Jornadas em Abrantes debateram e refletiram sobre as várias dependências e o consumo de drogas leves. Foto: mediotejo.net

A realidade das dependências e do consumo de drogas foi tema de debate em Abrantes, com a comunidade a levar à escola, onde os consumos gerais têm aumentado a nível nacional, uma reflexão e procura de respostas para um problema crescente. O consumo de substâncias psicoativas ilícitas ao longo da vida em Portugal subiu mais de 60% desde 2001, revela um estudo que espelha a mais recente informação sobre o uso de substâncias ilícitas, lícitas, jogo e ecrã. Também a prevalência do consumo de tabaco em Portugal aumentou de 48,8% para 51% entre 2017 e 2022 e a do consumo de álcool de 49,1% para 56,4%.

Sensibilizar e prevenir a comunidade, em particular os mais jovens, para o consumo de substâncias psicoativas ilícitas e apontar estratégias de prevenção foram alguns dos principais objetivos da iniciativa que se dirigiu não só aos profissionais na área dos comportamentos aditivos e dependências, mas também aos pais e encarregados de educação, à comunidade educativa e a profissionais com intervenção na comunidade.

Raquel Olhicas, vereadora com o pelouro da saúde e da ação social da Câmara Municipal de Abrantes, sublinhou na sua intervenção a importância das Jornadas e do tema a debate. Dirigindo-se às dezenas de jovens que marcaram presença nas Jornadas, a vereadora agradeceu a sua presença para debater uma temática que considerou ser “cada vez mais importante nos contextos do nosso quotidiano”.

“Eu costumo dizer que sozinhos vamos mais rápido, mas acompanhados vamos muito mais longe e com um caminho muito mais consistente”, afirmou Raquel Olhicas. “Eu quero dizer aos nossos alunos para que nunca se sintam sozinhos. Se tiverem alguma coisa para comentar ou questionar, falem com os colegas, com as instituições e com os professores acima de tudo”, acrescentou.

O “Projeto Homem Abrantes”, comunidade terapêutica que organizou as II Jornadas foi descrito por Raquel Olhicas como um projeto de grande contributo e importância para a comunidade de Abrantes.

Raquel Olhicas, vereadora na Câmara Municipal de Abrantes. Foto: mediotejo.net

“Contribuem diariamente para a melhoria da qualidade de vida dos seus utentes. Eu conheço as instalações, conheço os meandros profissionais com que vocês se deparam todos os dias e é louvável o trabalho que fazem em prol da nossa comunidade”, vincou.

Ainda durante a sua intervenção, Raquel Olhicas lembrou o trabalho do município, que tem mantido colaborações e apoiado projetos no seio da comunidade abrantina. “A CMA tem mantido uma forte cinergia com estes projetos e tem tido uma estreita relação no âmbito das temáticas associadas às dependências”, destacou.

ÁUDIO | Raquel Olhicas, vereadora da CMA, durante a sessão de abertura

O município presidido por Manuel Valamatos, de acordo com a vereadora, tem vindo a “abraçar desafios e projetos” no âmbito da temática em debate, “conscientes de que a problemática dos comportamentos aditivos é uma realidade transversal e que afeta todas as faixas etárias. Há que trabalhar nesse sentido e estamos aqui precisamente para isso”, concluiu Raquel Olhicas.

O padre José Castanheira, presidente da Direção do Centro Social Interparoquial de Abrantes, também marcou presença na tarde de trabalhos. Aos presentes, o pároco começou por falar de um projeto que auxilia no processo de “reconstrução”, destacando a importância das jornadas para que os próximos passos sejam “mais seguros e nos levarem a bom porto”.

“O Projeto Homem é um género de oficina de juntar cacos e fazer um vaso. Esta é uma sessão, não de oficina, mas de prevenção. É sobretudo um lugar onde podemos pensar melhor a consequência dos nossos atos e decisões, as consequências para nós e para outros das nossas fragilidades”, referiu José Castanheira.

Padre António Castanheira. Foto: mediotejo.net
ÁUDIO | Intervenção do padre António Castanheira na sessão de abertura

Relativamente à temática – “Drogas leves: recreativas ou patológicas?” – o padre afirmou que a “sociedade esgrime com frequência argumentos, ora proibitivos ou punitivos, ou num sentido mais laxista e liberalista”. Enquanto sociedade, é necessário “o melhor caminho”, vincou.

“Estas Jornadas são um rico contributo que os oradores nos oferecem, a quem desde já agradeço a partilha do seu saber, em busca do melhor caminho para esta permanente inquietação social. Que os trabalhos desta tarde façam brilhar o tesouro que está no nosso coração”, concluiu José Castanheira.

O tema em debate pretendeu dar resposta à preocupação crescente com o aumento do consumo destas substâncias, com particular incidência nas escolas. Ao longo da tarde de quinta-feira, teve lugar um debate franco e aberto sobre o consumo de substâncias, em particular das chamadas “drogas leves”, sobre as dificuldades e desafios que este consumo transporta para a comunidade.

