João Silva Tavares celebrou 100 anos de vida com a sua família e a comunidade de Alferrarede. Foto: mediotejo.net

As celebrações do centésimo aniversário de João Tavares aconteceram no dia 20 de agosto no edifício sede do Grupo Silva Tavares, em Alferrarede, e vão decorrer ao longo dos próximos 12 meses sob o mote ‘100 anos de Passado… Presente para o Futuro!’ com a criação e realização de diversos eventos ligados a toda a sua experiência de vida em temas como Ciência, História, Literatura, Artes Plásticas.

A festa contou a presença de um João Silva Tavares que revelou autonomia, energia e lucidez bastante para conversar e brincar com todos os convivas, sendo de destacar a presença de muitos familiares, empresários, autarcas, amigos, funcionários e antigos trabalhadores das empresas do grupo empresarial, (farmácia, laboratórios de análises, perfumaria e restaurante-bar Comércio e Indústria), grupo empresarial vai já na sua terceira geração, tendo o mediotejo.net recolhido testemunhos de amigos, familiares e do próprio João Tavares neste dia festivo.

VIDEO/REPORTAGEM – 100º ANIVERSÁRIO DE JOÃO SILVA TAVARES:

Sócio fundador do Rotary Clube de Abrantes, João Silva Tavares tem um percurso profissional de reconhecimento indiscutível, sendo conhecido em Abrantes pela sua farmácia com avançada tecnologia e pelo Laboratório de Análises que fundou, em Alferrarede, e que ainda o mantém ativo, aos 100 anos, tendo já expandido a sua atividade muito para além das fronteiras do concelho.

Mas na sua vida destacam-se muitos outros momentos, como o facto de ter sido o primeiro presidente da Junta de Freguesia de Alferrarede e de ter sido presidente da Assembleia Geral dos Dragões, clube de futebol da sua freguesia, sendo de destacar que teve lutar duramente para poder trabalhar e estudar.

Durante a 2ª Guerra Mundial, João Silva Tavares serviu na Marinha Portuguesa. Depois fez o bacharelato, em Lisboa, e a licenciatura em Farmácia, no Porto. Ao longo da sua vida, João Silva Tavares envolveu-se em diversas missões ligadas às áreas da Farmácia, das Análises Clínicas e da Educação Sanitária, tendo sido fundador da Associação Portuguesa de Analistas Clínicos.

Em muitas das suas atividades foi acompanhado e apoiado pela esposa, Maria Salomé Falcão, falecida em 1976, com quem teve quatro filhos que lhe deram quatro netos.

Cumprido um século de vida, farmacêutico de profissão e analista de coração (o inverso também é verdadeiro), diz ser “um velho que tem saudades da medida de leite que as vendedoras nos lançavam na praça, quando passávamos pelo meio do mercado diário” onde hoje está a Câmara Municipal de Abrantes. João Dias da Silva Alves Tavares tem saudades de tempos menos apressados contudo mais vigorosos com um interior pujante sem medo do futuro.

Aos 100 anos é considerado por aqueles que o conhecem como “um exemplo enriquecedor” no servir da comunidade, sendo o rotário português com mais tempo de missão de elo entre o seu clube – o Rotary Club de Abrantes, que ajudou a fundar – e a Fundação Rotária, numa conta que soma mais de 40 anos.

Em Abrantes toda a gente conhece o doutor Silva Tavares, quer pela sua farmácia, quer pelo seu laboratório de análises de avançada tecnologia que instalou em Alferrarede, onde ainda passa parte dos seus dias, apesar de ter entregue os comandos do negócio ao seu neto Luís Pedro, “a alma do laboratório”, como lhe chama.

O Laboratório Silva Tavares apresenta-se atualmente como uma estrutura sólida nos cuidados de saúde. Possui laboratórios de análises clínicas de Norte a Sul o País, contando com cerca de duas dezenas de unidades de recolha. Presta serviços a empresas, câmaras municipais, entidades públicas e particulares à escala nacional e mesmo além fronteiras, através do seu portal online onde os portugueses na diáspora podem aceder aos resultados das suas análises realizadas em território português.

Uma aventura que iniciou há 72 anos em parceria com a sua mulher, Maria Salomé Margarido e Silva Falcão, depois de outras aventuras mais difíceis como os quase seis anos que passou na Marinha Portuguesa durante a II Guerra Mundial em viagens de Cabo Verde para o Brasil.

