Comunidade uniu-se para devolver um lar seguro a idosa de 90 anos após a tempestade Kristin. Foto: RCA

Quando a tempestade Kristin passou pelo concelho de Abrantes, no inverno passado, deixou um rasto de destruição em várias habitações. Em Vale de Tábuas, na freguesia de Carvalhal, uma das casas mais atingidas foi a de D. Maria, de 90 anos, que vive com o filho Luís. O telhado ficou destruído e, sem capacidade financeira para suportar a reparação, mãe e filho improvisaram uma solução temporária com plásticos para tentar proteger a casa da chuva.

Meses depois, a habitação apresenta um cenário bem diferente. Tem um telhado novo, quatro janelas substituídas e está preparada para enfrentar o próximo inverno, resultado de uma mobilização solidária desencadeada pelo Rotary Club de Abrantes, que reuniu apoios da comunidade, empresas, autarquias e do Estado.

A iniciativa nasceu logo após a tempestade, quando o clube rotário decidiu identificar uma família particularmente vulnerável que necessitasse de ajuda para recuperar a sua habitação. Depois de vários contactos institucionais, a situação de D. Maria foi sinalizada pela presidente da Junta de Freguesia de Carvalhal, Maria Elisabete Jorge.

“Desde o primeiro momento em que fui contactada, o meu pensamento foi para ali”, recorda a autarca, explicando que, além dos estragos provocados pela tempestade, a família enfrentava outras fragilidades sociais, nomeadamente a solidão.

“É uma família que apresenta carências de vária ordem. Era muito importante que sentissem que não estavam sozinhos e que tinham apoio”, afirma.

Movimento solidário em Abrantes recuperou casa de família afetada pela tempestade Kristin. Foto: RCA

A história de D. Maria confunde-se com a do pequeno lugar onde sempre viveu. Nasceu na casa dos pais, hoje em ruínas, e, depois de casar, construiu a sua própria habitação mesmo ao lado, onde permanece até hoje com o filho.

Quando soube que um grupo de pessoas pretendia ajudá-la a recuperar a casa, confessa que ficou “toda contente”. Sem possibilidades de suportar o custo de um novo telhado, via a chegada do inverno com preocupação.

Para angariar fundos, o Rotary Club de Abrantes organizou, em abril, um almoço solidário na Associação de Moradores de Andreus, animado pelo grupo Cant’Abrantes. A iniciativa reuniu 142 participantes e constituiu o primeiro passo de uma corrente de solidariedade que rapidamente ultrapassou as fronteiras do concelho.

Ao almoço juntaram-se donativos de particulares, empresas e amigos da região e de outras zonas do país, permitindo angariar 3.386 euros.

A obra ganhou dimensão com a adesão de dois empreiteiros locais, Luís Sousa e Ricardo Pires, que aceitaram executar os trabalhos em condições ajustadas à situação da família.

Mais tarde surgiria outro gesto inesperado. Liliana Amaro e Tiago Rodrigues, de São Miguel do Rio Torto, ofereceram quatro janelas novas para a habitação, que foram adaptadas à estrutura existente durante a intervenção.

Comunidade uniu-se para devolver um lar seguro a idosa de 90 anos após a tempestade Kristin. Foto: RCA

Mesmo assim, o valor da obra ultrapassava largamente o montante angariado. Perante essa realidade, o Rotary Club de Abrantes promoveu a candidatura da habitação ao Fundo Estatal de Calamidade, criado para apoiar famílias afetadas pelas intempéries.

A candidatura foi aprovada, permitindo obter um apoio de 4.900 euros, verba que, juntamente com os donativos recolhidos e um contributo adicional do Rotary Club de Abrantes, tornou possível concluir integralmente a recuperação da casa.

Para Maria Elisabete Jorge, o resultado ultrapassa a simples reconstrução de uma habitação. “A D. Maria agora pode fechar as janelas à vontade, que não partem, e pode estar deitada descansada na cama porque não chove”, resume.

A autarca considera que esta iniciativa demonstra a força da solidariedade quando diferentes entidades e cidadãos trabalham em conjunto por uma causa comum. “Quando nos unimos fazemos milagres”, afirma.

Também para o Rotary Club de Abrantes este projeto representa um exemplo do impacto que o voluntariado e as parcerias podem ter na comunidade. Na recente cerimónia de transmissão de tarefas do clube, a presidente cessante, Hália Santos, recordou a recuperação da habitação como um dos momentos mais marcantes do seu mandato.

“Conseguimos resolver aquela situação em apenas três meses, mas não foi o Rotary sozinho. Foram as pessoas, os parceiros, quem participou no almoço solidário e todos os que quiseram ajudar. Nós somos um elo de ligação entre quem quer ajudar e quem precisa”, afirmou.

Visivelmente emocionada ao recordar a beneficiária, Hália Santos confessou que “é muito gratificante perceber que conseguimos mudar verdadeiramente a vida das pessoas”.

Para D. Maria, porém, a mudança resume-se de forma muito mais simples. Agradecida pela ajuda recebida, sorri ao olhar para a casa renovada e diz apenas: “As janelas ficaram muito melhores”. Agora, garante, tem um telhado que lhe permitirá viver tranquila “para toda a vida”.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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