Joana Borda d'Água deu continuidade ao negócio da família e reabriu o renovado espaço em 2013. Foto: mediotejo.net

O dia começou com surpresas para os clientes e parceiros que, em pleno feriado nacional do 10 de junho, se deslocaram ao coração de Abrantes para auxiliar a soprar as velas, partir o bolo, e cantar os parabéns pelos 80 anos da Drogaria Nova e pelo seu futuro no casco histórico da cidade.

Bolo, limonada, pipocas, chocolates e descontos especiais foram alguns dos “miminhos” preparados por Joana Borda d’Água para agradecer a presença e o apoio daqueles que marcaram e continuam a marcar a história de um espaço que se soube reinventar não esquecendo o seu passado, mantendo a drogaria, artesanato e os produtos típicos portugueses do nosso imaginário, como a pasta medicinal Couto, os cremes Benamor, as louças Bordallo Pinheiro, ou os sabonetes Ach. Brito, entre muitos outros.

Vídeo/Reportagem:

“O meu avô abriu em 1943 e manteve-se na família deste então. Foi sempre ele, até falecer, que esteve com este espaço. Entretanto abriu outros também, mas foi sempre este que nos tocou mais à família, por ter sido o primeiro e ser diferente”, explicou Joana, com um orgulho evidente.

Formada em arquitetura, a neta de Vítor Borda d’Água viu na antiga drogaria do avô a saída profissional que, no momento, a arquitetura não lhe proporcionava. Descontente com a atividade que desempenhava, Joana Borda d’Água decide, no ano de 2013, retomar o estabelecimento do avô, onde cresceu e do qual recorda momentos muito especiais.

“Apesar de ter mais lojas, o meu avô estava aqui muitas vezes. Eu recordo-me de vir para aqui à tarde, depois da escola (…). O meu avô tinha sempre aqui funcionários e eu vinha aqui ‘atazanar-lhes’ a cabeça. Tinha sempre curiosidade e queria saber como é que se fazia, o que se vendia (…). Fazia aqui os trabalhos de casa também, por isso sim. Tenho recordações desde muito pequenina aqui”, recorda.

Respondendo às dificuldades que o espaço tinha vindo a sentir, com uma diminuição da procura pelas tradicionais drogarias, Joana decide encerrar o espaço temporariamente para um processo de remodelação, abrindo mais tarde com uma nova imagem.

A Drogaria Nova está situada na Rua Alexandre Herculano, na cidade de Abrantes. Foto: mediotejo.net

O conceito inicial, aliado à inovação, deu a origem um remodelado espaço que se manteve fiel ao passado, mas sofreu as alterações necessárias para responder às necessidades dos clientes atuais.

“Decidi que talvez fosse uma boa hipótese mudar e aproveitar aqui este espaço, que nós gostávamos tanto, para fazer aqui uma renovação, tanto no espaço como no conceito, juntar alguns produtos novos e trazer mais pessoas”, acrescenta.

O ambiente tradicional e evocativo do passado é evidente na Drogaria Nova. A antiga balança ainda presente no balcão denota as oito décadas de história ao serviço da comunidade abrantina. Repleta de vitrines, com alguns dos mais conhecidos artigos entre as gerações passadas, o espaço integra também produtos atuais e algum do artesanato produzido na região.

Foto: mediotejo.net

“Decidimos manter aquilo que é a Drogaria, mas ampliar o conceito a outras coisas também, como já se via um bocadinho noutras lojas que surgiram naquela altura (…) e que pegavam em marcas portuguesas e lhes davam um espaço. Nós já tínhamos muitas delas, como a pasta Couto e o creme Benamor, marcas que agora são muito conhecidas e que nessa altura estavam um bocadinho a cair em desuso”.

Assemelhando-se a um verdadeiro museu, em que a história e tradição não foram esquecidas, quem visitar a loja, na Rua Alexandre Herculano, ingressa numa viagem ao passado por clássicos como a pasta dentífrica Couto, os cremes Benamor, louças Bordallo Pinheiro, sabonetes Ach. Brito, bem como produtos de limpeza e de utilidade para o lar.

“Juntámos Bordalo Pinheiro, juntámos Castelbel, que é uma das marcas com que gostamos muito de trabalhar, marcas portuguesas de qualidade que nós fomos também experimentando e investigando. Algumas tiveram de sair porque não tínhamos espaço para tudo, não pegaram tão bem neste conceito e juntámos um bocadinho de tudo (…). Termos uma fusão de gente diferente, que gosta da nossa loja, porque temos um bocadinho de tudo”.