Na realidade foram “cinco anos, quatro meses, 23 dias, 17 horas e 30 minutos”, precisa. Sem perder a memória, porque a vida dura de marinheiro custou-lhe “imenso!” afirma, até porque a ambição impedia-lhe que corresse água salgada nas veias mas sim a vontade de ser farmacêutico. Quis o destino, e ajudou a mulher, que acrescentasse a profissão de analista.

Amigos, familiares e comunidade de Alferrarede e Abrantes felicitaram os 100 anos de João Silva Tavares. Foto: mediotejo.net

Na Marinha, numa das viagens no navio Tejo, recorda que em Cabo Verde “na Cidade da Praia estava o Regimento de Infantaria de Abrantes. Foram ter ao meu barco dois rapazes, um deles relojoeiro que tinha uma casa em Abrantes de fronte da casa da minha mulher de onde eu a espreitava e o outro sobrinho do diretor do Hospital Militar em Lisboa, Carrilho Ribeiro”. Lembranças de estar a bordo com o pé torcido, uma das marcas que trouxe da Marinha Portuguesa da qual não tem saudades e considera ter sido “uma perda de tempo”.

Mas vamos por partes nesta história: Primeiro, Alferrarede, onde nasceu “oficialmente a 25 em agosto de 1922”, nota, naquela época freguesia de São Vicente de Abrantes. Na verdade, a sua mãe deu à luz cinco dias antes mas, “naquele tempo para não pagar multa” no registo civil, a data registada para a posteridade ocultou o dia 20.

Segundo, Barca do Pego, para onde foi viver, após o pai regressar da Primeira Guerra Mundial. Uma povoação diferente pelas imensas narrativas aliadas ao Tejo. As suas tradições bem como histórias ligadas à cal hidráulica, ao comércio marítimo, assentam na quase invencibilidade do seu papel enquanto via de transporte de mercadorias não fosse a chegada da modernidade. Os seus pais chegaram de Proença-a-Nova para construir um lar por terras ribatejanas.

Em Abrantes, João Tavares recorda o professor Octaviano Augusto Machado Leal, o homem que, a seguir ao pai, lhe mereceu “maior respeito”. Diretor do Colégio da Broa – onde conheceu aquela que viria a ser a sua esposa, apesar do colégio ser só para rapazes, em 1937 foram anunciadas meninas – e seu professor na Escola Luís de Camões. “Os alunos faziam brincadeiras com todos os professores exceto com o professor Leal, não que batesse”.

Só recorda um dia “em que bateu a todos os alunos com a régua” já não tem presente o motivo, afinal passaram 94 anos, mas por certo “alguém terá cometido uma gafe daquelas valentes”, sublinha.

João Silva Tavares nasceu a 20 de agosto de 1922 e cumpre 100 anos de vida numa festa em comunidade. Foto: mediotejo.net

Chegado ao quinto ano do liceu, o seu pai, militar, foi colocado em Lisboa, em dezembro, na Direção de Artilharia onde estava “uma espécie de Museu Militar antigo” e no Campo de Santa Clara foi morar com a família, os pais e os três irmãos. Na capital travou conhecimento com um dos professores do Colégio Manuel Bernardes onde acabou por estudar juntamente “com os meninos ricos”. A permanência revelou-se curta porque o pai “não tinha dinheiro para pagar”, esclareceu.

Nessa sequência, apareceu-lhe o anúncio para a Escola de Alunos Marinheiros, uma maneira que encontrou para seguir em frente. “Eram muitos rapazes a concorrer, 98 creio, ficámos 7” para onde entrou em 1939. Faltou-lhe uma bolsa de estudo para prosseguir o sonho de ser farmacêutico em vez da Marinha.

Talvez por isso, o Rotary Club de Abrantes, do qual foi sócio fundador em 1980, tenha sido “uma oportunidade” para se resgatar da bolsa que nunca lhe deram. Quando de Tomar chega o incentivo “para formar o Rotary dediquei-me às bolsas de estudo para alunos com necessidades” financeiras. Atualmente o clube rotário de Abrantes, numa parceria com a Câmara Municipal, mantém a tarefa de atribuir anualmente bolsas de estudo a alunos da região.

Alguns anos depois, João reencontrou, em Abrantes, a mulher da sua vida com quem namorou 13 anos à distância. Também a rapariga, filha de pai militar, saltitou de Abrantes para Lisboa, de Lisboa para Torres Vedras. Ainda estudantes, casou com Maria Salomé na véspera de Natal de 1950. É para Alferrarede que o casal de jovens farmacêuticos regressa para se instalar em 1952, João Silva Tavares recém-formado na Faculdade de Farmácia do Porto, a fim de estabelecer a sua vida familiar e profissional numa época de penúria social.

