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Após a Missa de Ação de Graças, na Capela do Hospital, pelo Padre António Castanheira e pelo Cónego José da Graça, arrancou a cerimónia solene na Biblioteca do Hospital de Abrantes.

Numa sala cheia, onde a bata amarela se fazia notar a fazer jus à celebração da sua existência, estiveram presentes representantes do Hospital de Abrantes, Município, Federação Nacional de Voluntariado em Saúde, bem como de outras entidades e instituições, presidindo à mesa o presidente da Liga dos Amigos, o octogenário médico-cirurgião Luís Fernandes.

Começou-se pela entrega de reconhecimentos às nove colaboradoras do bar, bazar e do secretariado, “pela sua dedicação, colaboração e excelência do trabalho que desenvolvem com especial relevância nos dois últimos difíceis anos”, referiu Júlio Miguel, tesoureiro da Liga dos Amigos.

Também foram entregues certificados de reconhecimento e crachás aos voluntários e voluntárias “que ao longo dos anos deram e continuam a dar o seu melhor nos cuidados aos doentes e na humanização do hospital”.

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Nesta senda, foi ainda feita entrega de reconhecimentos aos mecenas e sócios honorários, que quer “em nome individual ou empresarial têm exercido sentido de responsabilidade social, materializado no mecenato, e ajudado a Liga nos muitos e vários apoios ao Hospital”, sendo entregues por esta ocasião certificados de apreço à Câmara Municipal de Abrantes, na pessoa do presidente Manuel Jorge Valamatos, presidente do Conselho de Administração do CHMT, Casimiro Ramos e ainda ao Montepio Geral – Associação Mutualista, Ernesto Lourenço Estrada e Filhos, Domingos Chambel, RSA, S.A., Tejo Energia S.A., Elecgás S.A., EDP Distribuição e EDP Produção, Vítor Guedes, S.A., Horácio Martins, Câmara Municipal de Mação, Eduardo Catroga, Paulo Almirante e José Teves Vieira.

O ponto alto passou pela homenagem a quatro personalidades que contribuíram para a existência e cimentar do trabalho da Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes, desde logo tendo sido fundadores da instituição.

Foi o caso de Dona Mira, de seu nome Maria Ramiro Marques Godinho, que faleceu em 2016. Foi das primeiras voluntárias da Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes, e é considerada um modelo de orientação ética do grupo, pela sua exemplar ação e dedicação. Foi voluntária ativa até aos 95 anos.

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Graça Bento, coordenadora do voluntariado, deu o seu testemunho sobre a D. Mira, referindo que “foi uma senhora que nos acompanhou desde o início até não poder mais”.

“Queria vestir uma bata amarela para ajudar o próximo, partilhando a sua experiência de vida”, e iniciou o seu trabalho no Hospital de Dia, até que encerrou. Prosseguiu o seu trabalho nos serviços de internamento “dando apoio nas refeições e visitas”, mas também ficando incumbida do arranjo das flores na Capela do hospital.

“A ligeireza no andar e a firmeza na atitude solidária fizeram da Dona Mira o modelo da orientação ética de um grupo de voluntários que exercem no Hospital de Abrantes”

Graça Bento, coordenadora de voluntariado da LAHA

“Admiro-me como há pessoas que não têm nada que fazer e não se preocupam em ser úteis aos outros. E, à noite, ainda conseguem dormir descansadas”, disse numa das poucas entrevistas que concedeu a um jornal, expressão agora citada por Graça Bento, nesta cerimónia que homenageou a título póstumo a mulher generosa e altruísta que defendia estarem no evangelho todas as bases para o voluntariado.

Foi a filha de Mira Godinho a receber o reconhecimento. Foto: mediotejo.net

Também a título póstumo foi homenageada a Enfermeira Isabel Alberty. Foi Enfermeira Chefe do Bloco Operatório do Hospital de Abrantes, e fundadora e elemento da direção da Liga dos Amigos. Foi também a primeira coordenadora e impulsionadora do projeto de voluntariado no hospital.

