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A iniciativa decorreu no edifício Pirâmide, ao longo da tarde de terça-feira, 29 de outubro, reunindo especialistas da área, autarcas, alunos do ensino secundário e a comunidade em geral. Entre os principais temas a debate esteve a Linha Verde AVC, a recuperação no pós-AVC e o impacto emocional nos utentes que passaram pelo diagnóstico.

Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes, deu início aos trabalhos tendo destacado um “tema emergente” e que importa ser falado, tendo em conta os “números impressionantes” que apontam para uma média de três AVC por hora, dados que adquirem maior importância quando se tem em conta as “sequelas que estes acidentes promovem e deixam nos cidadãos”.

“No âmbito do Centro Hospitalar e graças aos nossos profissionais, nós temos vindo a melhorar cada vez mais, a prestar um serviço com maior qualidade e com respostas cada vez mais rápidas e competentes”, destacou o autarca.

Tendo em conta as dimensões do concelho de Abrantes, o que leva a que determinados pontos do concelho fiquem a trinta minutos de distância para os meios de socorro, Valamatos afirmou que a autarquia está a preparar a aquisição de mais uma ambulância e a colocação, no território, de “novos dispositivos capazes de responder o mais rápido possível às nossas pessoas. E quando se fala em AVC, quanto mais rápida for a resposta à emergência, melhor conseguimos resolver ou mitigar as consequências do AVC”, vincou.

Tiago Pereira, diretor clínico do Serviço de Urgência do Hospital de Abrantes, começou por recordar que a doença cerebrovascular constitui a primeira causa de mortalidade e morbilidade, sendo o AVC agudo considerado uma emergência médica. A referenciação destes doentes, nomeadamente com AVC isquémico, está associada a uma maior possibilidade de tratamento, reduzindo a incapacidade e a mortalidade.

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Para o efeito, existe a Via Verde AVC, que corresponde a um protocolo de emergência médica para a abordagem, encaminhamento e tratamento mais adequado e expedito, nas fases pré, intra e inter-hospitalar, procurando-se reduzir o tempo entre o início dos sintomas e o início terapêutico de fase aguda.

O diretor clínico explicou que na ULS do Médio Tejo, a Via Verde AVC (VV-AVC) funciona em permanência e deve ser ativada sempre que um doente apresente um défice neurológico de instalação aguda, sendo o médico responsável da VV-AVC é contactado com a descrição do caso.

Concluída a primeira etapa, segue-se o processo de triagem, sendo o utente encaminhado para a Sala de Emergência e mobilizada a equipa médica e de enfermagem, para realização dos exames complementares e monitorização de parâmetros para, posteriormente, proceder à decisão terapêutica e encaminhamento do utente.

Para Tiago Pereira, “tempo é cérebro”, motivo pelo qual os utentes em que os sintomas são diagnosticados e procuram ajuda em tempo inferior a quatro horas têm maior probabilidade de sucesso no tratamento. Relativamente a números, em 2023, a VV-AVC da ULS do Médio Tejo referenciou 263 pessoas, uma média de 22 pessoas por mês.

Quanto à prevalência do AVC por faixas etárias, destaque para os 80 ao 89 anos, a faixa com maior ocorrências, seguindo-se os 70-79 e a dos 60-69. Em termos de género não se registam diferenças, sendo um problema de saúde que atinge tanto homens como mulheres.

O enfermeiro especialista em Reabilitação da UCSP de Mação – ULSMT, Diamantino Veríssimo, abordou a importância do processo de reabilitação nos utentes que sofreram um AVC, processo que requer uma abordagem multiprofissional, que inclui médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e terapeutas e ainda psicólogos/neuropsicólogos e serviço social.

De acordo com o enfermeiro, a reabilitação deverá ser iniciada o mais rápido possível, sendo o doente sujeito a reeducação funcional motora, estimulação cognitiva, atividades terapêuticas e estimulação sensorial; treinos de marcha e deglutição, bem como terapia social.

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Para uma efetiva reabilitação após o AVC, Diamantino Veríssimo vincou ainda ser essencial o apoio social e o envolvimento dos familiares e cuidadores, bem como a prevenção de complicações, de úlceras por pressão e também de quedas.

A sessão, moderada por Luís Amaral, médico da USF D. Francisco de Almeida, contou ainda com uma sessão dedicada ao impacto emocional do AVC, pela psicóloga Mónica Mata e a partilha de testemunhos através do Grupo de Ajuda Mútua (GAM) de Abrantes e Portalegre.

Em declarações ao mediotejo.net, a vereadora Raquel Olhicas sublinhou a importância da sessão, afirmando ter sido um “momento muito rico de aprendizagens, de construção do novo saber e de alertas”.

Para além de terem sido dados a conhecer os principais sinais de alerta, a vereadora vincou a necessidade de modificar hábitos de vida para a prevenção de um AVC.

ÁUDIO | Raquel Olhicas, vereadora na Câmara Municipal de Abrantes

“Nós sabemos que não conseguimos modificar a idade e a raça, não conseguimos modificar alguns hábitos, mas temos os modificáveis, nomeadamente o tabagismo, o álcool, o sedentarismo. Podemos ter cada vez mais atividade física para evitar situações de acumulação de colesterol no interior das nossas artérias. (…) Se modificarmos, temos menos prevalência de vir a ter uma instalação súbita de um AVC”.

Embora os desenvolvimentos tecnológicos tenham permitido criar unidades especializadas para atender os utentes com AVC, Raquel Olhicas afirma que “ainda falta um bocadinho de literacia em saúde”.

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“Tivemos aqui três turmas do curso técnico auxiliar de saúde e é nesta população mais jovem que nós estamos a apostar constantemente, indo às escolas e trazendo estes jovens ao município para debatermos estas temáticas. Certamente que eles são veículos motores de desenvolvimento de ações promotoras de saúde, ou seja, falam com os amigos, com os pais, eles próprios evidenciam comportamentos de melhoria ao nível do seu hábito e estilo de vida, que é isso que nós pretendemos hoje, é alertar”, sublinhou.

No final da sessão, a vereadora deixou ainda um apelo à população, através dos 3 “F”, que sensibilizam para a diminuição da força, alterações na face, nomeadamente desvio da comissura labial e ainda alterações da fala.

“Não é esperar que passe, não é ir deitar-se para ver se os sintomas, quando acordar, já não estão presentes, é ligar imediatamente o 112 (…) Quanto mais rápido recorrermos à emergência médica e acionarmos o 112, mais rapidamente somos alvo de uma intervenção e a sequela é muito menor (…). Tempo é cérebro”, concluiu.

Nove em cada 10 sem doença cardiovascular tem pelo menos um fator de risco

Nove em cada 10 pessoas sem doença cardiovascular conhecida que foram inquiridas num estudo apresentam pelo menos um dos oito fatores de risco.

O estudo RADICAL (RAstreio DIgital do risco Cardiovascular), que recolheu informação de mais de 4.000 pessoas com idades entre os 40 e 69 anos e sem doença cardiovascular conhecida, concluiu que há uma elevada prevalência nesta população dos fatores de risco modificáveis, como a atividade física, sobrepeso, alimentação ou as horas de sono.

“São pessoas que aparentemente são saudáveis, ou seja, que não têm doença cardiovascular conhecida (…)”, sublinhou o cardiologista Helder Dores, lembrando a metodologia inovadora usada neste trabalho, que teve luz verde da comissão de ética da Nova Medical School.

Segundo explicou, habitualmente o cálculo do risco cardiovascular é feito em consulta, com perguntas aos utentes e usando tabelas que são a probabilidade de a pessoa vir a ter doença.

Neste caso, a inovação foi estratificar o risco à distância, por via digital, conseguindo alcançar mais gente, e o facto de o risco ser autorreportado, explicou o especialista, lembrando que esta opção, além de ajudar a própria pessoa a tomar consciência do seu risco, pode facilitar a deteção mais precoce.

Helder Dores acrescentou ainda que o estudo permitiu estratificar fatores de risco que não são tão estudados nesta franja da população – sem doença cardiovascular.

Destacou os dados recolhidos sobre a inatividade física, com uma prevalência de 33,7%, e as horas de sono, um fator nem sempre relacionado com o risco de doença cardiovascular.

“É muito relevante, embora esquecido, como fator risco cardiovascular”, afirmou o especialista, lembrando que, das pessoas que responderam, mais de metade (58,4%) dormiam menos de sete horas por noite.

O estudo insere-se no projeto Cardio da Vida, uma plataforma de literacia em saúde na área cardiovascular.

Quanto à prevenção, o especialista saudou a possibilidade de as doenças cardíacas poderem passar ser diagnosticadas nos centros de saúde a partir de janeiro de 2025.

Segundo um despacho publicado em Diário da República na semana passada, a partir de janeiro deixa de ser necessário o médico de família encaminhar o utente para o hospital para este tipo de diagnóstico, sendo-lhe permitida a prescrição de exames como “TAC Cardíaca” e “Ecocardiograma de sobrecarga com exercício”, entre outros.

A este respeito, Helder Dores lembrou que a prevenção cardiovascular “não é só um ato que diga respeito ao cardiologista” e que o facto de o doente, se for necessário, ser referenciado para a cardiologia já com exames “acelera o processo para eventuais tratamentos”, o que considera fundamental.

“Em termos clínicos, como é óbvio, se detetarmos mas precocemente uma doença, (…) melhora o prognóstico com intervenções terapêuticas mais precoces, que podem ser implementadas imediatamente. Por outro lado, também se ganha tempo (…), com impacto clínico positivo para o doente”, sublinhou.

O cardiologista disse que “o ónus da saúde não é só dos profissionais de saúde”, sublinhando que cada um deve fazer a sua parte na prevenção da doença.

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo, com 18,6 milhões de mortes/ano. Em Portugal, as doenças do aparelho circulatório causam 35.000 óbitos por ano e são igualmente a primeira causa de morte.

Os oito fatores de risco para as doenças cardiovasculares são a alimentação, exercício físico, tabaco, horas de sono, peso, pressão arterial, níveis de glicose e de lípidos no sangue.

c/LUSA

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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