Se juntarmos as palavras doces e Abrantes na mesma frase, o mais fácil é falar de broas, palha de Abrantes e tigeladas. Doces que fazem crescer água na boca, mas que são só uma amostra do que fomos encontrar na 21.ª edição da Feira Nacional de Doçaria Tradicional, que decorre até domingo no Largo 1.º de Maio, no centro da cidade.
Como referimos, as broas ou as tigeladas são os cartões-de-visita (da categoria doçaria, claro) para quem vem de fora, e questiona sobre o que de mais doce há em Abrantes. E as castanhas de doce de ovos? Ou até as limas, o doce que o chef Fernando Correia, da Pastelaria Tágide, decidiu “recriar” e trazer no primeiro dia do certame?
As limas são um doce conventual com origem abrantina, que foi “recuperado”, mas com uma “apresentação diferente”. E o chef explica-nos porquê: apesar de não ter a forma original para a confecção (diz ele que a original “tem uns bicos”), o que dava o aspeto de uma lima ao doce, nesta sua criação há também “uma capa de ovo que é feita de uma calda de açúcar com citrinos”.

“A essência da base está lá, que é doce de ovos, farinha de amêndoa com mel, os fios de ovos em cama e a capa de ovo”, conta-nos o mestre doceiro.
A Feira da Doçaria tem vários doceiros abrantinos que já são uma presença assídua nas edições. Além dos doces de Fernando Correia, encontramos a Confeitaria Palha de Abrantes e Pedro António, que chega atarefado ao seu expositor com mais um tabuleiro para adoçar o paladar do público.
“Nós trazemos para aqui as nossas especialidades, as palhas de Abrantes, as tigeladas, as três variedades de broas fervidas em azeite, os nossos almendrados e os nossos bolos secos”. Falamos, claro, das bolotas e das ferraduras “que dão identidade” à confeitaria. Nas broas, relembramos a clássica broa de mel e noz e, também, a de batata-doce e a de abóbora.
Maria Luís Madeira, das Delícias d’Maria, ou a Ana Custódio, do espaço D’Ana, ao pé do Núcleo do Sporting, em Alferrarede, por sua vez, são duas doceiras que recheiam os expositores com várias ofertas de diferentes formas (e sabores) que despertam a curiosidade de quem lá passa.
Se Maria aposta, por exemplo, em bolo de amêndoa e red velvet (além dos doces típicos abrantinos), já Ana Custódio conta ao mediotejo.net que a tigelada de café, um produto que traz pelo terceiro ano, é bastante solicitada. “As pessoas que provam e que conhecem, tornam a vir buscar”. Entre risos até nos conta que “os homens são os principais clientes”.




Ainda falando das novidades dos doceiros da cidade anfitriã, a Padaria 2000 trouxe para esta edição a famosa torre abrantina, que tanto caracteriza a cidade (na época natalícia torna-se uma brilhante árvore de Natal, visível a quilómetros de distância).
E se no ano passado a novidade foi o pastel de nata de palha de Abrantes, este ano a torre abrantina é um “crocante de limão com uma mistura de uma nata e uma massa quebrada de beterraba”. No topo, o “red velvet e uma cobertura de limão” e, claro, “os fios [de ovos]”, diz-nos Cátia Pereira, entre risos.

Ao olhar para o expositor encontramos as já conhecidas tigeladas de abóbora, e os pastéis ou alsacianos de palha de Abrantes. A empresária refere ainda que a feira da doçaria é uma oportunidade para “inventar um produto novo”.
Os donuts da cafetaria D’coffee, que abriu em fevereiro deste ano na cidade, estão pela primeira vez no expositor. Entre sabores como caramelo, chocolate, morango, ou marshmallow, a estreia é o donut de palha de Abrantes que, tal como o nome indica, tem o doce regional a encher-nos o olho.
Terminamos a nossa viagem pelos expositores do concelho de Abrantes e arredores, mas queremos relembrar que entre bolos e doces, há também outros expositores de mel e licores para visitar. Ou, quem sabe, de histórias para descobrir…
Como o expositor do Tesouro D’Almourol e os seus calafates, “em honra às pessoas que trabalhavam à beira do rio”, e o licor de castanha e mel que esteve um ano em maceração, segredou Teresa Nicolau.
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Há doceiros que vêm à feira pela primeira vez, mas há quem já cá tenha estado e decidiu voltar este ano. Falamos de Claudina Bastos, do espaço Autêntica – Doces Conventuais de Arouca, que nos justifica a sua ausência pelos extensos “quilómetros de distância”.
A doceira trouxe para o seu expositor o pão de São Bernardo, que é “fofinho”, e “dá para comer à mão”, diz-nos. Há também os ovos de pêga, o doce de avelã e a pedra boroa, “um doce com chila, ovos moles e amêndoa”. As pedras parideiras, do conhecido fenómeno da ‘pedra que pare pedra’ dão também o nome a um dos produtos representados. Até há um enchido doce, que “leva pão, amêndoa, manteiga, açúcar, e canela”, explica com prontidão. Quem diria que um enchido também podia ser uma sobremesa?


Continuamos até ao expositor da Confeitaria Flor de Aveiro. “Essencialmente, o que nós queremos mostrar ao público, o tradicional e o conventual”, conta-nos Pedro Santos. Há os ovos moles de Aveiro, bolachas recheadas com cobertura de chocolate negro, e uns cones de ovos que nos chamam a atenção pela sua miniatura gulosa.
Há também o morgado do Buçaco, “uma referência” à serra que é lá perto da zona. E se falamos em doçaria conventual, o ovo é, sem dúvida, aquilo que mais sobressai neste expositor.

E se lá em cima falámos em histórias, no expositor de Amarante somos convidados a ouvir uma lenda do doce fálico de São Gonçalo. “É um santo casamenteiro, mas não é um santo casamenteiro concorrente do Santo António de Lisboa. Este é o santo casamenteiro das velhas”, conta-nos António José, da Brisadoce.
“Ainda hoje existe a tradição das moças solteiras quando querem arranjar namorado e não têm, quando estão encalhadas (como se costuma dizer na linguagem popular), de ir puxar a cordinha ao São Gonçalo”. Percebemos agora o porquê da forma deste doce!

As famosas queijadas de Sintra também estão na 21.º edição da Feira da Doçaria. Paira um leve aroma no ar, e observamos o forno a cozer os típicos travesseiros de Sintra. É Vasco que nos apresenta os pudins “só com o recheio das queijadas” sem a “casca” tradicional. Mas há também bolachas de manteiga, areias de Cascais, broas de mel e broas de limão e mel.
Atrás do expositor encontramos uma fotografia que descobrimos ser de Gregório, o fundador das “queijadas mais antigas e mais premiadas” de Sintra. Vasco é o bisneto e está a representar a Fábrica de Queijadas, e uma receita que foi passando “de geração em geração”, diz-nos Rita que o está a acompanhar, enquanto o jovem espreita os travesseiros no forno.

Nisa e Évora trazem um pouco do Alentejo à cidade florida. De Évora, a Minda Cândido, com a Confeitaria Conventus, e que também já conhece esta feira. Mostra-nos o pão de rala, que é feito “à base de amêndoa, ovos, gila e açúcar”. Depois há outros doces com um ótimo aspeto, como o “mel e noz” que é composto por “camadas de noz e entre cada uma delas há ovos moles com mel”; o queijo do céu, “uma cobertura de amêndoa e recheado com ovos moles”, e o fidalgo, uma “trouxa de ovos moles”.
Há ainda a sericaia, um doce típico de Elvas, e a encharcada, que “é feita de ovos, açúcar e canela”. Uma sugestão que se vê muito por aí, mas que Minda diz cada terra ter “a sua maneira de fazer”.




Já em Nisa, a Doce Tradição traz “alguns doces tradicionais da zona” como a boleima, as queijadas e os barquinhos, refere o José João. Enquanto observamos o expositor, há clientes que chegam e a boleima é a principal atração.
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E terminamos a nossa viagem nas ilhas. No expositor da Madeira é a poncha a anfitriã da visita, além dos “doces tradicionais da Madeira” como o bolo de mel, o bolo do caco e os rebuçados de funcho. Há também chocolates, “uma nova aposta” da produção local, licores e vinhos, aponta Iolanda Silva, da loja A Mar, a Terra, localizada em Lisboa.
Susana, do Mercado das Ilhas, está no expositor dos Açores e quando perguntamos o que podemos encontrar, a resposta parece ser óbvia. “Os nossos doces não têm nada a ver com os de Portugal Continental, são diferentes”. Para o justificar, Susana explica-nos que há os bolos levos e a massa sovada que são “coisas completamente diferentes” do que habitualmente encontramos. Além disso, a representante destaca ainda o chá gorreana, a “única plantação de chá que temos na Europa”.
A viagem terminou aqui, mas podia ter terminado no pão-de-ló de Ovar ou nos pastéis de Tentúgal. Ou, quem sabe ainda mais perto, na Artelinho, no concelho do Sardoal, com a tarte de amêndoa e as ferraduras a acompanhar. De qualquer forma, fica o convite para passar um fim de semana doce, e de barriga cheia.
A feira está de portas abertas no sábado entre as 10h00 e as 23h00, e no domingo entre as 10h00 e as 19h00. Programa completo AQUI.

