O marido, José Alberty, – que tomou o lugar da esposa enquanto coordenador de voluntariado e membro e vogal da direção da LAHA – e as quatro filhas, estiveram presentes na cerimónia, e a filha Ana Mafalda recebeu a homenagem, com testemunho prestado por Teresa Pimenta Correia, coordenadora do voluntariado e membro da direção da Liga.

Isabel Alberty foi enfermeira-chefe até finais dos anos 90, quando se dedicou à família, mas “a sua humanidade e responsabilidade social estiveram sempre presentes e evidentes na sua conduta”, e por isso não hesitou em aceitar o convite de Luís Fernandes e Margarida Pita para coordenar o projeto de voluntariado da Liga dos Amigos no Hospital.

“Durante todo um percurso de mais de uma dezena de anos, a sua capacidade natural de liderança conseguiu fazer do corpo de voluntários o verdadeiro espelho da Liga, prestigiando-a a um elevado nível de bem servir o próximo”

Teresa Pimenta Correia, membro da direção da LAHA e coordenadora de voluntariado

Teresa Pimenta Correia destacou ainda a sabedoria e humanidade da enfermeira, tal como o seu caráter, elementos que a distinguiam enquanto pessoa e membro da LAHA.

Como coordenadora do voluntariado, “era o seu caráter que lhe permitia coordenar as relações humanas da forma como o fazia, com muita tranquilidade e discrição”, referiu.

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“Peça fundamental” para o projeto, Isabel Alberty continua presente no grupo, inspirando e impulsionando para o futuro. “Ela deu-nos a força e o ânimo que precisamos para continuar. Nós trabalhamos como um todo, embora cada um tenha o seu lugar e o lugar da Isabel foi o de coordenadora do voluntariado”.

Também homenageado, em vida, foi o Enfermeiro José Bragança Ferreira, enfermeiro de referência em Abrantes, que integrou a Comissão Militar no Hospital da Guiné. Possui ainda várias condecorações e louvores por serviços prestados em Moçambique, Angola e Guiné. É sócio-fundador da Liga dos Amigos e é secretário da Direção desde 2001.

Chegou a prestar serviço gratuitamente às populações de Água das Casas e Vale das Mós, bem como no Convento da Esperança aos mais necessitados.

“O Sr. Enfermeiro Bragança, como é conhecido e tratado, é muito estimado no seio do Hospital de Abrantes, onde exerceu a sua profissão com reconhecido zelo e competência”

José Terras Marques, vice-presidente da Liga dos Amigos

Integrou a primeira direção do Banco Alimentar e integrou durante 35 anos a direção do Centro Social e Interparoquial de Abrantes.

Realçou-se ainda o facto de o enfermeiro ser também reconhecido na comunidade enquanto “Homem bom, sempre disponível e interessado em ajudar o próximo”, um dos motivos pelos quais é acarinhado por todos.

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O enfermeiro agradeceu o gesto dos camaradas, bem como a todos os voluntários e colaboradores. No seu discurso falou da instituição “que hoje nos enche de orgulho” que nasceu numa altura difícil, em que “tudo estava por fazer”.

Enfermeiro Bragança, sócio-fundador homenageado e membro da direção da LAHA

Por último, coube a Silvino Alcaravela, ex-administrador do Hospital de Abrantes e atual presidente da Assembleia Geral da Liga dos Amigos, dar o seu testemunho sobre o fundador Luís Filipe de Moura Neves Fernandes, com quem trabalhou durante a sua gestão hospitalar e instalação do novo hospital.

Foi médico-cirurgião e também integrou a Comissão Militar no Hospital da Guiné, tendo sido presidente do Conselho de Administração do Hospital de Abrantes entre 1987 e 2001. É fundador e presidente da direção da Liga desde 2001.

