quando convidávamos as escolas, quando tivemos o Fernando Botelho a apresentar as obras literárias em cinema”, ou seja, “uma sala de cinema não conta só para um formato, tem de abranger os formatos todos”, defende a nova presidente da FPCC.

O cineclube abrantino apresentou ainda sessões no espaço Chiado, em Abrantes. “Temos a consciência que se uma associação, um cineclube, pára, o público que demorou 10 anos a fazer esvai-se”, algo que a pandemia tem incrementado. “Quando surgiu a oportunidade de irmos para Sardoal – Miguel Borges [presidente da Câmara] disse que sem sala não ficaríamos – agarrámos isso de bom agrado e conseguimos ter um público bastante bom”, garante.

O Espalhafitas tem levado também cinema a Vila de Rei. “Gostaríamos de abranger na nossa programação além de Sardoal, Constância, Mação e Vila de Rei. Uma vez que Santarém, Torres Novas e Tomar têm cineclubes, gostaríamos de fazer esse trabalho mais para o interior, de forma regular. Estamos neste momento a adquirir material para exibirmos cinema na rua com melhores condições”, refere Maria de Lurdes Martins.

Para a presidente, que critica alguns aspetos da política das salas de cinema, nomeadamente no que diz respeito a licenças, o trabalho da FPCC terá de passar também por aí. “Se começamos a ter a preocupação de cumprir com tudo o que tecnologicamente obriga, ficamos reféns das condições mais do que dos conteúdos, e esse não é o espírito associativo, não é o espírito de um cineclube”, defende.

A FPCC existe “sobretudo para que os cineclubes tenham condições para existirem”, ou seja, “o papel da Federação não é estar no terreno, é ver o que se passa para que as coisas funcionem. É um trabalho mais técnico”.

Ter algumas vertentes dentro da Federação, como a Educação, é outro desejo “uma vez que a vice-presidente da FPCC está no departamento da Educação na Federação Internacional, e porque os cineclubes estão presentes nas escolas, realizam filmes nas escolas, mostram, discutem. Foi graças a algumas pessoas de cineclubes que o Plano Nacional do Cinema se iniciou antes do Plano Nacional das Artes. E depois ver o que se faz em termos políticos e estar atento às mudanças que se fazem nas leis do cinema”.

Lurdes Martins lembrou ainda que a FPCC criou o prémio especial dedicado ao jornalista, escritor e realizador António Loja Neves, que também esteve na fundação da Federação Portuguesa de Cineclubes e morreu em maio de 2018, e que tem em 2021 a sua segunda edição.

Prémio Loja Neves da FPCC

No dia 5 de dezembro, a Assembleia Geral elegeu os novos órgãos sociais para o biénio 22/23, cuja tomada de posse será em janeiro, com a seguinte composição:

Direção
Presidente / Maria de Lurdes Martins / cc Abrantes
Vice-Presidente / Isa Mateus / cc Ao Norte
Vice-Presidente / Bernardo Cabral / cc Ribeira Grande
Tesoureiro / Candela Varas / cc Tavira
Secretaria / Rita Correia / cc Santarém
Vogal / Alexandra Grilo / cc Chaves
Vogal / Cristiano Jesus / cc Bairrada
Suplente / Manuel Carvalho / cc Amarante
Suplente / António Osório / cc Avanca

Assembleia Geral
Presidente/ Paulo Martins / cc Amarante
Vice-presidente / António Costa Valente / cc Avanca
Secretário / Carlos Coelho / cc Abrantes

Conselho Fiscal
Presidente / Nuno Guedelha / cc Torres Novas
Secretario / Mário Ventura / cc Barreiro
Secretario / Joaquim Diabinho / cc ABC
Suplente / Rogério Sousa / cc Ilha Terceira

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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