Cerca de 30 pessoas deram entrada nas urgências de Abrantes nas duas últimas semanas, sem que o serviço de Ortopedia conseguisse garantir cirurgias atempadas para todos. Créditos: DR

“Acudam, acudam!” Deolinda bem gritava, caída no chão acabado de lavar da sua cozinha, mas os vizinhos, tal como ela já com mais de 80 anos, não a ouviam. Assim que o seu pé patinou no chão molhado percebeu que tinha a vida desgraçada. Ainda se virou para tentar agarrar-se à bancada da cozinha, mas só conseguiu bater com o braço na esquina do mármore antes de aterrar com estrondo. As dores excruciantes diziam-lhe que tinha uma perna partida, e ela bem sabia o que tinha acontecido a tantas outras pessoas da sua idade quando um azar assim lhes bateu à porta. Adeus independência. Ali estendida, deu por si a olhar para cada pormenor da sua casa, até onde a vista alcançava. A loiça lavada sobre a bancada, a fruta acabada de comprar na mercearia, a roupa da neta em cima da máquina de costura, à espera de bainhas novas. Que saudades ia ter da sua casinha. “É modesta, mas minha.”

Começou a perder a força para gritar, chorou até não ter mais lágrimas. Até que ouviu um barulho à sua porta. Era um cão, a farejar. O cão que alguém passeava, e que não lhe largou a porta. “Eu tinha tantas dores que em vez de gemer devia parecer que gania…”, conta, tentando perceber o que chamou o abençoado cão. Encontrou redobradas forças para gritar. “Acudam, acudam!” E o dono do bicho lá a ouviu e chamou o 112.

Deolinda partiu o fémur, viria a confirmar no Hospital de Abrantes. Deram-lhe medicação para as dores e encostaram a sua maca no corredor das Urgências. “Fique aqui sossegadinha que o médico já a vem ver.”

O médico não veio nesse dia. Nem no seguinte. Macas para a frente e para trás naquele corredor das urgências, e ela sempre no mesmo sítio. Ao terceiro dia, uma enfermeira simpática disse-lhe que as filhas tinham estado no hospital, mas que não as deixavam entrar porque nas urgências não são permitidas visitas. “Espere mais um bocadinho que o médico já a vem ver.”

As dores, sempre as dores, aumentavam de dia para dia. Aliviavam com a medicação, depois voltavam com estrondo. Uma tala colocada na perna começava a fazer-lhe ferida. “E o braço, ninguém me vê o braço?”, perguntava aos enfermeiros. Não conseguia mexê-lo, e não lhe fizeram raio-X. “Deixe-se estar sossegadinha, o médico já a vem ver.”

Na maca da frente, outra idosa afogada em ais. Outra perna partida. Na maca de trás, um rapaz com o pé e a perna em pedacinhos, por causa de um acidente de mota.

Foram passando as horas que pareciam dias, os dias que pareciam meses. Ao quinto dia, apareceu o médico. Poucas palavras, tocou-lhe no pé, balbuciou qualquer coisa para uma enfermeira e desapareceu.

No dia seguinte, por insistência da família, o diretor de serviço de ortopedia acedeu a falar com uma das filhas. Explicou que a mãe deveria ter sido operada no mesmo dia da fatura, mas que foi impossível porque os blocos estavam todos ocupados. Que não havia camas na enfermaria e que seria preciso esperar para a deslocar para lá, e que só depois é que ela teria um médico atribuído ao seu caso. E só depois é que seria operada. “Mas quando é que isso vai acontecer?”, perguntou a filha. Não havia previsões.

A família ameaçou fazer queixa mas a resposta do médico deu a entender de que não valeria de muito. “Fazem queixa, a administração do hospital abre um inquérito, enviam as perguntas para os médicos e depois, em vez de estarmos a atender pessoas, estamos a responder a perguntas…”

Deolinda passou 10 dias no corredor das Urgências do Hospital de Abrantes. Subiu à enfermaria na passada segunda-feira, onde ganhou outro conforto (e mais algum sossego) mas a espera pelo médico teria de continuar: “O doutor só passa às quartas-feiras.”