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Silvino Alcaravela destacou o “elevado humanismo” e “capacidade de liderança” que têm mantido “uma equipa coesa e dinâmica ao longo destes vinte anos”.

“A nobreza de caráter, delicadeza no trato, a democraticidade na relação, a diplomacia na liderança e o profundo amor às causas que abraçou, explicam o sucesso da sua atuação”

Silvino Alcaravela, presidente da Assembleia Geral da LAHA e ex-administrador do Hospital de Abrantes

Indicando ter colaborado para que o hospital de Abrantes se afirmasse no panorama de saúde no país, destacou ainda a sua “sensibilidade social”, mencionando Silvino Alcaravela que tal levou à “clara visão da necessidade de criação da Liga de Amigos em 2001, olhando ao contexto de carências das nossas populações e à circunstância de a complementaridade funcional do três hospitais do Médio Tejo agravar por motivos de distância o isolamento dos doentes”.

Silvino Alcaravela, presidente da Assembleia Geral da LAHA

O “grande amor ao hospital e à causa de dedicação aos doentes”, levou a que assumisse a liderança da Liga dos Amigos, mantendo “uma equipa coesa e empenhada e um corpo de voluntariado de significativo contributo na humanização da assistência aos doentes”.

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Entre as grandes melhorias e o suprir de carências do hospital para a qual a LAHA tem contribuído surgem grandes investimentos e obras como a remodelação total do equipamento da unidade de esterilização, remodelação do refeitório principal, reabilitação da cobertura e pintura geral do Hospital, participação na aquisição do Kardec, sistema de distribuição de medicamento-unidose para o CHMT, carrinha de transporte de pessoal do CHMT, três camas elétricas para recobro, seis cadeiras de rodas para a consulta externa, quatro televisores, dois aparelhos DVD, dois microondas e dois frigoríficos, sete sofás e dois cadeirões para diversos serviços, substituição total do pavimento da unidade de cuidados intensivos polivalente (UCIP), pavimentação para a entrada da urgência, e outros.

O homenageado, apesar de se encontrar debilitado por questões de saúde, não quis deixar de fazer parte da sessão comemorativa e intervir, fazendo o seu discurso final. Luís Fernandes mostrou-se agradecido e emocionado, agradecendo a todos os presentes, aos voluntários e colaboradores da Liga e todas as palavras a si dirigidas nesta tarde de festa.

Luís Fernandes, presidente da Liga de Amigos do Hospital de Abrantes
Luís Fernandes, presidente da Liga dos Amigos. Foto: mediotejo.net

A par da cerimónia, tempo para balanço sobre a atividade da Liga de Amigos do Hospital de Abrantes, que vê no envelhecimento dos corpos sociais e no desapego da tomada de responsabilidades institucionais e associativas uma das maiores preocupações para o futuro da instituição.

“O rejuvenescimento dos órgãos sociais é o grande problema das instituições. Esse é o grande problema e será no futuro, e não sei como vai ser resolvido”, assumiu Júlio Miguel, tesoureiro da Liga dos Amigos.

Júlio Miguel explicou à comunicação social que a nível de corpo de voluntários, atualmente cerca de trinta no ativo, costuma ser relativamente fácil cativar pessoas a dar do seu tempo ao outro, ainda que continue a ser um desafio conseguir conquistar as gerações mais novas para se responsabilizarem e contribuírem com este gesto de cidadania e altruísmo.

Júlio Miguel, tesoureiro da direção da Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes

Os últimos dois anos não foram fáceis, pois a pandemia veio colocar entraves à atividade da Liga, mas os apoios sociais, enquanto principal força motriz da fundação e atuação da instituição, continuaram a decorrer com normalidade.

Agora a LAHA pretende retomar a atividade nomeadamente a nível do bar, bazar e voluntariado. No que toca ao voluntariado haverá reajustes na atuação, com formação para a entrada de voluntários numa nova realidade, pós-pandemia, e que exigirá comportamentos diferentes mediante os contextos hospitalares onde servirem.

