O auditório da Santa Casa da Misericórdia, em Abrantes, foi palco das Jornadas do Voluntariado, evento que assinalou o Dia Internacional do Voluntariado. A iniciativa, promovida pela Câmara Municipal em parceria com a Santa Casa da Misericórdia, pretendeu valorizar o papel dos voluntários e dar visibilidade a projetos sociais que fazem a diferença na comunidade.
Em representação da Confederação Portuguesa do Voluntariado, Paulo Sousa sublinhou que o Dia Internacional do Voluntariado é “um dia muito bonito” e que a data, instituída pelas Nações Unidas, existe para “reconhecer e homenagear pessoas bonitas”, que “dão um bocadinho de si, do seu tempo e do seu saber em prol da comunidade e do bem do outro, de forma voluntária, benévola e gratuita”.
Defendendo que o voluntariado não beneficia apenas quem recebe, Paulo Sousa afirmou não concordar com a visão de que são apenas as comunidades as verdadeiras destinatárias da ação voluntária.
“Nós, voluntários, também recebemos muito”, disse, considerando que dar um pouco de si contribui para a realização pessoal e profissional, reforça a ligação ao território e pode até ajudar a fixar pessoas.

Em nome da Confederação Portuguesa do Voluntariado, garantiu empenho na defesa dos princípios do setor, mas deixou críticas ao enquadramento legal atual. Recordou que o estatuto que regula programas e atividade de voluntariado “é do século passado”, datando do final dos anos 90, e “não responde à realidade de hoje em dia”.
No final da sua intervenção, vincou que 2026 será considerado o Ano Internacional dos Voluntariados, o que representará uma “grande oportunidade” para desenvolver programas, capacitar organizações e reforçar a formação dos voluntários.
O presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, começou por agradecer o trabalho das instituições do concelho, sublinhando que, no Dia Internacional do Voluntariado, é impossível não reconhecer o papel fundamental que desempenham.
Sublinhou ainda a importância do tecido associativo e dos voluntários na cidade de Abrantes, acrescentando que quanto mais associações existirem, melhor preparado está o território para dar respostas essenciais às populações.

Na sua intervenção de boas-vindas às jornadas, o edil garantiu que a Câmara continuará a assumir as suas responsabilidades, apoiando as instituições, criando condições para que o voluntariado cresça e mantendo o Banco Local de Voluntariado como ferramenta útil e acessível, considerando que as jornadas são uma oportunidade para discutir desafios, necessidades e soluções práticas que possam ser aplicadas no terreno.
Valamatos lembrou que o voluntariado é “uma peça fundamental de uma comunidade forte e unida” e que Abrantes tem demonstrado, ao longo dos anos, que “sabe cuidar dos seus”. Reforçou que o município continuará a apoiar e valorizar um trabalho que “tantas vezes é silencioso, mas nunca é pequeno”.


Durante a tarde de trabalho, teve lugar um painel de testemunhos de voluntários envolvidos em projetos nacionais e internacionais. Bruno Neto esteve ausente das Jornadas do Voluntariado, encontrando-se atualmente na Jamaica a prestar apoio humanitário na resposta ao furacão Melissa. A partir do estrangeiro, deixou uma mensagem sobre a sua trajetória enquanto voluntário, recordando as primeiras experiências, como o intercâmbio juvenil na Jordânia aos 25 anos.
“Foi uma experiência brutalmente incrível”, afirmou, destacando que esses 15 dias lhe abriram horizontes e o motivaram a realizar um ano de voluntariado naquele país. Desde então, Bruno desenvolveu atividades em mais de quarenta países e viveu em doze, passando do voluntariado local para projetos internacionais, demonstrando como experiências iniciais podem transformar uma vida dedicada à ajuda ao próximo.

