Abrantes com taxa de retenção de alunos superior à média do Médio Tejo e do País. Foto: DR

Abrantes apresenta uma taxa de retenção de alunos em todos os níveis de ensino superior à média do Médio Tejo e do País, um dado revelado por Isilda Jana (PS) em Assembleia Municipal. Na discussão do documento de revisão da Carta Educativa, aprovado por maioria, a eleita referiu ainda mais dois pontos que exigem uma “discussão séria e urgente” e que estão plasmados no estudo que abarcou o período entre 2010 e 2018: a retração da procura escolar e a baixa taxa de ocupação dos estabelecimentos escolares em Abrantes.

Os documentos compilam as indicações estatísticas do concelho com diagnostico estratégico do contexto social e económico e a caracterização do sistema educativo local na ótica da oferta e da procura, a caracterização sumária da localização e organização espacial dos edifícios e equipamentos educativos, uma proposta de intervenção relativamente à rede pública com suporte na projeção da procura escolar até ao ano 2030.

Mas segundo a revisão da Carta Educativa, em Abrantes “os alunos reprovam mais e alguma coisa não está bem” disse a deputada municipal do Partido Socialista, Isilda Jana, enquanto reconhecia o investimento do Município em edifícios e equipamentos educativos que “não se têm refletido na taxa de retenção” considerando tal “preocupante” e referindo que os valores apresentados são relativos aos anos de 2010 a 2018, desconhecendo se a situação ainda se mantém.

ÁUDIO | DEPUTADA DO PS, ISILDA JANA:

A Carta Educativa do concelho de Abrantes para a próxima década foi igualmente aprovada por maioria em reunião de executivo. Este documento de planeamento estratégico, que complementa a estratégia municipal para a redução do abandono escolar precoce e a promoção do sucesso educativo, pretende refletir “qual o caminho que queremos seguir no futuro”, explanou ao mediotejo.net a vereadora com o pelouro da Educação, Celeste Simão.

E o caminho parece apresentar-se sinuoso, pelo menos para as bancadas do Partido Social Democrata, do Bloco de Esquerda, da Coligação Democrática Unitária e do movimento independente ALTERNATIVAcom. João Salvador Fernandes, do PSD, disse mesmo que a revisão da Carta Educativa cumpre num propósito “mostrar as circunstâncias desanimadoras e afrontosas em que se encontra o nosso município demonstrando um quadro socioeconómico aterrador”.

ÁUDIO | DEPUTADO DO PSD, JOÃO FERNANDES:

Durante a sua intervenção, a deputada socialista Isilda Jana salientou “a importância de ter uma Carta Educativa aprovada” e classificou o documento de “muito realista que não esconde números”, designadamente quanto à retração da procura escolar, uma tendência de Abrantes, da região do Médio Tejo e do País, muito por causa da baixa natalidade, e a consequente baixa taxa de ocupação dos estabelecimentos escolares, da estratégia a seguir quanto aos equipamentos subaproveitados e a já referida elevada retenção escolar.

Após a intervenção da deputada municipal do PS, o vereador do PSD, Vitor Moura, pediu a defesa da honra para contrariar algumas das afirmações de Isilda Jana, relacionadas com a opção de a revisão ter sido entregue a uma empresa externa aos serviços da Câmara Municipal.

“Não disse que o documento estava mal entregue a quem foi entregue, nem falei que o conteúdo não estava correto. Antes pelo contrário”. Reconhecendo que “o conteúdo  da Carta educativa está correto” justificou que o documento lhe deu a oportunidade de criticar as políticas e opções de investimento do executivo socialista, nomeadamente no que toca ao novo Centro Escolar do Colégio de Fátima.

Acrescentou João Salvador Fernandes não haver “uma centelha de esperança” em Abrantes, uma vez que o documento admite não serem conhecidos elementos suficientemente sólidos que permitam antecipar um cenário de inversão desta trajetória a curto e médio prazo”.

E a trajetória a que se refere prende-se com o decréscimo demográfico e na relação da população sénior e jovem residente no concelho de Abrantes, sendo que a população sénior aumentou de 24% para 29% entre 2001 e 2018, notando que os Censos mostram “um cenário de envelhecimento e de perda de população”.

Por outro lado, aponta “uma falsa estratégia de despejar dinheiro nos problemas quando o que se perspetiva é a diminuição de alunos”. Considera ainda que tratando-se de uma Carta Educativa, “não tem planeamento”, designadamente no que toca ao edificado. O PSD votou, por isso, contra o documento.

ÁUDIO | DEPUTADO DO BE, PEDRO GRAVE:

Já Pedro Grave, deputado municipal do Bloco de Esquerda, lembrou que o BE e a comunidade esperam desde 2015 pela Carta Educativa atualizada, contudo agora “surgem novas dúvidas”.

