Jorge Costa, diretor do Agrupamento de Escolas nº1 de Abrantes. Foto: mediotejo.net

A Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, sede do Agrupamento de Escolas nº 1 de Abrantes, terá um dos três centros de informática previstos para a sub-região do Médio Tejo, do total de 195 centros de informática dos 365 Centros Tecnológicos Especializados previstos criar até 2025 em território nacional, ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), envolvendo candidaturas de estabelecimentos de ensino públicos com oferta de cursos profissionais e de escolas profissionais, públicas ou privadas.

Tal irá permitir um investimento entre 800 a 900 mil euros, intervindo em sete salas de aula até para dar novas condições a um dos cursos profissionais de referência neste agrupamento escolar, o curso de Técnico de Gestão e Programação de Sistemas Informáticos, conforme explicou em entrevista ao nosso jornal o diretor do Agrupamento de Escolas nº1 de Abrantes, Jorge Costa.

A candidatura foi aprovada na primeira edição do concurso “Investimento RE-C06-i01: Modernização da oferta dos estabelecimentos de ensino e da formação profissional”, encontrando-se ainda a aguardar a decisão final desta fase, por estar a decorrer ainda o período de direito de audiência dos interessados.

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“Iniciaremos logo que possível todo o processo para implementação do CTE”, referiu o docente, dando conta que se prevê a intervenção em sete salas do estabelecimento de ensino, “sendo que quatro já eram de informática, e vão ser requalificadas. Uma das salas será convertida em Sala do Futuro, outra será polivalente, com várias funções, e podendo em particular ser utilizada pelas empresas e instituições que têm protocolo assinado com o Agrupamento de Escolas”.

Também será criada uma Sala de Multimédia, “com equipamento de topo, que poderá ser utilizada não só no curso de informática, como também pelas entidades parceiras através de protocolo”, onde se incluem universidades e institutos politécnicos, câmaras municipais, juntas de freguesia, a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e a NERSANT – Associação Empresarial e algumas empresas, permitindo a partilha e o cruzar de conhecimento com entidades externas.

Além do investimento que ronda os 800 a 900 mil euros na modernização das infraestruturas e equipamentos, há calendarização que projeta o cumprimento de metas sobre a implementação do projeto, permitindo o reembolso do investimento feito pelas escolas a determinada altura.

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Apesar de existirem diversas áreas de especialização tecnológica que permitem a submissão de outras candidaturas pelo mesmo estabelecimento de ensino, esta Escola Secundária de Abrantes não viu necessidade em fazê-lo, com o agrupamento a optar por se candidatar ao concurso nacional apenas na área da informática. “Não faz sentido fazer outra candidatura para nós”, disse o docente.

“Temos um curso profissional de informática há vários anos, que tem tido sempre mais alunos do que a oferta disponível. Há alunos que não conseguem aceder por falta de vagas, dada a procura. Fazia todo o sentido nos candidatarmos só nesta área, uma vez que é um curso que nunca foi reformulado ao longo das últimas décadas e que é um curso-referência do ensino profissional no agrupamento”, contextualizou Jorge Costa.

A Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, além do curso de Técnico de Gestão e Programação de Sistemas Informáticos, conta ainda com oferta de cursos profissionais em áreas como Desporto, Técnico de Apoio à Infância, Instalações elétricas, Técnico de Auxiliar de Farmácia, Técnico de Informação e Animação Turística.

Por norma há rotatividade entre os cursos que vão abrindo no início de cada ano letivo, para “não esgotar o mercado de trabalho e haver muito mais alunos a sair do que as ofertas de emprego existentes”.

Mas o curso de informática tem sido exceção, porque todos os anos abre uma nova turma, mantendo-se a aposta da direção nesta área.

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Funciona durante três anos (correspondendo ao ensino secundário e atribuindo nível 4), com a aprendizagem feita por módulos, e os alunos têm que concluir com aproveitamento todos os módulos de todas as disciplinas.

Quanto ao concurso no âmbito do PRR, Jorge Costa reconhece que o calendário da primeira fase “foi muito difícil para as escolas”, porque para se candidatarem entre 20 de junho e 31 de agosto de 2022, houve dificuldade, nomeadamente pelo facto de as empresas estarem fechadas, coincidindo com períodos de férias.

Daí que o sentimento é de alegria por esta conquista num extenso universo de escolas de todo o país a tentarem a sua sorte.

“Houve muitas escolas no país inteiro que se candidataram e que não conseguiram a aprovação, mas até poderão conseguir no próximo concurso. Mas é claro que ficamos satisfeitos em ver um projeto que nos deu muito trabalho ser aprovado. Ainda assim, não penso que sejamos melhores que os outros. Tivemos algum trabalho, as outras escolas que não conseguiram a aprovação desta vez, com certeza também fizeram muito trabalho”, reconheceu o professor.

No que concerne aos critérios, afirmou que “eram muito exigentes” e que este “talvez tenha sido dos concursos mais exigentes em que participámos”.

“Conseguimos e ficamos contentes por isso, e as expetativas são elevadas, porque a ideia que tenho é que se vai conseguir fazer um trabalho melhor quer internamente, quer nessa ligação que temos que ter com o exterior. A escola não pode estar fechada sobre si mesma e isto pode abrir as portas da escola à comunidade. E a expetativa que eu tenho é grande”, defendeu.

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Este é um dos grandes projetos para o agrupamento de escolas, a par de projetos pedagógicos que são a grande aposta internamente, com implementação do Plano de Inovação Pedagógica.

“Temos vontade de fazer coisas diferentes neste âmbito, é esse o nosso foco. Temos tido algum trabalho na implementação de iniciativas em torno do projeto mais emblemático do agrupamento, o Plano de Inovação”, indicou.

Este plano foi implementado no Agrupamento de Escolas ainda antes de o Ministério da Educação anunciar medidas para fazer face aos constrangimentos que a pandemia causou aos processos de aprendizagem.

“Já tínhamos iniciado um processo de conceito de Turma Relativa, com possibilidade de alunos transitarem entre turmas e anos de escolaridade diferentes, para possibilitar aprendizagem de conteúdos e de conhecimentos que na altura certa não foram apreendidos. Essa dinâmica é feita em equipas pedagógicas de professores, que reúnem semanalmente e que vão verificando as medidas que devem implementar. Mas o Plano é mais extenso do que isto”, notou.

O diretor do AE nº1 de Abrantes relevou outras atividades práticas deste Plano de Inovação, caso do trabalho de projeto, com todas as turmas a desenvolver projetos, podendo existir articulações entre turmas com temas partilhados ou aplicados a uma só turma, e até permitindo a articulação com alunos de diferentes, possibilitando outro modo de aprendizagem, com prática e descoberta diferente das aulas regulares.

A romper com o dito “ensino tradicional”, este Plano de Inovação acabou com as “salas em formato autocarro”, para passar a permitir a interação e partilha entre alunos e professores, promovendo a discussão e sentido crítico.

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“A discussão em aula só pode existir com os alunos a olharem uns para os outros. Estando de costas, não é possível fazer. A disposição da sala passou a permitir estar «olhos nos olhos»”, ainda que se adeque a sala a outros formatos consoante as necessidades, seja para trabalhos de grupo ou aulas expositivas.

“Inovar, ou fazer algo de novo, implica sempre alguma resistência, seja de alunos, seja de professores. E é preciso algum trabalho para se perceber que resulta. É necessária adaptação”, começou por apontar, uma vez que “trabalhar desta forma é, por vezes, muito mais difícil, dá muito mais trabalho, mas os resultados podem ser surpreendentemente bons. É preciso desmontar muitas vezes algumas crenças, e algumas formas de ver. Para os alunos, para os professores, e até para os pais”, fez notar.

Quanto ao futuro, Jorge Costa prefere deixar os novos planos para o próximo diretor do Agrupamento de Escolas, uma vez que continua no cargo por via de uma Comissão Administrativa Provisória, nomeada pelo Ministério da Educação, com a duração de um ano, esperando que no próximo ano letivo se consiga encontrar um novo diretor.

“Estamos a viver um período de transição no Agrupamento, porque o meu mandato como diretor terminou o ano passado. Como não houve candidatos, mantive-me como presidente de uma CAP, e a ideia é que haja um novo diretor para o ano que vem. Estou em crer que haverá e não serei eu”, deu conta.

O docente de Geometria Descritiva, professor há 34 anos, e que apesar de diretor, seja da Escola Secundária Dr. Solano de Abreu desde 2009, seja do Agrupamento de Escolas nº1 de Abrantes desde 2013, sempre continuou a dar aulas a pelo menos uma turma, diz sair por iniciativa própria e que quer voltar a dedicar-se à docência a tempo inteiro, algo de que diz sentir saudades.

Os projetos e iniciativas seguem uma lógica de continuidade por este motivo, não tendo deixado de ser tomadas “medidas fundamentais que não podiam ser adiadas”, caso da candidatura para o Centro Tecnológico Especializado.

Feita uma proposta de balanço destes últimos anos à frente do Agrupamento de Escolas, o docente mostrou alguma relutância em falar sobre a sua prestação na primeira pessoa, não escondendo alguma comoção durante a entrevista, neste ponto, uma vez que se fecha um capítulo da sua vida profissional.

Jorge Costa, diretor do Agrupamento de Escolas nº1 de Abrantes. Foto: mediotejo.net

“Fiz o melhor que sabia, isso tenho a certeza. Outros fariam melhor. Mas fui empenhado. Custa-me fazer essa autoavaliação e temos tendência a encontrar aspectos negativos e críticos, e sinto que há coisas que podiam ter sido melhores. Mas em todo o caso, fiz o que achava bem a cada altura”, assumiu, indicando que ainda poderia candidatar-se a um último mandato, mas que por decisão sua, prefere afastar-se da direção.

“Há um acumular de situações. É muito tempo, as direções nunca conseguem ter férias. No verão é muito difícil… estamos a fechar um ano letivo e já a preparar o arranque do próximo. E as pessoas não imaginam o trabalho que está por trás da abertura da escola num novo ano. São muitos anos com muito trabalho, e passamos muitos dias, fins de semana, noites a trabalhar… é muito difícil”, justificou.