Joana Borda d’Água retomou o espaço inaugurado pelo avô em 1943, no centro histórico da cidade. Foto: mediotejo.net

O alargamento do espaço permitiu adicionar novos artigos ao estabelecimento, uma grande parte de produção nacional, aliando-os ao conceito de sustentabilidade e às necessidades do mundo atual. Escovas de dentes de bambu, palhinhas reutilizáveis, pratos de bambu ou até discos desmaquilhantes reutilizáveis.

A recetividade e o feedback por parte dos abrantinos têm sido positivos, dada a inexistência de um espaço com semelhantes características na cidade, afirma Joana Borda d’Água. “As pessoas já tinham um bocadinho essa lacuna, uma loja não só útil mas também bonita. Dizem que é sempre uma tentação e isso para nós é ótimo, claro, é um elogio que nos dão”.

Dos mais novos aos mais velhos, para senhoras ou para homens, a Drogaria Nova tem artigos para todos os gostos. Para presentes originais ou até para um “miminho” especial, são vários aqueles que entram pela drogaria à procura de um artigo distinto, com marcas de um comércio tradicional.

“Também temos aqueles [artigos] mais úteis que, no dia a dia, são uma constante em nossas casas e que fazem muita falta. Há pessoas que desconheciam alguns produtos que nós temos desde sempre aqui na drogaria e que agora não vivem sem eles, por exemplo o branqueador, o tira nódoas, as ceras, os limpa metais”, enumera.

Com o negócio a correr bem na cidade de Abrantes, Joana decide dar o próximo passo e expandir o projeto que o avô havia começado na década de 40. Foi em Tomar, na rua dos Moinhos, que encontrou o espaço ideal para expandir a história e a tradição, mas a pandemia viria a atrasar os planos.

Em abril de 2022 o sonho cumpre-se e é inaugurada a segunda loja da Drogaria Nova. A 15 de abril de 2023 o espaço completou o seu primeiro aniversário na cidade Templária.

“Abrimos há cerca de um ano, porque este já tinha a sua força aqui e já tínhamos alguma confiança. Decidimos apostar num espaço novo, numa cidade que nós também considerávamos com potencial, porque pelas nossas pesquisas, não tinha nenhuma loja deste género, propriamente”, explicou Joana.

A Drogaria Nova foi fundada em 1943 por Vítor Borda d’Água. Foto: mediotejo.net

Apesar da prosperidade e do sucesso alcançado pelo negócio de família, as dificuldades sentidas pelo comércio de pequenas dimensões não foram esquecidas.

“Portugal, infelizmente, não vive em grandes facilidades desde há muito tempo e temos vindo a ultrapassar crise atrás de crise e isso é muito cansativo. Eu já estou aqui há 10 anos e tem sido sempre assim. Sempre que nós achamos que as coisas vão melhorar, que vamos para a frente e que vai ser muito bom, vem alguma coisa que nos deita um bocadinho abaixo”, constata Joana.

Às dificuldades impostas pela pandemia de covid-19, seguem-se os efeitos de uma guerra, da qual resulta uma inflação que teima em não cessar. “A inflação e todas estas mudanças que temos vindo a sentir e que se refletem no dia a dia das pessoas e nos mais pequenos, que somos nós, tem sido um obstáculo grande. Estes últimos tempos têm sido muito difíceis”, assume.

Para assinalar os 80 anos da loja abrantina, a neta de Vítor Borda d’Água deixa um desejo: “Que esta loja continue a ser importante e que marque mais gerações aqui na nossa cidade. São essas histórias que fazem parte da cidade e eu acho que para nós é um orgulho fazer parte dela. Queria também que a própria cidade se desenvolvesse de uma forma sustentável, de forma a manter aqui pessoas ou atrair pessoas de fora para cá”.

Incapaz de dissociar a história do espaço com a da cidade, Joana Borda d’Água fala com carinho de uma cidade que a viu crescer e evoluiu sempre, lado a lado, com o espaço idealizado pelo avô.

“É um bocadinho difícil para mim distinguir esta loja desta cidade. Para mim, quando uma ganha a outra também ganha, ambas ganham nesta coexistência e nesta história que vão traçando. Abrantes com 107 anos e agora a Drogaria com 80, sempre a tentar chegar mais longe, a inovar e acompanhar as mudanças”, concluiu a responsável que se sente realizada em dar continuidade ao sonho do seu avô.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *