“Queremos os nossos pontos” e “parem com a injustiça” foram algumas das frases que marcaram a manhã e se fizeram ouvir pelos enfermeiros em luta. Para o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) o Conselho de Administração do Centro Hospitalar Médio Tejo tem optado por “não resolver as questões, prejudicando os enfermeiros”, explicou a representante do SEP, Helena Jorge.
“Os enfermeiros estão a protestar em relação à questão dos pontos porque, os mais velhos inverteram posições em relação aos mais novos, neste hospital”, começou por explicar. Segundo a representante, o Centro Hospitalar em questão não regularizou um antigo “problema administrativo” que considerou ser “grave”.
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“Os mais novos agora vieram recuperar os pontos que estiveram congelados do tempo de congelamento. Os mais velhos ganham menos que os mais novos”, disse a representante sindical. Questionada sobre a situação que motivou o protesto, Helena conta que o que “se passa exatamente aqui foi que os enfermeiros especialistas que transitaram agora, vão todos ficar em posições intermédias da carreira. Ou seja, vão utilizar 10 pontos que são 10 anos da vida deles para mudarem 150€”.
“Não há valorização nenhuma, houve aqui uma operação estética, com algumas coisas positivas, nomeadamente foi reconhecer o tempo dos mais novos que há 20 anos ganhavam 1200€”, acrescentou. Para Helena Jorge trata-se de um reconhecimento “mais que justo”, porém criou “injustiças e inversão de posições remuneratórias dos enfermeiros todos nas instituições, nomeadamente aqui. E este Conselho de Administração é o pior do país”, apontou.
Relativamente ao Ministro da Saúde, Manuel Pizarro, a representante do SEP afirma que este já tem conhecimento da situação, mas que continua a compactuar com a “ilegalidade cometida pelo Médio Tejo”. “Nós sabemos que o Senhor Ministro não gosta de enfermeiros, nós sabemos, mas nós estamos muito indignados com o que estão a fazer”, afirmou Helena Jorge em declarações aos jornalistas.
A dirigente sindical que esteve à porta do hospital esta manhã deu conta de avaliações que não foram feitas, o que levou a uma incorreta contabilização dos pontos e penalizou os enfermeiros “por uma coisa administrativa que eles não tinham feito”. Aos enfermeiros mais jovens “contaram-lhe os pontos todos corretamente e estão todos a ganhar mais do que os mais velhos com as mesmas condições, porque inverteram posições”, acrescentou.
Angelina Fontinha é enfermeira há 35 anos. Ao nosso jornal deu conta da sua situação profissional que é marcada pela falta de atribuição de pontos. “Entre 2004 e 2015, apesar de eu ter feito as minhas avaliações e entregar os meus projetos não fui avaliada. Em 2018 atribuíram-me um ponto e neste momento estão-me a dever 5 pontos e meio. Portanto, eu estou no terceiro escalão, estou a 6 anos da reforma, com 1600€ atualmente”, explicou a profissional durante o protesto desta manhã.
A avaliação ficou por concluir devido à falta de disponibilidade temporal do responsável pelo serviço, explicou Angelina. “Entretanto, em 2018, foi-me só atribuído um ponto, inclusive, há colegas mais novos do que eu na mesma situação, em que foi atribuído um ponto e meio. Neste momento estão a ganhar mais ou igual a mim”. Para a enfermeira é “uma injustiça muito grande, com 35 anos de serviço acho que é das piores coisas”, concluiu a profissional do CHMT.

Helena Jorge afirma que o CHMT é o último “Hospital EPE que continua com este problema. Por incrível que pareça. Sempre foi o pior, inclusive este Conselho de Administração e o anterior nunca quiseram resolver o problema”, deu nota. O CHMT “é o único Hospital do País que (…) não tem autonomia nenhuma”, continuou.
“Porque os Hospitais, inclusive, têm autonomia e as EPE é-lhes conferida autonomia. E qualquer coisa se passa aqui, que outros hospitais resolvem e têm autonomia para resolver e andam para a frente e resolvem. Este escuda-se sempre no Ministério da Saúde e na ACSS. Se calhar o Ministro tem de ter essa conversa com o Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo e explicar exatamente o que é que é a autonomia das EPE”, referiu Helena.

João Damásio é enfermeiro no bloco operatório do CHMT da Unidade de Abrantes. Em declarações ao mediotejo.net, o profissional que se juntou aos protestos desta manhã conta que na sua situação “não foram atribuídos os pontos corretamente. Foi dado um ponto, em vez de um ponto e meio, como nós defendemos e está na própria legislação. E a verdadeira questão é que depois isso penaliza-nos em termos de progressão da carreira, nomeadamente em relação à aquisição de escalões para fazer essa tal progressão”, apontou o profissional de saúde.
Os enfermeiros vão continuar a luta e prometem só deixar se se “manifestar quando isto estiver resolvido, (…) nem que seja a última coisa a ser feita”. João Damásio afirma não compreender “como é que o Conselho de Administração continua a fazer tábua rasa das próprias indicações da ACSS em relação aos colegas novos e não faz o mesmo aos colegas que estão há 20, 30 e 40 anos”, criticou.
A representante sindical deu conta de uma outra queixa enviada à tutela relativamente ao que está a “acontecer aos enfermeiros especialistas. porque não lhes contaram o ano civil de ingresso e por causa de um ponto e meio, os colegas são colocados um índice abaixo e vieram pedir a reposição do dinheiro, por um problema que são eles que não resolvem e continuam a não resolver”.
“Os enfermeiros querem os problemas resolvidos e ele não resolveu carreira nenhuma dos enfermeiros”, afirmou referindo-se a Manuel Pizarro. “Ele veio repor as injustiças que ele próprio cometeu em 2009, quando colocou os enfermeiros a ganhar 1200€ e onde perfizeram 20 e 25 anos com esse ordenado. Portanto, a culpa basicamente também é dele”, apontou.
A representante que está no ramo da enfermagem há 30 anos refere um salário de 1800€ mensais, enquanto os colegas de profissão que exercem há 20 anos “todos ganham 1600€”. “Como nós só mudamos de 10 em 10 pontos, significam 10 anos da nossa vida. Todos nós vamos estacionar os enfermeiros metade da nossa carreira, vamo-nos reformar com 1950€. O que nos vai acontecer é que nós precisamos de 100 anos a trabalhar para chegar ao topo da carreira. Portanto, se a saúde é tratada assim, se o o SNS não respeita os seus profissionais e, ainda por cima, finge que os valoriza, estamos no caminho muito errado para o SNS”, concluiu a dirigente sindical.
Os dados enviados pelo Centro Hospitalar do Médio Tejo apontam para uma adesão de “9,43% nas 3 unidades” do CHMT. “Dos 244 escalados 23 estão de greve”, informou o Centro Hospitalar.
Questionado quanto à adesão registada esta manhã, o Sindicado dos Enfermeiros Portuguesas referiu que a importância do protesto desta manhã se prende com a melhoria das condições profissionais dos enfermeiros não tendo, por isso, apurado os números da adesão à greve que decorreu entre as 10h00 e as 13h00 de hoje.
Os profissionais vão voltar a sair à rua em protesto já no próximo dia 23 de fevereiro, quinta feira, em que se espera uma grande adesão dos enfermeiros das três unidades hospitalares que compõem o Centro Hospitalar do Médio Tejo.









