Escolas de Abrantes com fluxo migratório crescente acolhem alunos de 23 nacionalidades. Foto: CMA

“Ninguém é tão bom quanto nós todos juntos”. Esta foi uma das frases proferidas em mais uma edição do Fórum do Conhecimento em Abrantes, que teve este ano como tema central a “Inclusão: Desafios para o futuro”. Entre reflexões e debates, esta edição deu a conhecer o número de nacionalidades que hoje frequentam as escolas e trouxe testemunhos, na primeira pessoa, de imigrantes que estão no concelho.

Na sessão de abertura, a vereadora Celeste Simão explicou que “é importante estamos aqui hoje tendo em conta a realidade que vivemos nas nossas escolas e na nossa comunidade em geral com o fenómeno das migrações. É tempo de todos refletirmos sobre as mudanças a que temos vindo a assistir. Falemos, assim, de inclusão, que desafios temos para o futuro e o que já estamos a fazer para termos uma comunidade cada vez mais inclusiva e onde todos possam ter o seu lugar”.

Abrantes acolheu mais uma edição do Fórum do Conhecimento que, este ano, teve como tema central a “Inclusão: Desafios para o futuro”. Créditos: mediotejo.net

Num momento em que a integração bem sucedida dos migrantes é considerada fundamental para o futuro do bem-estar, a prosperidade e a coesão das sociedades europeias, em Abrantes ficou-se a saber que os dois Agrupamentos de Escolas do concelho e a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes contavam, em setembro do ano passado, com alunos de 23 nacionalidades.

“Agora já há muito mais”, assegurou ao nosso jornal a vereadora da Câmara Municipal de Abrantes com o pelouro da Educação, Celeste Simão.

Isto porque, segundo a responsável, a migração é dinâmica e “todos os dias chegam pessoas novas” ao território. “Quando peço os números para atualizar o número de alunos, hoje é uma coisa e amanhã já é outra”, declarou.

Abrantes acolheu mais uma edição do Fórum do Conhecimento que, este ano, teve como tema central a “Inclusão: Desafios para o futuro”. Créditos: mediotejo.net

A comunidade brasileira “foi sempre em maior número” embora também ucranianos, particularmente após a guerra ter eclodido naquele país, russos e africanos, dos países de língua oficial portuguesa, revelou Celeste Simão.

“Em setembro do ano passado tínhamos cerca de 23 nacionalidades, agora já há muito mais. Neste momento não consigo ter presente os números, de quantos [imigrantes] temos de cada país mas a verdade é que as nossas escolas, a Escola Manuel Fernandes, Escola Solano de Abreu, Escola Maria de Lourdes Pintasilgo, Escola António Torrado, quase que atingiram, ou atingiram mesmo, o limite do número de alunos. O que quer dizer que a população escolar tem vindo a aumentar muito, também graças aos imigrantes, que queremos acolher bem, evidentemente”.

Com o objetivo de promover a reflexão e o debate sobre o exercício da cidadania, o Fórum do Conhecimento contou com dois temas centrais em debate: a educação e inclusão e os desafios na integração dos migrantes.

Nessa sequência garantiu, em declarações ao mediotejo.net, que a integração dos alunos estrangeiros, no que diz respeito à parte pedagógica “a Câmara Municipal não se intromete de todo”.

A vereadora explicou que, nomeadamente quanto à aprendizagem da língua portuguesa, “os Agrupamentos encontram as suas próprias estratégias”.

Quando os imigrantes chegam ao território e procuram um serviço público, como a autarquia, o acolhimento passa por “encaminhá-los para a escola”.

Também as refeições são “articuladas connosco porque as crianças e os jovens nem sempre comem os mesmos alimentos que temos nos refeitórios. Um trabalho feito pela nutricionista junto das famílias e junto dos jovens nas escolas”, explica. Até porque “há algumas restrições que levam a sério”, como por exemplo o não consumo de carne de porco por um muçulmano.

Abrantes acolheu mais uma edição do Fórum do Conhecimento que, este ano, teve como tema central a “Inclusão: Desafios para o futuro”. Créditos: mediotejo.net

Celeste Simão defende que “a escola não pode estar sozinha a gerir todo este processo. É preciso chamar os parceiros para discutir este assunto e falar dos imigrantes, neste caso em concreto”.

Sobre esse acolhimento de estrangeiros no concelho de Abrantes, do lado dos Agrupamentos os representantes falaram de “empatia” mas também da necessidade de “prevenção” e “recursos”. Na verdade, importa “ser humano”, ou seja, garantir o bem-estar dos alunos durante o processo de inclusão.

No entanto, uma das maiores preocupações manifestada prende-se com “a saúde mental” dos alunos, uma vez que são muitos aqueles que estão medicados com ansiolíticos e medicamentos para a hiperatividade, foi revelado.

No concreto, os Agrupamentos de Escolas de Abrantes oferecem aos alunos estrangeiros aulas de apoio na língua não materna, preocupam-se em “dar dias e horas” aos alunos para se integrarem e fazem um trabalho no sentido de “nivelar as expectativas que, tanto pais quanto alunos, trazem relativamente à escola”.

Daí o encaminhar e sensibilizar para os projetos existentes como “Matemática Mais” e “Desporto Escolar”, ou também contar com uma psicóloga e terapeuta da fala para ajudar a ultrapassar as dificuldades.

