Entre cerejas, morangos e legumes, banca na EN2 resiste ao tempo e aos hipermercados. Foto: mediotejo.net

O cheiro a morangos acabados de apanhar mistura-se com o perfume doce das cerejas e do melão. À entrada da banca de madeira, junto à Estrada Nacional 2, em Abrantes, caixas de tomate, couves, batatas, queijos alentejanos, carvão, pinhas e até galinhas compõem um retrato cada vez mais raro do pequeno comércio de estrada.

Há 15 anos que Florinda Dias faz dali o sustento da família. Primeiro, começou apenas com uma carrinha estacionada junto à estrada que atravessa todo o país. Depois veio uma estrutura desmontável em ferro. Hoje, a pequena banca ganhou vedação em madeira, frigoríficos e estacionamento próprio, resultado de anos de trabalho “de sol a sol”.

“Olha, trabalhar de sol a sol. Ir às compras à noite e estar aqui a vender de manhã à noite. É trabalhar dia e de noite”, resume ao mediotejo.net a comerciante, de 62 anos, natural de Abrantes.

A poucos metros, muitos são os carros passam na mítica Nacional 2, estrada que liga Chaves a Faro e que continua a atrair turistas, emigrantes e viajantes em trânsito. Alguns travam e encostam pelos cartazes apelativos e pela cor intensa da fruta exposta à entrada. Outros já conhecem e regressam pela qualidade.

“Os morangos são apanhados às seis da manhã e às dez já estão aqui à venda. Cheiram bem e sabem melhor”, garante Florinda Dias, enquanto ajeita caixas de cereja vindas do Fundão.

Nem todos os produtos vêm diretamente das terras de Abrantes. A comerciante admite recorrer também a mercados abastecedores, mas insiste na escolha cuidada dos fornecedores nacionais, desde Ferreira do Zêzere e Tomar até ao Oeste, Alpiarça, Almeirim, Guarda ou Cova da Beira.

“A nossa fruta não tem nada a ver. Só o cheirinho”, diz, contrapondo os produtos nacionais aos importados, a maioria dos quais vendidos nas grandes superfícies.

Apesar da clientela fiel, Florinda reconhece que os supermercados mudaram hábitos de consumo e afastaram muitos moradores locais do pequeno comércio tradicional.

Entre cerejas, morangos e legumes, banca na EN2 resiste ao tempo e aos hipermercados. Foto: mediotejo.net

“As pessoas da terra vão muito para os supermercados, para o ar-condicionado”, lamenta, explicando que o negócio depende sobretudo “das pessoas de passagem, dos emigrantes e dos turistas”.

Fruta da época é um dos pontos fortes da bana na EN2. Foto: mediotejo.net

Uma dessas clientes é Maria José, que fez questão de parar apenas para comprar cerejas.

“Vim de propósito para comprar a cereja. Gosto de comprar assim e não no supermercado”, conta.

Já Paulo Marques diz procurar na banca “produtos nossos, portugueses e de época”.

“Hoje vim buscar batata boa, porque aqui normalmente encontramos esse produto”, afirma.

Fruras e legumes frescos diretamente dos produtores nacionais são apelativos para os clientes habituais. Foto: mediotejo.net

Mas resistir à beira da estrada tem custos e dificuldades. Florinda Dias conta que foi obrigada há vários anos a abandonar o espaço onde vendia junto à berma da EN 2, à entrada de Alferrarede, debaixo de uma árvore de grande porte, após intervenção da então Estradas de Portugal (EP).

Para continuar a atividade, alugou um terreno afastado da via, do outro lado da estrada, criou acessos para automóveis e submeteu projetos de licenciamento às autoridades, tendo a EP, hoje Infraestruturas de Portugal (IP), dado a autorização legal.

“Foi tudo criado pelo nosso pulso”, recorda Florinda.

Hoje, a comerciante critica aquilo que considera ser concorrência desleal de vendedores ocasionais que continuam a instalar-se ilegalmente junto à estrada durante a campanha da cereja.

“Quem está à beira da estrada vende sempre mais do que nós, onde o carro tem que entrar para dentro de um espaço”, afirma, pedindo maior fiscalização, quer municipal, quer da própria IP.

Além da concorrência, aponta também os prejuízos provocados pelas intempéries recentes, que originaram, primeiro, o corte total de trânsito naquele troço da Nacional 2, que afastaram clientes habituais, sobretudo restaurantes, e hoje, com trânsito condicionado a uma via, regulado por semáforos.

“No inverno não consigo tirar aqui o que pago”, desabafa, admitindo acumular dívidas durante os meses frios para as compensar no verão, quando chegam os turistas, os emigrantes e a procura por melão, melancia, morango ou cereja.

Sem folgas regulares, Florinda diz tirar apenas “três dias por ano” para descansar.

“Não dá para enriquecer, mas vamos aguentando”, afirma.

Mesmo assim, entre caixas de fruta fresca e sacos de carvão para os churrascos de verão, mantém intacta a convicção que a fez ficar 15 anos à beira da estrada.

“O produto está sempre fresco”, assegura, antes de voltar a atender mais um carro que entra devagar no pequeno parque junto à banca.


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A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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