Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA), em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

Trinta anos depois de iniciar atividade, a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA) necessita de captar alunos, criar atratividade e voltar-se para diferentes áreas, nomeadamente a floresta e a água, no que concerne ao seu uso eficiente, defende o diretor da EPDRA, João Quinas. A Escola também precisa de “mudanças estruturais” para ser “mais competitiva” e entrar num novo patamar de ambição nacional, afirma por seu lado o presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos.

As ideias ficaram patentes durante um almoço de preparação das comemorações do 30º aniversário da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes, a celebrar no dia 21 de março de 2020.

A Escola Profissional de Agricultura de Abrantes (EPAA) foi a primeira escola profissional agrícola de natureza pública a ser criada em Portugal. A Escola iniciou a sua atividade no ano letivo 1989/1990 com uma turma de 20 alunos do ensino profissional do curso Técnico de Gestão Agrícola.

Inserindo-se numa matriz de formação para o meio rural, na Herdade da Murtosa, em Mouriscas, foi pioneira ao conceber e ministrar outros cursos, de acordo com o “input” recebido da comunidade.

Assim, no ano seguinte foi iniciado o curso Técnico Florestal, cujo curriculum foi desenhado nessa altura com participação ativa da Escola. O pioneirismo desta escola continuou com a conceção do curso Técnico de Gestão Equina, cuja lecionação se iniciou no ano letivo 1993/1994. Posteriormente a oferta formativa foi-se ampliando, passando a incluir os cursos Técnico de Turismo Ambiental e Rural e Técnico de Gestão e Recuperação de Espaços Verdes.

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA), em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

Três décadas mais tarde outros desafios se impõe desde logo o decréscimo do número de alunos, mas também o abraçar de novas áreas impostas pela atualidade, nomeadamente a floresta e esse recurso cada vez mais precioso que é a água.

Recorde-se que atualmente a Escola oferece cursos para: Técnico de Produção Agropecuária; Técnico de Gestão Equina; Técnico de Recursos Florestais e Ambientais; Técnico de Turismo Ambiental e Rural; Técnico de Cozinha/Pastelaria; e Acompanhante de Turismo Equestre.

Olhar o futuro “é sempre difícil!”, afirma o diretor da EPDRA, João Quinas, no entanto, a Escola “situada numa região de charneira, consegue reunir as três regiões do Ribatejo, Alentejo e Beira Baixa que lhe dá a capacidade de fazer algo de forma larga e abrangente”.

E se considera necessário olhar para o passado no sentido de compreender o caminho tomado, este é “o momento de olhar para um conjunto de contextos de realidades […] o mundo rural não é só agricultura, animais, cavalos, há muito mais no mundo rural e devemos fazer algum investimento nos jovens”.

Como exemplos apresenta ao mediotejo.net  a floresta – nos recursos associados – e a água. “Na região temos a albufeira de Castelo de Bode que é a maior reserva estratégica de água do País. A água vai ser o tema da próxima Feira Nacional de Agricultura em Santarém, e será, com certeza, a grande disputa das próximas décadas. Portanto, recursos associados à água e à floresta, à sustentabilidade e às questões ambientais”.

O engenheiro João Quinas, director da EPDRA, em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

João Quinas defende ser urgente preparar os jovens para os problemas “ambientais, climáticos e até a nível alimentar. A população urbana não tem a noção do que é necessário para produzir alimentos para a população mundial, nomeadamente a quantidade de água utilizada na agricultura. A Escola tem de preparar estes jovens para um olhar critico bastante profundo que até hoje ignorávamos”.

Aliada à necessidade de diferentes áreas de formação está outra dificuldade; a de captação de alunos. “O problema maior da Escola é a falta de atratividade. Os jovens não se sentem muito atraídos pelo mundo rural. Há que criar nestes espaços rurais fatores de atratividade. Que os alunos gostem de frequentar estas escolas porque há fatores além do curso” e do objetivo de entrar no mercado de trabalho.

A equipa do curso de cozinha/pastelaria dirigida pela professora Marly Serras durante o almoço de preparação das comemorações do 30º aniversário da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

A EPDRA tem atualmente 187 alunos de todo o País, continente e ilhas, e PALOP. “A Escola não se faz sem alunos” embora admita João Quinas que uma escola profissional “não pode ter muitos alunos” até pelos exemplos verificados nas diversas escolas profissionais europeias – não ultrapassam os 250 – enquanto membros da Associação de Escolas Profissionais Agrícolas da Comunidade Europeia.

“Fazer formação em autenticidade, ou seja, aprender de uma forma continuada, trabalhada, aprender fazendo, tem de ser com um número reduzido de alunos. E a sustentabilidade não se pode avaliar por questões financeiras. Temos muito mais do que o fator económico. Temos de avaliar o que foi produzido e o que os jovens aqui formados deram ao País, aos seus territórios”.