Questionou, uma vez que a Carta Educativa “demorou tanto tempo a ficar pronta, como podemos esperar que as monitorizações anuais sejam feitas de forma rigorosa e atempada, adequadas às difíceis e importantes decisões que vão ter de se tomar em contextos como por exemplo Bemposta, Rio de Moinhos, Alvega, localidades onde a diminuição da população escolar tem de ser cruzada com as políticas de promoção e desenvolvimento destas localidades?”

ÁUDIO | DEPUTADO DA CDU, LUÍS LOURENÇO:

Pela CDU, Luís Lourenço disse que a Carta Educativa é um documento “muito bem elaborado” mostrando o que tem sido a evolução da educação, sociedade, economia no concelho, o que deixa o eleito comunista “preocupado”, apontando as causas dessa preocupação, desde logo a “diminuição demográfica e a falta de emprego no concelho” como problemas que afetam a educação.

O eleito da CDU defendeu a criação de emprego para fixação das gerações mais novas, a necessidade de melhorar a rede de transportes, dos refeitórios escolares e equipamentos nas escolas. Para combater o abandono escolar, defendeu ainda a diversificação de ofertas formativas de acordo com as necessidades profissionais da região.

Do lado do movimento ALTERNATIVAcom, Sónia Pedro, em declaração de voto, disse que o diagnóstico da revisão da Carta Educativa “traça um retrato deprimente de um concelho em contínuo definhamento que nem a drenagem de população e recursos do campo para a cidade conseguiu travar: uma brutal quebra populacional, cerca de ¼ do desemprego do Médio Tejo e taxas de retenção e desistência escolar sistematicamente acima da média dos 13 municípios da nossa sub-região, em todos os níveis de ensino”.

Acrescentou ver “com estupefação, que as projeções da Carta Educativa não preveem a hipótese de crescimento do emprego e da imigração e fixação de novos residentes, o que revela que já se desistiu de travar o declínio e crescer, afirmando-se no documento que ‘não são conhecidos elementos suficientemente sólidos que permitam antecipar um cenário de inversão desta trajetória [de declínio] a curto-médio prazo’”, considerando “esta resignação lamentável”.

Contudo, os independentes optaram pelo voto favorável uma vez que “a rede de estabelecimentos de educação pré-escolar e de ensino básico e secundário terá de se adequar e isso justifica o nosso voto favorável à aprovação da Carta Educativa do concelho de Abrantes”.

ÁUDIO | DEPUTADA DO ALTERNATIVAcom, SÓNIA PEDRO:

A revisão da Carta Educativa de Abrantes foi aprovada por maioria com quatro votos contra da bancada do PSD e uma abstenção do presidente da União de Freguesias de Aldeia do Mato e Souto (PSD).

Centro Escolar de Rio de Moinhos sem aquecimento há 8 anos

A propósito de Educação, no final da Assembleia Municipal, aquando do período da intervenção do público, o presidente da Assembleia Municipal leu um documento remetido por e-mail de Mário Medroa, presidente da direção da Associação de Pais e Encarregados de Educação dos Estabelecimentos de Ensino do Oeste do Concelho de Abrantes, dando conta que o Centro Escolar de Rio de Moinhos não tem aquecimento há oito anos, precisamente desde 2013.

Fala na importância do conforto térmico dos alunos para o sucesso escolar tendo feito notar que “não há ensino de excelência de pés frios”.

ÁUDIO | ANTÓNIO MOR LÊ INTERVENÇÃO DE MÁRIO MEDROA:

Mário Medroa deu conta de uma avaria no sistema de climatização da escola, de “reiterados pedidos de reparação”, de “dezenas de e-mails enviados à vereação sem resposta”, de “proposta recusada sem apresentar solução” e de respostas salientando “outras prioridades”. O presidente da direção espera agora que o presidente da Câmara seja “sensível” a esta questão e receba a Associação de Pais.

ÁUDIO | PRESIDENTE DA CM ABRANTES, MANUEL JORGE VALAMATOS:

Em resposta, o presidente da Câmara, Manuel Jorge Valamatos (PS), afirmou ter tido conhecimento da situação no dia anterior referindo a inexistência de sistema de climatização no Centro Escolar de Rio de Moinhos, tendo sido, entretanto, comprados uns aquecedores.

Indicou ainda que a questão será analisada juntamente com a vereadora da Educação, Celeste Simão, com o diretor do Agrupamento de Escolas nº2 de Abrantes e com o vereador João Gomes, no sentido de encontrar uma solução.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.