No Dia Internacional do Voluntariado, que este ano tem o lema ‘Voluntários diversificados, comunidades mais fortes’, apresentado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, também Abrantes debateu o voluntariado numa sessão em que foram apresentados casos concretos que evidenciam a importância da atitude, em termos da construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
“Há cada vez mais voluntários a construir o País que somos”, começou por dizer Alfredo Abreu, da Confederação Portuguesa do Voluntariado (CPV), presente no primeiro painel do segundo dia das Jornadas Sociais e da Saúde de Abrantes, que decorreram na quinta-feira, 5 de dezembro.
“O voluntariado está, muitas vezes, conotado com a ideia de ajudar os mais frágeis; pessoas na situação de sem abrigo, as pessoas mais pobres, os mais idosos que vivem sozinho. De facto isso é uma grande parte e uma parte muito importante”, porém, notou, o voluntariado é muito mais abrangente, também na defesa dos direitos humanos e na luta contra as alterações climáticas.
“Há cada vez mais voluntários a responder a necessidades de construir o País que somos, por exemplo no ambiente e no património ambiental, a nossa casa comum”, disse Alfredo Abreu.

O espírito do voluntariado ajuda nos momentos mais delicados que podem surgir – alterações climáticas, conflitos e injustiças sociais. Em todos os lugares do mundo, os voluntários são normalmente os primeiros a responder. O responsável deu como exemplo Valência, em Espanha, onde, após a tragédia provocada pela cheias, compareceram mais de 20 mil voluntários.
Para além do social, referiu outras áreas como na Cultura, no Desporto, na Educação, na Justiça, na Saúde e no Associativismo.
“Há mais de 500 mil dirigentes associativos em Portugal em regime de voluntariado”, disse, acrescentando estimar-se que “entre 10% a 15% da população” portuguesa esteja envolvida no voluntariado, números que precisam crescer, “pelo menos duplicar esse número”, idealmente como acontece nos países nórdicos, com baixos índices de corrupção “há mais transparência porque há muito mais gente envolvida na gestão das coisas, temos de prestar contas uns aos outros. Na Noruega há 7 em cada dez cidadãos envolvidos”, notou.
Alfredo Abreu lembrou que “o voluntariado é uma forma de exercermos a nossa cidadania. Costuma-se dizer que votamos no País que queremos ser de quatro em quatro anos, quando elegemos os deputados para a Assembleia da República. Portanto, votamos de vez em quando. Mas quando fazemos voluntariado estamos a votar todos os dias pelo tipo de sociedade que queremos ser […] uma sociedade que ajudamos a construir, não uma coisa ‘pago impostos agora tratam-me disso’, isso é uma sociedade apática, desinteressada, impessoal”.
O representante da CPV ainda lançou um desafio à vereadora da Câmara Municipal de Abrantes, Raquel Olhicas, no sentido da autarquia “duplicar” o investimento no voluntariado.

Ainda no painel com o tema “Voluntariado vale a pena?” Paula Correia, da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social defendeu que “o voluntariado não é retórica, é ação. É uma prática, é o contacto direto, mesmo quando fazemos voluntariado online ou à distância”.
“O voluntariado é de pessoas, para pessoas, com pessoas, mesmo quando estejamos a fazer uma ação em benefício de um animal ou do ambiente, as pessoas são sempre o destino da nossa ação. É chamar a nós essa participação”, salientou Paula Correia.

Lembrou que o voluntariado passa por um “conjunto de ações de interesse social e comunitário realizadas de forma desinteressada no âmbito de projetos, programas e outras formas de intervenção em benefício de indivíduos, famílias e comunidades desenvolvidas sem fins lucrativos por entidades públicas ou privadas”.
Por seu lado, o voluntário faz “uma escolha, desinteressada, com responsabilidade” e para tal precisa de “aptidões próprias e disponibilidade”. Essa escolha significa querer produzir mudança. “Isso já nos faz radicais, já não somos conformistas. Estamos a afirmar: chamo a mim o poder da participação”, afirmou.
Segundo Paula Correia, ser voluntario “aumenta a autoestima e a confiança, permite a experimentação fora dos círculos habituais” sendo que o voluntariado “promove processos de educação, envolvimento, empoderamento e desenvolvimento contínuo de competências de todos para todos”.