Alice Ferreira, pediatra, partilhou a sua experiência de 12 anos na Missão Católica de Cumura, na Guiné-Bissau, destacando os enormes desafios enfrentados devido à escassez de recursos, medicamentos e equipamentos médicos. Na sua intervenção, enfatizou a importância do voluntariado na melhoria das condições de saúde da comunidade local e na promoção de cuidados médicos essenciais num contexto com recursos limitados.
Ana Ribeiro Rosa, por sua vez, apresentou o projeto “Pão por Deus”, um programa de apoio a idosos em São Tomé e Príncipe, fundado em novembro de 2021. A iniciativa tem como principal objetivo fornecer apoio alimentar a idosos carenciados, garantindo que as necessidades básicas de nutrição desta população vulnerável sejam atendidas.

O projeto desenvolve-se através de uma rede de voluntários e parceiros locais, permitindo distribuir alimentos de forma regular e organizada, e procura também promover a inclusão social e o bem-estar dos idosos, muitas vezes isolados.
Após um coffee-break, subiram ao palco agentes locais para apresentar iniciativas de voluntariado no concelho. Claudemiro Cadete, docente na Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, subiu ao palco acompanhado por quatro estudantes que integram a “Associação Juventude Amiga”, para dar a conhecer o trabalho realizado.
O projeto Juventude Amiga, criado em 2007/2008 na Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, nasceu de um trabalho escolar e evoluiu para uma associação de voluntariado que envolve hoje cerca de 150 alunos, 40 sócios e três professores.


A iniciativa promove cidadania, solidariedade e apoio social, articulando-se com a comunidade escolar e com várias entidades parceiras, desenvolvendo atividades que vão desde feiras temáticas, espetáculos solidários e projetos de acolhimento de novos alunos, até campanhas de recolha de bens, apoio a famílias carenciadas e voluntariado em instituições sociais, contribuindo para formar jovens mais conscientes e interventivos.
Entre os projetos atualmente ativos destacam-se o apoio alimentar a famílias, o cabaz de Natal, a iniciativa “Adota um Avô”, a integração de alunos do 5.º ano através de tutores mais velhos e ações de voluntariado. De acordo com os jovens que integram a iniciativa, o impacto do projeto mede-se tanto pelo apoio direto às famílias como pelo envolvimento crescente de alunos, fortalecendo laços entre gerações e contribuindo para uma comunidade mais solidária.
Mauro Moura apresentou o “Projeto no Hospital” da Academia Bi.dom, que nasceu em 2013 como um grupo de amigos ligados às artes e que começou por dinamizar pequenas animações na cidade. Nesse primeiro ano, após atuarem como Pai Natal nas ruas, decidiram de forma espontânea visitar a Misericórdia e, no dia 24 de dezembro, subir também ao Hospital de Abrantes para levar alguma alegria a quem passava o Natal internado. A experiência emocionou o grupo e marcou o início de uma tradição anual.

Com o passar dos anos, a equipa cresceu, os trajes evoluíram e o grupo passou a organizar uma verdadeira animação nas unidades do hospital, visitando quartos, distribuindo balões e interagindo com doentes, profissionais de saúde e auxiliares. Durante a sua intervenção, Mauro descreveu o impacto emocional destas visitas, quer nos doentes, quer na própria equipa, que muitas vezes tem de se recompor entre quartos.
Mauro destacou ainda que esta é a única animação da Academia Bi.dom que não é remunerada e que, entre os vários elementos que trabalham com a associação ao longo do ano, há sempre quem queira participar nesta visita, apesar da exigência emocional.
O projeto “Mãozinhas que Salvam Vidas”, desenvolvido em parceria pelo Rotary Club de Abrantes e pela Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Abrantes (AHBVA), foi apresentado por Nilsa Rito. A iniciativa procura ensinar gestos simples que podem salvar vidas e incutir desde cedo uma cultura de responsabilidade e cuidado coletivo entre as crianças e jovens do concelho.
A iniciativa, que conta com apoio financeiro e logístico da Câmara de Abrantes, tem como foco os alunos do 1.º, 2.º e 3.º ciclos, envolvendo turmas dos 2.º, 4.º, 6.º e 8.º anos. A escolha destas faixas etárias assenta em fundamentos científicos que indicam que entre os 4 e os 12 anos as crianças têm maior capacidade de retenção destes conhecimentos, podendo mais tarde fazer a diferença em situações reais de emergência.