Abrantes acolheu mais uma edição do Fórum do Conhecimento que, este ano, teve como tema central a “Inclusão: Desafios para o futuro”. Créditos: mediotejo.net

Os estudantes imigrantes contam, igualmente, com orientação profissional e são apoiados pelo projeto de mentoria, ou seja, alunos portugueses que se voluntariam para ajudar os colegas.

Esse acolhimento passa, ainda, por dois projetos: “Acolher para Integrar” e “Nós sem Fronteiras”, sendo informação dada aos alunos, designadamente portugueses, sobre outras culturas, religiões, etc.

“Criatividade” e “flexibilidade”, por parte do corpo docente e não só, foram outras palavras usadas pelos representantes dos Agrupamento como necessidades apontadas para uma integração escolar com sucesso.

Abrantes acolheu mais uma edição do Fórum do Conhecimento que, este ano, teve como tema central a “Inclusão: Desafios para o futuro”. Créditos: mediotejo.net

Também foram dados a conhecer os projetos de inclusão e integração social, nomeadamente o projeto YOLOabt.com – E9G da Cruz Vermelha Portuguesa – Delegação de Abrantes, e o projeto “Conhecer para Acolher” do Município de Abrantes.

Este projeto, que surgiu no âmbito do do Projeto Educativo Municipal e do PEDIME – Plano Estratégico de Desenvolvimento Intermunicipal da Educação no Médio Tejo, conta com a colaboração e participação de atores locais, nomeadamente com a comunidade cigana, fazendo a ponte entre a escola e a família, inclusivamente realizando sessões sobre a cultura cigana nas escolas, no sentido de respeitar as culturas de origem de cada um e também de reavivar o compromisso do Município com a comunidade educativa.

Para tal conta com mediadores escolares das comunidades em seis escolas do concelho: três do Agrupamento de Escolas nº1 e outras três do Agrupamento de Escolas nº2. Esses mediadores têm ainda a função de dinamizar atividades no interior das escolas.

“O que queremos é ter os jovens ciganos, quanto mais tempo na escola melhor! E isto nada tem contra a sua cultura… porque tiram os filhos cedo. Queremos que os jovens permaneçam na escola muito tempo, tanto rapazes como raparigas, sendo que as raparigas acabam por sair mais cedo… casam cedo”, refere Celeste Simão.

O trabalho do Município passa por “fazer o acompanhamento destes alunos através dos pedidos que a Escola faz”. A vereadora refere, a titulo de exemplo, ações realizadas em algumas escolas “com as famílias ciganas para perceberem a importância do estudar. Não conseguimos a perfeição nunca mas também não podemos baixar os braços e desistir”.

Celeste Simão dá conta de alguns progressos, designadamente, ter “jovens até mais tarde na escola. A terminar a escolaridade obrigatória ainda não conseguimos atingir uma taxa de 100%, não é fácil!”, reconhece.

Porém, acredita que “com insistência, nunca desistindo – não sei se um dia lá chegaremos – que esta taxa venha a aumentar, nem que seja gradualmente”.

ÁUDIO | VEREADORA DA CÂMARA MUNICIPAL DE ABRANTES, CELESTE SIMÃO
Abrantes acolheu mais uma edição do Fórum do Conhecimento que, este ano, teve como tema central a “Inclusão: Desafios para o futuro”. Créditos: mediotejo.net

No final, decorreu uma partilha de testemunhos de migrantes a viver em Abrantes, onde foi sublinhado que a questão das migrações “é fundamental” ser tratada ao nível dos direitos humanos e aprendendo a conhecer o outro e a desconstruir estereótipos.

Entre os cidadãos estrangeiros que deram o seu testemunho, todos positivos, estavam dois angolanos, um de São Tomé e uma brasileira. Porém, uma queixa foi recorrente; prendeu-se com a burocracia, ou seja, com a necessidade das instituições terem funcionários melhor preparados para as matérias da migração, melhor legislação e uniformização dos métodos. A cidadã brasileira, por exemplo, tendo direito, aguarda que lhe seja atribuída cidadania portuguesa há três anos.

O evento contou, também, com a intervenção de João Costa, ex-ministro da Educação, agora diretor da Agência Europeia para o Ensino Especial e Educação Inclusiva, que abordou alguns desafios globais dos sistemas educativos como o caso da inclusão.

“Estamos a viver num contexto muito acelerado e os sistemas educativos são lentos porque gostam de avaliar e monitorizar e isto é pouco compatível com o que está a acontecer”, disse João Costa. “A imigração traz complexidade à realidade da escola porque partimos de contextos em que tínhamos comunidades bilingues e hoje o que é normal é termos 20 a 30 línguas maternas, o que traz desafios para o ensino e para a inclusão”, referiu.

O ex-Ministro da Educação mostrou ainda alguns dados que apontam os benefícios socioeconómicos da educação. Créditos: CMA

Mostrar os benefícios sociais e económicos da educação e garantir a equidade e inclusão através da educação são alguns dos desafios apontados por João Costa para os próximos 6 anos.

O ex-ministro da Educação mostrou ainda alguns dados que apontam os benefícios socioeconómicos da educação, nomeadamente, que quanto mais se estudar, maior é a probabilidade de se ter uma vida melhor, ou quem mais estuda, é mais feliz porque consegue gerir o seu lazer. João Costa defende que “a inovação pedagógica é um instrumento para a inclusão” e que os alunos são um grande recurso para a inclusão.

Em jeito de conclusão, Celeste Simão, no seu discurso de encerramento de mais uma edição do Fórum do Conhecimento, afirmou: “cabemos cá todos!” sendo que “para uma comunidade mais forte, só através de uma Educação inclusiva”.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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