Foto: mediotejo.net

Foram vários os especialistas na área da intervenção nos comportamentos aditivos que participaram da sessão e que contribuíram para a desmistificação de alguns mitos, lembrando algumas das principais consequências dos efeitos da utilização de drogas.

Alceu Dias, membro da comissão de tratamento da Asociación Proyecto Hombre de Espanha e diretor da comunicação terapêutica do Projeto Homem de Braga, foi um dos intervenientes da tarde, com uma comunicação sobre o consumo das ditas “drogas leves” e o seu impacto na saúde mental.

O termo “drogas leves” refere-se, geralmente, às “drogas que não são consideradas altamente viciantes ou prejudiciais à saúde”, começou por explicar o especialista. Entre as drogas leves mais comuns incluem-se a cannabis, o ecstasy, LSD, psilocibina (cogumelos mágicos) e a ketamina (special K).

Embora possa ser considerada “leve” ou “pesada”, o psicólogo clínico reforçou que o consumo de ambas pode ter efeitos colaterais negativos na saúde. “O uso de drogas leves pode levar a transtornos psicóticos e esquizofrenia. No caso de ecstasy pode ainda estar ligado à depressão, ansiedade, transtorno de pânico, psicose e paranoia”, referiu.

De acordo com o orador, o seu consumo pode levar a uma afetação da capacidade cognitiva e das habilidades de aprendizagem, especialmente junto dos mais jovens. “Os resultados podem divergir em função da dose, frequência, a duração do uso, fatores genéticos e o histórico de saúde mental”, acrescentou.

Embora possa reunir um conjunto de “contras”, o consumo de drogas é também explicado por alguns dos “prós” que lhe estão associados, nomeadamente o alívio da dor crónica, uma redução da ansiedade e dos níveis de stress e o aumento da criatividade.

ÁUDIO | Alceu Dias, diretor da comunicação terapêutica do Projeto Homem de Braga

No entanto, Alceu Dias concluiu a sua intervenção reforçando os efeitos colaterais sentidos ao nível da saúde mental e que se associam ao consumo de drogas leves.

“De facto, nem todas as pessoas que consomem drogas leves irão desenvolver psicose, é um facto. Mas o risco de que isso aconteça é um risco muito significativo. Todos esses estudos demonstram isso, o risco que corremos quando usamos este tipo de drogas”, concluiu o psicólogo.

O início da tarde de trabalhos foi dado com uma performance de saxofone, da responsabilidade dos alunos do Agrupamento de Escolas N2 de Abrantes.

Consumo de drogas ilícitas ao longo da vida aumentou mais de 60% em Portugal

O consumo de substâncias psicoativas ilícitas ao longo da vida em Portugal subiu mais de 60% desde 2001, situando-se a prevalência em 2022 abaixo da média registada pelo conjunto dos países europeus, revela um estudo hoje divulgado.

“Entre 2001 e 2022, a prevalência ao longo da vida, para qualquer substância psicoativa ilícita, passa de 7,8% para 12,8%”, referem os dados que espelham a mais recente informação sobre o uso de substâncias ilícitas, lícitas, jogo e ecrã.

Promovido pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), o V Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral foi iniciado em 2001, tendo sido replicado em 2007, 2012, 2016/17 e em 2022, sob a responsabilidade de uma equipa de investigação do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, constituída por Casimiro Balsa, Clara Vital e Cláudia Urbano.

Sobre este aumento da prevalência ao longo da vida, para qualquer substância psicoativa ilícita, os investigadores explicam: “Mesmo quando os hábitos de consumo se mantêm estáveis, a prevalência tende a aumentar pelo facto de, a cada aplicação [do inquérito], retirarmos da amostra um grupo etário que não tinha nenhuma relação com substâncias ilícitas – os mais velhos – e o substituirmos por um grupo, os mais jovens, que a passa a ter”.

Nos 20 anos de recolha, as mulheres passam de uma prevalência de 4% para 7,4% e os homens de 11,7% em 2001, para 18,6% em 2022, revela o inquérito, que tem uma amostra de 12.000 pessoas, representativa da população entre os 15 e os 74 anos, por região, por sexo e por idades.

Estes valores aumentam quando se isola a população dos jovens adultos (15-34 anos), com o consumo das mulheres a passar de 7% em 2001, para 9,6% em 2022, enquanto o consumo dos homens passa de 18,2% para 21,8%.

“Com esta evolução, continuamos, como no início do milénio, com níveis de consumo abaixo dos registados no conjunto dos países europeus”, salienta o estudo, que é apresentado hoje num evento no SICAD, em Lisboa.

Com o tema “Conhecer a realidade para intervir com qualidade”, o evento antecipa as comemorações do Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico ilícito de Drogas, que se assinala em 26 de junho.

O estudo fez uma comparação no plano internacional do consumo de canábis, cocaína, anfetaminas, ‘ecstasy’ e LSD com base na prevalência dos consumos dos últimos 12 meses e tendo como referência os valores disponibilizados para 30 países europeus pelo Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência.

A canábis, substância ilícita com maiores prevalências de consumo, apresenta um valor máximo de cerca de 11% (Chéquia e França) e médio de 5,7% no conjunto dos países, estando Portugal, com uma prevalência de 2,8%, na 24ª posição.