Segundo Nilsa Rito, o projeto assenta numa estrutura simples: as escolas fornecem os alunos, a AHBVA assegura a formação e o material pedagógico e o Rotary Club de Abrantes assume a coordenação e dinamização geral da iniciativa, articulando com o município os recursos necessários.
Além de formar alunos, a associação tem vindo também a capacitar professores, permitindo que estes possam transmitir os conteúdos ao longo de vários anos letivos. Até ao momento, já foram formados 62 docentes, que poderão replicar os ensinamentos junto das suas turmas durante cinco anos. Nos últimos dois anos, o projeto alcançou 1098 alunos do 1.º ciclo, 1201 alunos do 2.º e 3.º ciclos,
Os objetivos para 2025/2026 passam por voltar a abranger todos os alunos do 2.º e 4.º anos e, se possível, concretizar dois “mass trainings” dirigidos às turmas de 6.º e 8.º anos e, ainda, um encontro de voluntários.
“Estas mãozinhas representam mais do que um gesto técnico. Representam cuidado, responsabilidade coletiva e amor ao próximo”, afirmou, defendendo que ensinar crianças a salvar vidas é uma forma de construir uma sociedade melhor.

Vânia Grácio, da Associação Vidas Cruzadas, apresentou o “Projeto de Apadrinhamento – Construir Sorrisos”, uma iniciativa que começou por ser interna à associação, mas que hoje resulta de uma parceria alargada entre várias entidades.
O primeiro modelo, criado no início da atividade da associação, consistia numa base de dados de padrinhos e madrinhas disponíveis para apoiar necessidades específicas de crianças acompanhadas, como a compra de óculos, participação em atividades ou material essencial que as famílias não conseguiam assegurar.
O projeto ganhou nova dimensão a partir de 2013, com a criação da parceria informal PIIPCCA – Parceria para a Intervenção Integrada na Proteção da Criança, que reúne mensalmente um grupo de profissionais de entidades públicas e privadas com intervenção em famílias com crianças e jovens em situação de risco para discutir casos, identificar novas situações e procurar soluções adequadas a cada caso.

Deste trabalho conjunto nasceu, em 2018, o Construir Sorrisos, uma iniciativa que funciona sobretudo através de uma página de Facebook onde são publicados pedidos numerados feitos por crianças, sobretudo no Natal e no regresso às aulas. Os padrinhos escolhem o pedido a apoiar e entregam o presente na associação, que depois faz chegar os bens às crianças.
De acordo com Vânia Grácio, o projeto tem registado ampla adesão da comunidade: a campanha de Natal deste ano foi totalmente apadrinhada em menos de uma hora. Desde 2018, cerca de 800 crianças já foram apoiadas através desta dinâmica.
Glória d’Albuquerque deu a conhecer o projeto da Colónia de Gatos do Bairro Vermelho, em Abrantes, existente desde 2016. Residente no bairro, a oradora explicou que decidiu enfrentar o crescente número de gatos abandonados.
Com o apoio de uma turma da Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, lançou um projeto de angariação de fundos que permitiu esterilizar todos os animais, garantindo que desde então não tenham voltado a nascer ninhadas no local.

Com a pandemia, o financiamento terminou, levando Glória a contactar os serviços veterinários do município, que passaram a assegurar a esterilização dos novos gatos que surgem na colónia. Desde essa altura, Glória assumiu a título individual os cuidados diários, com alimentação, desparasitação, bem-estar e acompanhamento veterinário, contando também com o apoio próximo e constante dos vizinhos.
De acordo com a voluntária, a colónia mantém-se estável, com abrigos próprios construídos no bairro e acompanhamento regular por um veterinário local. Entre resgates, tratamentos e a integração de novos animais, o projeto é um exemplo de responsabilidade comunitária.
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