Contudo, para João Quinas “tem de haver uma perspetiva interessante. Saber que condições é que o País me pode dar, para trabalhar numa área ligada à formação que fiz. Senão caímos naquilo que o ensino secundário tem caído. Ficar refém do ensino superior”.

O alojamento masculino da EPDRA, que utiliza o antigo Colégio de Mouriscas – propriedade do Ministério da Educação – como dormitório (o internato feminino fica localizado na Herdade da Murteira), foi referido durante o evento.

“Estamos a falar de instalações construídas há 70 anos. Serve, está a funcionar, já sofreu algumas melhorias – cobertura e balneários – estamos a trabalhar e a desenvolver todos os nossos esforços para que haja uma melhoria das condições dos internados” assegurou o diretor.

Explica que nas escolas profissionais, “sobretudo as agrícolas, os alunos têm de viver 24 horas na escola. Para isso precisamos de boas condições de habitabilidade, para que as famílias sintam que os filhos estão em espaços confortáveis e é preciso trabalhar mais”.

O presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Valamatos, durante o almoço de preparação das comemorações do 30º aniversário da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

O presidente da Câmara, Manuel Jorge Valamatos, abordou o assunto na sua intervenção. Lembrou que “o internato já melhorou a cobertura, os balneários estão arranjados, houve aqui compromissos” acompanhados pela vereadora Celeste Simão e pelos secretários de Estado da Educação na altura. Deu tónica à “insistência” para com a tutela, notando que esse “domínio, muitas vezes se sobrepõe ao domínio da gestão autárquica”.

Contudo, deixou a garantia de “atenção” por parte do executivo camarário e o compromisso de trazer ao terreno “todos aqueles que são necessários para construir a pouco e pouco, nos diferentes espaços, porque há sempre coisas a melhorar”.

Falando em concretizações, até porque a Herdade da Murteira é propriedade municipal, o presidente mencionou que recentemente o Município comprou um conjunto de terrenos “que liga a propriedade toda deixando-a mais ordenada e organizada”.

Quanto ao futuro, Manuel Jorge Valamatos considerou “evidente que esta escola tem que sofrer algumas novas dinâmicas estruturais, para que consigamos ser mais competitivos num conceito regional e até mesmo a nível nacional” falando em diversificação das ofertas. Nesse âmbito defendeu a importância da “captação de alunos” no sentido de fortalecer a Escola.

Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA), em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

Há 30 anos a EPDRA foi criada com parcerias “houve alguém que teve a ideia, o engenheiro Mingocho de Abreu, e conseguiu reunir um conjunto de parceiros, na altura a Câmara Municipal, a Associação de Agricultores, a Cooperativa AbranTejo e o Liceu, hoje Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes” lembra João Quinas.

E desde o seu nascimento que a escola tem privilegiado a constituição de parcerias estabelecendo “centenas” nomeadamente com “as maiores empresas agrícolas” portuguesas designadamente protocolos para contexto de trabalho e estágios. “Empresas nas quais reconhecemos garantias, idoneidade e alguma capacidade técnica para que o jovem regresse à escola com uma mais valia em conhecimento técnico”.

Seguindo essa caminho, as parcerias acontecem também para estas comemorações que iniciam na semana que antecede o dia de aniversário. Com ponto alto a 21 de março (sábado), data em que se realizará “um grande piquenique” na Herdade da Murteira, também com antigos alunos e famílias na Escola para “lembrar o tempo que cá passaram”, explica o diretor.

O lema da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes, em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

As celebrações inserem ainda um conjunto de atividades como uma jornada do Campeonato Nacional Interescolas de Equitação – com 3 jornadas, a primeira foi na Golegã, a segunda será na EPDRA e a última em Mafra. O programa contará com colóquios temáticos, testemunhos de experiência de vida e integração no mercado de trabalho.

Este ano, no dia 22 de março (domingo), a ACROM – Associação Cultural das Rotas de Mouriscas organiza um passeio pedestre e o COA – Clube de Orientação e Aventura, o Corvus Trail, em prova que integra o Circuito Nacional de Trail da Associação de Trail Running de Portugal para a Época 2019/2020.

O vinho tinto colheita de 2017 da EPDRA (Mouriscas) acabou de ser distinguido como ‘Grande Escolha’ entre os vinhos do Tejo. Créditos: DR

No almoço de preparação das comemorações do 30º aniversário da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes foi ainda anunciado que o vinho tinto colheita de 2017 mereceu uma distinção na revista ‘Grandes Escolhas’.

“Temos sempre a preocupação de fazer um produto que, para além de ser fruto do trabalho dos alunos, com o seu envolvimento, seja qualquer coisa que possa ser distinguido. Para nós foi ótimo!”, considerou João Quinas.

A Escola foi inaugurada oficialmente por Roberto Carneiro, ministro da Educação, e Arlindo Cunha, ministro da Agricultura, a 21 de março de 1990, embora tenha entrado em funcionamento no dia 7 de outubro de 1989.

A EPDRA em Mouriscas celebra 30 anos a 21 de março de 2020. Créditos: mediotejo.net

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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