E se o primeiro painel contou com a moderação de Rúben Marques, Isabel Pitacas moderou o segundo com o titulo ‘Projetos que nos inspiram’.
Clara Tripodi, do Just a Change, falou sobre o projeto que atua na pobreza habitacional. “Para nós a casa é só o início da mudança. Importa criar condições e reter os nossos voluntários connosco”, afirmou mostrando um vídeo onde se pode observar a intervenção de uma habitação em Lisboa, onde vivia Jorge em condições sub-humanas, sendo atualmente um voluntário do Just a Change.
Reabilitam casas sem telhados, janelas e portas. Casas onde não há água quente nem eletricidade. Reabilitam casas onde se passa frio. Reabilitam casas porque acreditam que as condições de vida têm um impacto direto na redução da pobreza e criminalidade da população. Reabilitam casas porque sabem que traz melhorias à saúde pública e à eficiência energética do nosso país. Reabilitam casas porque sabem que pode ser esse o ponto de partida para uma nova vida.
A pobreza habitacional afeta mais de 625 mil pessoas em Portugal. Apesar do nosso País ter invernos relativamente amenos os números revelam existir 25% de excesso de mortes no inverno, taxa significativamente mais elevada do que noutros países europeus.

Com a ajuda de voluntários e das comunidade locais o Just a Change transforma a vida daqueles que mais precisam, transformando as suas casas em lugares dignos de serem vividos com alegria e esperança. Para isso aplicam a metodologia de sinalizar, mobilizar, reabilitar e acompanhar. Além disso, desenvolvem vários programas de intervenção que permitem atuar em diversos contextos em paralelo, potenciando assim o impacto social e a coesão social nas comunidades locais.
Clara Tripodi avançou com os números, ou seja, são mais de 530 casas reabilitadas, mais de 200 instituições, mais de 15 mil beneficiários, com mais de 20 mil voluntários em 30 municípios.
Da ONG internacional Ajuda em Ação que luta contra a pobreza e a desigualdade e procura promover a dignidade e a solidariedade para a construção de um mundo justo esteve Mário Baudouin, diretor de programas da Ajuda em Ação em Portugal, um projeto que nasceu em 2020.
“Conseguir pagar as contas é o que traz uma grande paz às famílias […] o nosso impacto é criar mais sustentabilidade”. Referiu o concelho de Abrantes como destino do projeto das Fundações Ajuda em Ação e Repsol, “Futuro Verde em Ação”, com o objetivo de promover o emprego e o desenvolvimento sustentável local, criando oportunidades para centenas de jovens deste concelho, mas também dos vizinhos Tomar, Sardoal e Mação.
O “Futuro Verde em Ação” trata-se de um projeto piloto, destinado a alunos entre os 15 e os 25 anos do ensino secundário, profissional e universitário destes concelhos, para capacitar 150 jovens com conhecimentos e competências inovadoras, com especial preocupação por aqueles em situação de maior vulnerabilidade.
“Já conseguimos integrar cerca de 150 jovens com contratos de trabalho e conseguimos já capacitar cerca de 1076 jovens. A capacitação é toda online, o projeto é nacional ” explicou Mário Baudouin dizendo que os jovens “estão muito mais disponíveis no online do que no presencial. É um potencial enorme de intervenção. O processo online permite que tenham uma participação muito ativa; não estão expostos, não têm de sair da sua zona de conforto, podemos regular os tempos de participação de cada um, conseguimos que estejam calmos. Portanto é um programa de grande impacto”.

“Ser voluntário é exercer de forma plena e responsável o direito de cidadania intervindo na construção de uma sociedade mais solidária, mais justa e inclusiva”, começou por dizer a vereadora da Câmara Municipal de Abrantes, Raquel Olhicas, durante a sessão de abertura do segundo dia das Jornadas Sociais e da Saúde de Abrantes.
Referiu que o Banco Local de Voluntariado da Câmara Municipal “visa fortalecer a cooperação entre as instituições que necessitam de voluntários e as pessoas que desejam contribuir para a comunidade. As autarquias desempenham por isso um papel central na dinamização e promoção do voluntariado”.
Destacou o papel dos jovens no voluntariado, dando como exemplo a recente recolha para o Banco Alimentar Contra a Fome “onde os jovens aderiram em massa. Ver tantos jovens comprometidos com o futuro é um reforço da esperança que temos nesta sociedade. Ver tantos jovens, e menos jovens, voluntario prontos para serem protagonistas da mudança, chamados para a urgência dos desafios que temos perante nós […] é acreditar num mundo melhor”.
O município de Abrantes é o promotor de mais uma edição das Jornadas Sociais e da Saúde. Este ano com sessões divididas por três dias. Na quinta-feira, 28 de novembro, o mote foi a violência doméstica onde foi reforçado o alerta para a necessidade de uma ação “a montante da violência”. (ver AQUI).
O objetivo das jornadas passa por partilhar respostas inovadoras que promovam uma melhor qualidade de vida da comunidade.
“Saúde: uma visão para o futuro” é o tema da sessão das Jornadas Sociais e da Saúde que se realiza no dia 11 de dezembro que irá debater a “Inovação na saúde do Médio Tejo” e a “Inovação e educação para a Saúde comunitária”.
A participação nas Jornadas é gratuita e os interessados em participar na sessão de dia 1, poderão fazer a sua inscrição através do email servicodesaude@cm-abrantes.pt ou do telefone 241 330 100 + Tecla 2 + Tecla 5.