A situação de Deolinda, nome fictício criado para esta paciente de carne e osso (partido) a pedido da família, está longe de ser um lamentável caso isolado. Nas duas últimas semanas cerca de 30 pessoas estiveram em condições semelhantes nas urgências do Hospital de Abrantes, à espera de resposta dos serviços de Ortopedia. O mediotejo.net ouviu o relato de vários pacientes, todos perdidos num mar de dores e de meias palavras, sentindo-se abandonados, dias a fio.

O tempo de espera por uma cirurgia de urgência, além de todos os problemas anímicos que causa – pelas dores, pelo frio, pela solidão, pelo medo, pela falta de sono num local em permanente reboliço – também pode criar ou agravar outras situações clínicas. Um idoso que fica vários dias numa maca num corredor pode desenvolver uma pneumonia; a ansiedade e as dores podem fazer disparar a tensão arterial, o que em pacientes hipertensos pode ter consequências a nível cardiovascular; e se a recuperação óssea na terceira idade já é um desafio, por vezes o trauma ainda é agravado quando chega (finalmente) o momento da cirurgia: não raras vezes os ossos já iniciaram um processo de solidificação, e os médicos têm de partir a perna outra vez.

Contactada pelo nosso jornal, a administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) assume o problema, explicando que “à semelhança do que se passa no resto do País, tem-se verificado uma afluência às urgências acima do normal, facto que cria vários constrangimentos e em particular quando se trata de doentes com necessidades de cuidados de ortopedia”. Tal situação, referem, “tem-se verificado em especial, em doentes politraumatizados, sobretudo jovens que tiveram acidentes de viação”.

Por outro lado, acrescentam, “é necessário referir que alguns doentes mais idosos em muitos casos tomam anticoagulantes, sendo necessário deixarem de tomar o medicamento durante pelo menos 5 dias, para evitar riscos de hemorragia. Em outros casos surgem com diversas patologias associadas (diabetes, hipertensão, etc.), que é necessário estabilizar, factos que obrigam a algum adiamento da cirurgia”. As principais situações de doentes idosos internados a aguardar intervenção cirúrgica, indica o CHMT, “são situações de fraturas proximais do fémur”.

Questionada sobre os motivos que não levaram a que alguns destes doentes tivessem sido transferidos para outras unidades de saúde, onde pudessem receber uma resposta mais célere, a administração respondeu que era uma “impossibilidade”, uma vez que “outras unidades do SNS também estão na mesma situação”.

A administração disse ao nosso jornal que “os serviços esperam recuperar rapidamente o tempo de espera destas situações nos próximos dias” e que, “para responder a esta situação excecional, o CHMT já abriu, a 6 de outubro, uma nova sala de Bloco Operatório para trauma, de terça a sexta-feira, das 9h00 às 14h00, o que tem exigido um esforço suplementar das equipas que estão nas urgências”.

Paralelamente, dizem ainda, “o CHMT está a desenvolver todos os esforços para, a curto prazo, reforçar o quadro de Ortopedistas que no momento conta com 7 profissionais do quadro, recorrendo-se a prestadores de serviços em situações de ‘avalanche’ de doentes, como no momento tem estado a acontecer”.

Deolinda já foi operada e está a recuperar. Do trauma físico primeiro, do psicológico só mais tarde se verá. Se conseguir pôr-se de pé novamente já será meio caminho andado para a felicidade.

Ela só quer voltar à sua casinha, poder deixar a loiça a escorrer na bancada, comprar a fruta que pousa sobre a mesa, coser as bainhas da roupa das netas, agradecendo a Deus por mais um dia sempre que o sol mergulha, lá longe, nas águas do Tejo.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

Deixe um comentário

Leave a Reply