Portugal era um país rural e pobre, com Salazar no Governo, Craveiro Lopes em Belém e Cerejeira na Igreja. Tal como a vizinha Espanha, fora poupado à Grande Guerra mas, apesar disso, não progredia. Era, igualmente, o tempo do Império Colonial, da PIDE e do isolamento da ditadura do Estado Novo.

“Não tinha um tostão!” afirma João Tavares, mas quis a fortuna que o dinheiro chegasse via empréstimo bancário graças ao compromisso assumido por dois amigos de seu pai. “Na época 300 contos pagos aos bochechos”, recorda, para adquirir o trespasse da Farmácia Casaca com o apoio de Andrade Passarinho, um amigo de Sardoal, e de um tio de Maria Salomé. Através do amigo José Miranda, a Sociedade Industrial Farmacêutica concedeu-lhe “um mês sem pagar medicamentos” que representava naquela data “27 contos”.

O regresso às origens aconteceu muito por questões familiares. Em Abrantes “a avó da minha mulher estava doente, uma pessoa muito importante para ela com quem tinha vivido na mocidade”. Antes disso, quando saiu da Marinha, trabalhou em Lisboa como escrivão do Depósito de Material de Guerra, dentro do Museu Militar, em Santa Apolónia. Onde esteve até poder fazer o exame de sétimo ano no Liceu Passos Manuel. “Para tal não me deram o dia então despedi-me!”, recorda.

Quando saiu do Museu Militar, por coincidência, o Exército montou o Depósito de Material Sanitário Militar em Benfica e “convidaram-me para ir para lá. Tive de ir à PIDE que queria saber quem eu era” conta, acrescentando que ainda tentou ir para enfermeiro do Exército e da Marinha. Falhou “por culpa” do sogro, mas não desistiu.

Hoje a realidade é bem diferente, reconhece. Os profissionais de saúde, ao acabarem os estudos universitários optam por centros de referência, não os criam. Escolhem serviços de qualidade mais certos nas zonas urbanas. Sem dinheiro raramente investem nos equipamentos e não arriscam inovar no interior do País, que perde população para o litoral. Mas Silva Tavares é de outra geração e Alferrarede constava dos mapas, até no estrangeiro, e fervilhava de emprego e de gente, reflexo da dinâmica social, comercial e industrial de então.

Primeiro que o marido, desde 1949, Maria Salomé antes de terminar o curso universitário, iniciou-se na profissão de analista. João Sousa Tavares um ano depois, também numa fase de pré conclusão do curso de Farmácia, embora oficialmente apenas muito mais tarde.

Estabelecido como farmacêutico, iniciou a sua profissão de analista em 1964 quando organizou, com 50 farmacêuticos, o primeiro Colóquio Regional de Educação Sanitária, promovido pelo Sindicato Nacional dos Farmacêuticos. Na época uma iniciativa “inovadora” e o primeiro passo para que oficialmente fosse reconhecido como analista, quando lhe atribuíram “15 postos do serviço médico/sociais para trabalhar”.

As análises surgiram porque João precisou de ir em auxílio de Salomé. Inicialmente compraram uma pequena sapataria na cidade de Abrantes, junto aos antigos Claras, onde instalaram o primeiro laboratório “mas não era possível” e passaram para Alferrarede. “Depois foi aumentando”, conta.

Contudo, nem só de saúde pública foi feita a vida de João Silva Tavares. Destaca-se como o primeiro presidente da Junta de Freguesia de Alferrarede (criada em 1959) e ainda como presidente da Assembleia Geral dos Dragões, clube de futebol da sua freguesia. Acredita que talvez à laia de “reconhecimento pelo serviço social que a farmácia prestava aos jogadores fornecendo medicamentos e ligaduras gratuitamente durante anos”, brincou.

A comunidade “sempre lutou por Alferrarede ser freguesia. E o meu nome deve ter sido sugerido ao Sr. Simão, o magnata dos azeites de Alferrarede, e ao Dr. Cabral de Andrade, que vieram ter comigo à velha farmácia”, disse. Estiveram duas horas na conversa mas Maria Salomé não queria que João “se metesse na política”. Perante a insistência e garantias de que naquele pedido “não havia qualquer intenção política”, João Silva Tavares foi nomeado para ser eleito cinco meses depois. Ficou por lá quatro anos, altura em que decidiu sair porque “queria água para Alferrarede Velha, mas só houve para a Chiança” e deixou-se de administração pública.