As formações estão a ocorrer a nível do CHMT, nos três hospitais, para homogeneização do trabalho efetuado e a Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes espera conseguir ainda este ano arrancar gradualmente com as ações de voluntariado na parte da consulta externa.

Júlio Miguel, tesoureiro da direção da LAHA. Foto: mediotejo.net

Ainda assim, dependerá sempre dos intermediários dos serviços e direção, que orientarão o trabalho dos voluntários mediante as necessidades detetadas. “O nosso trabalho irá crescendo de acordo com aquilo que nos vá sendo pedido. Os voluntários não querem ser entendidos como um empecilho ou um estorvo à atividade da parte médica do hospital”, notou Júlio Miguel.

Já atrair pessoas jovens a este projeto tem sido uma das preocupações, até porque o rejuvenescimento do corpo de voluntários não tem tido muito sucesso, pese embora tenha sido feito um protocolo com a ESTA nos últimos anos, permitindo aos alunos fazerem voluntariado no Hospital de Abrantes com a Liga dos Amigos.

“No contexto atual todos os currículos são maximizados com uma situação de voluntariado (…) tem que haver alguma coisa que seja diferenciadora, e por vezes passa pela postura do voluntariado”, além de que contribui para a formação dos cidadãos, homens e mulheres, do futuro, destacou o tesoureiro, indicando que se pretende reativar a parceria com a ESTA, que se quebrou com a chegada da pandemia de covid-19.

Durante a sessão houve ainda lugar a intervenções de parabenização à Liga dos Amigos e à sua direção, tendo sido a equipa de Luís Fernandes muito elogiada por todos os intervenientes, desde logo pelo Cónego José da Graça e pelo Padre António Castanheira, que acompanharam e acompanham a jornada da IPSS.

Também o presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT), Casimiro Ramos, fez referência à importância do trabalho e serviço prestados pela LAHA no Hospital de Abrantes.

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Casimiro Ramos, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo

Por seu turno, Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes, não escondeu o orgulho naquela instituição e a admiração pelo “abrantino notável” que é Luís Fernandes.

O edil protagonizou o discurso mais efusivo da sessão, visivelmente entusiasmado e inspirado pela vida e obra do médico-cirurgião, com capítulos que se fundem com a história do hospital e da própria cidade. Manuel Jorge Valamatos agradeceu o serviço prestado à comunidade e à unidade hospitalar de Abrantes, fazendo reconhecimento público ao trabalho que vem sendo desenvolvido ao longo das duas décadas de existência.

Manuel Jorge Valamatos, presidente da CM Abrantes
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Seguiu-se o descerramento das placas de homenagem aos quatro distinguidos, cujos nomes agora ladeiam a porta de entrada na sala da Liga dos Amigos, para que todos se recordem do que esteve na génese da criação desta instituição e que tomem balanço para fazer face aos desafios dos próximos anos.

Posto isto, e porque o dia era de festa, tempo de cantar os parabéns à Liga com direito a bolo de aniversário, que numa tarde chuvosa e de tempestade adoçou o ambiente, acompanhado de chá e café para aquecer ainda mais a alma e o convívio entre esta grande família nascida em prol do voluntariado no Hospital de Abrantes.

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Nesta celebração dos 20 anos de atividade e fazendo uma retrospetiva de tudo o que já foi feito e investido, pretende a Liga dos Amigos “reunir motivações e estímulos fortes para renovar a vontade de bem servir o próximo, encarando o futuro com confiança e esperança, sempre e apesar de tudo”.

Olhando o horizonte, a Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes formula “votos de esperança num futuro mais solidário e humanista, com o contributo imprescindível de muitos voluntários de todas as idades, por um melhor Hospital, melhor SNS e melhor País”.

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Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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