Jorge Costa entende ainda que “as pessoas não devem sair dos sítios quando já não podem lá estar. Devem sair ainda pelo seu pé, porque as organizações só ganham com a alteração das suas direções. Porque as pessoas novas trazem vontade de fazer outras coisas. Enquanto as pessoas que já estão há muito tempo esgotaram o que tinham para dar e muitas vezes já não conseguem inovar. O Agrupamento só ganha com uma nova pessoa e uma nova vontade. Estarei cá sempre para ajudar no que puder, porque não vou deixar de ser professor. E gosto muito desta escola, há um lado afetivo em relação à escola, e quero que tudo corra bem”. Porém, diz fechar completamente a porta quanto a integrar uma nova direção.

“Eu gosto da profissão docente. Como gosto e como acho que faço o possível para que o meu trabalho tenha importância para os alunos que estão comigo, acho que me realiza. Há algo que nos surpreende, quando os alunos nos reconhecem na rua, passado alguns anos, e aí sentimos que fomos úteis. É algo que um diretor nunca vai sentir. Os diretores passam, ninguém se vai lembrar deles, e perdem a parte melhor da Educação, que é cultivar uma boa relação com os alunos. Enquanto a direção é mais distante, o professor que cria boas relações com os alunos tem essa particularidade de poder sentir qualquer coisa de extraordinário, que é sentir que aquelas pessoas tiveram uma carreira, passaram a ser adultos, mas que fomos importantes e que ajudámos na sua formação”, fez notar.

Jorge Costa, diretor do Agrupamento de Escolas nº1 de Abrantes. Foto: mediotejo.net

“Que profissões existem assim? Poucas. E estar na direção é perder esse lado. E por isso, mesmo enquanto diretor, quis sempre continuar a dar aulas”, concluiu, determinado a voltar a 100% à carreira docente.

Quanto ao CTE, um dos últimos projetos que serão implementados durante a sua direção do AE nº1, resulta do programa “Investimento RE-C06-i01: Modernização da oferta dos estabelecimentos de ensino e da formação profissional”, de onde surge a criação dos Centros Tecnológicos Especializados, que se insere no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), fixando como um dos objetivos estratégicos “aumentar a capacidade de resposta do sistema educativo e formativo, para combater as desigualdades sociais e de género e aumentar a resiliência do emprego (em situações de crise económica como a provocada pela pandemia Covid-19), sobretudo dos jovens e adultos com baixas qualificações, reforçando-se as medidas que têm vindo a ser executadas nos últimos 20 anos para desenvolver um sistema consistente de ensino e formação profissional e aumentar as taxas de qualificação”.

Pretende-se proceder à instalação e modernização de 365 Centros Tecnológicos Especializados em estabelecimentos de ensino públicos com oferta de cursos profissionais e em escolas profissionais, públicas ou privadas, dos quais 115 centros industriais, 30 centros de energias renováveis, 195 centros de informática e 25 centros digitais e multimédia.

Destes, estão atribuídos à sub-região do Médio Tejo, com três vagas para escolas privadas e cinco vagas para escolas públicas, um total de oito CTE: três industriais, três de informática, um digital e um de energias renováveis.

Fonte: centrostecnologicos.gov.pt

Refira-se que, segundo o Governo, os Centros Tecnológicos Especializados serão geridos por diretores da rede de escolas públicas ou por entidades privadas.

O investimento envolve a modernização e reabilitação das instalações e infraestruturas existentes e a aquisição de recursos educativos tecnológicos (equipamento). A criação dos Centros Tecnológicos Especializados (CTE) decorrerá entre 2022 e 2025 de acordo com a distribuição anual e territorial prevista.

Os objetivos que se pretendem alcançar com a criação de Centros Tecnológicos Especializados (CTE) passam por “reequipar e robustecer a infraestrutura tecnológica dos estabelecimentos de ensino/escolas com oferta de ensino profissional, através da instalação ou modernização de espaços e equipamentos, amplificando a capacidade instalada dos estabelecimentos de ensino público e privado com oferta de cursos profissionais” e “reforçar a atratividade das formações de nível secundário de dupla certificação em domínios de especialização que requerem mão-de-obra muito qualificada e se inserem num processo de mutação tecnológica acelerada pelos desafios da transição climática e da transição digital”.

Com isto, pretende-se ainda “modernizar a oferta formativa em linha com as evoluções do tecido produtivo, através da criação de centros especializados em áreas tecnológicas com grande potencial na criação de valor acrescentado e aumentar o número de jovens diplomados em ofertas de dupla certificação de nível secundário e pós-secundário não superior, em especial, em áreas emergentes, bem como investir no desenvolvimento de qualificações/competências para a inovação e renovação industrial e melhorar a articulação vertical entre os vários níveis de educação e formação profissional, contribuindo para a aprendizagem ao longo da vida”.

Fonte: https://centrostecnologicos.gov.pt/

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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