Relativamente ao consumo de cocaína, que na Europa tem uma prevalência média de 0,4%, Portugal encontra-se em 26.º lugar, com uma prevalência de 0,2%, e no consumo de anfetaminas a prevalência é inferior a 0,1%, sendo a média para os 27 países europeus que apresentam informação para esta substância de 1,4%.

No caso do ecstasy, para uma média de 0,9% entre os 29 países que apresentam dados para este indicador, Portugal apresenta uma prevalência de consumo de 0,1%, a mais baixa de todas, a par com a Turquia.

O consumo de LSD apresenta um valor médio de 0,4% para o conjunto dos 27 países que apresentam valores para este indicador, estando Portugal entre os países com menores prevalências (0,1%), a par da Bulgária, Chipre, Hungria, Itália, Lituânia e Luxemburgo.

Consumo de tabaco e álcool aumentou nos últimos cinco anos em Portugal

A prevalência do consumo de tabaco em Portugal aumentou de 48,8% para 51% entre 2017 e 2022 e a do consumo de álcool de 49,1% para 56,4%, enquanto o uso de sedativos está nos 13%, abaixo dos 22,%5 em 2001.

Os dados fazem parte do V Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral 2022, promovido pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), que retrata a mais recente informação sobre o uso de substâncias ilícitas, lícitas, jogo e ecrã.

Entre as substâncias psicoativas estudadas, o tabaco é a segunda (abaixo do álcool) com a experiência de consumo mais generalizado, com cerca de 50% da população entre os 15 e os 64 anos a declarar ter consumido tabaco alguma vez ao longo da vida, refere o inquérito que foi iniciado em 2001, tendo sido replicado em 2007, 2012, 2016/17 e em 2022, sob a responsabilidade de uma equipa de investigação do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa.

“As prevalências dos consumos atuais (nos últimos 30 dias), são sempre mais baixas do que as que registámos no último ano. Isso deve-se ao facto de o número de experiências sem continuidade ou de abandonos durante este período não excederem as novas experiências no último mês”, referem os autores do estudo, que tem uma amostra de 12.000 inquiridos, representativa da população.

Na população total (15-64 anos), a prevalência do consumo de tabaco nos últimos 30 dias aumentou ligeiramente em 2022, atingindo 31,9%, contra os 30,6% registados em 2017, um aumento que se deve ao aumento do consumo dos homens, passando de 36,5% para 40,8%, tendo no mesmo período baixado o consumo das mulheres, de 25% para 23,4%.

Analisando a população dos jovens adultos, o estudo indica que os consumos atuais seguem um padrão similar ao registado para os consumos recentes (últimos 12 meses) e são superiores aos registados no conjunto da população (15-64 anos) exceto em 2022 em que eles diminuem.

“Entre 2017 e 2022 a prevalência dos consumos atuais dos jovens adultos baixou de 37,4% para 27,8%, sendo que no caso dos homens a descida é de 39,6% para 35,8% e no caso das mulheres de 35,3% para 19,6%”, refere o inquérito que é apresentado hoje num evento no SICAD, em Lisboa, que antecipa as comemorações do Dia Internacional contra o Abuso e Tráfico ilícito de Drogas.

Relativamente ao álcool, os dados indicam que a prevalência do consumo ao longo da vida (75,8%) desceu em relação a 2017 (86,4%) e aproxima-se dos valores registados entre 2001 e 2012, mas considerando os consumos atuais (nos últimos 30 dias), a prevalência sobe de 49,1% para 56,4% entre 2017 e 2022, apesar de não atingir os valores de 2001 e 2007 (cerca de 60%).

A prevalência de consumo ‘binge’ (consumo rápido e excessivo de bebidas alcoólicas), pelo menos uma vez no último ano, é de 10,3% para o total da população, similar aos valores de 2012 e 2017, sendo os consumidores sobretudo homens com idades entre os 25 e os 44 anos.

Um consumo ‘binge’ mais severo (uma vez ou mais por mês nos últimos 12 meses) é declarado por 6,1%, uma prevalência que sobe relativamente a 2012 (3,4%) e a 2017 (5,1%).

Quanto à prevalência do consumo de sedativos, o inquérito revela que se situava, na população dos 15 aos 64 anos, nos 13% em 2022, quando em 2017 era de 12,1%, depois de ter atingido 22,5% em 2001, 19,1% em 2007 e 20,4% em 2012.

“De todas as substâncias psicoativas por nós estudadas, esta é a terceira com maior expressão, depois do álcool e do tabaco”, sublinham os investigadores, adiantando que, contrariamente ao álcool e ao tabaco, o consumo de sedativos é maior nas mulheres (16,9%) do que nos homens (9%), um padrão que se tem mantido.

A prevalência do consumo de sedativos nos jovens adultos (15-34 anos) situa-se em torno dos 2% em 2022, os níveis mais baixos, sendo que esta redução se deve essencialmente, à diminuição progressiva dos consumos femininos que passam de 6,1% em 2001, para 1,9% em 2022.

C/LUSA

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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