João Silva Tavares foi ainda responsável pela instalação do laboratório de análises clínicas no antigo Hospital de Abrantes e também no novo Hospital, conhecido hoje por Hospital Doutor Manoel Constâncio.

Conta que o Clube Desportivo e Recreativo ‘Os Dragões’ é “muito antigo”, e na temática da sua origem, só relaciona com uma casa que comprou em Alferrarede, onde hoje está construído o laboratório.

“Tinha a todo o comprimento uma lista de azulejos com dragões coloridos e no topo dessa lista uma imagem com um fulano a agarrar umas pedras onde se lia ‘A União Faz a Força’”, disse, explicando que Os Dragões eram defronte e portanto, o antigo dono daquela casa “foi um incompreendido”.

Nem mesmo João o compreendeu, caso contrário tinha deixado a imagem intacta como “um marco para Alferrarede em toda a sua pujança”. Do outro lado da rua existia outro edifício com os mesmos dragões, que “dava um certo caráter” ao local e pensa-se que a origem do nome deve-se ao facto do clube estar instalado naquele edifício e “começaram a chamar ao clube, Os Dragões”.

João Silva Tavares, 100 anos de vida celebrados em comunidade. Foto: mediotejo.net

O papel social da farmácia não se ficou só pelo clube de futebol porque nos anos 1960 a Farmácia Silva Tavares acudia os mais necessitados em serviços médicos, tendo em conta a carência desses serviços permanentes no Hospital do Salvador (Hospital da Misericórdia de Abrantes), nem um serviço de urgência como viria a acontecer a partir de 1985 com a construção do Hospital Distrital de Abrantes.

Parece que foi noutra vida mas Alferrarede apresentava-se como um centro fabril onde viviam “pessoas extremamente pobres e que chegavam à farmácia em qualquer circunstância” como se de um banco de urgência se tratasse, recorda. “À noite, queimava-se um, vinham a correr”. João Silva Tavares refere-se à recolha de água a ferver que saía da fábrica da Companhia União Fabril aproveitada pelas mulheres para lavar a roupa ou a loiça.

João Silva Tavares lamenta com tristeza o abandono da sua terra. “Há um armazém de vinhos encerrado há 40 anos. Havia fábricas de tratamentos de madeiras e resinas, a Roldão & Roldão uma estação de combustível, fábricas de produtos químicos e o próprio caminho-de-ferro”. Fala de um projeto existente há mais de 15 anos para a recuperação do centro histórico de Alferrarede mas que “nunca mais mexe”, lastima.

Alferrarede mostrava nos anos 1960 um ambiente social “como se fosse o bairro chinês em Londres. A toda a hora, devido às fábricas, pequenos comboios para ir ao fontanário buscar água quente até às duas da manhã, bicicletas, camiões a transportar resinas… era um interposto de madeiras importante, além de estar no mapa europeu da petroquímica”.

João Silva Tavares, 100 anos de vida celebrados em comunidade. Foto: mediotejo.net

Saídos do centro da cidade, em 1971 o laboratório era já na Rua do Comércio, juntamente com a farmácia e a casa de família, no segundo andar. Durante muitos anos o laboratório funcionou como “escola” onde aprenderam aqueles que seriam os seus futuros concorrentes. Até que ganhou uma dimensão do século XXI integrando três gerações da família Silva Tavares a trabalhar no laboratório e na farmácia.

“Só conseguimos sobreviver expandindo-nos e porque damos uma resposta extremamente rápida com resultados seguros”. Por outro lado, o negócio da farmácia caiu – “pertence a uma área que foi esmagada” -, orgulhando-se, no entanto, de ser um visionários e dos primeiros farmacêuticos a possuir armários que escondiam os remédios.

Momentos de glória, outros difíceis claramente ultrapassados, com o mais duro golpe no falecimento da mulher em 1976. Contudo, apoiado pelos quatro filhos, João Silva Tavares nunca parou de inovar, investir e apostar nas novas tecnologias. Na farmácia Silva Tavares, por exemplo, “a informática chegou primeiro que ao Instituto Nacional de Farmácia e do Medicamento”.

Sobre Deus diz que lhe tira com uma mão e dá com outra. “Não me posso queixar!”.

João Silva Tavares festejou os seus 100 anos de vida em comunidade e junto de familiares e amigos. Foto: mediotejo.net

Texto, fotos, multimedia, biografia e entrevista: Mário Rui Fonseca e Paula Mourato

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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