O MAC abriu portas em Abrantes, junto ao Castelo, na tarde deste sábado. Foto: CMA

O novo equipamento museológico, que resultou dessa empreitada de restauro, reabilitação e ampliação, implicou um investimento global na ordem dos 3,1 milhões de euros, dos quais 2,5 milhões de euros (ME) da empreitada. As obras representativas das várias fases da atividade artística do escultor Charters de Almeida estão expostas no interior e no exterior do edifício, que conta com 17 salas expositivas, destinadas a exposições de caráter permanente e temporário, e com um auditório polivalente com 63 lugares.

“Celebramos a cidade, celebramos o tempo e o espaço, celebramos a condição humana e, sobretudo, celebramos a vida e a obra do professor e mestre João Charters de Almeida”, afirmou Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes, sublinhando um “percurso notável” que atravessou mais de seis décadas e levou o nome do escultor aos quatro cantos do mundo.

De acordo com o autarca, Abrantes já conhecia Charters de Almeida, mas a partir de agora reconhece-o plenamente, proporcionando a todos os públicos o acesso a uma obra rica em diferentes formulações artísticas, materiais e escalas. “De hoje em diante, todos os públicos podem fluir e usufruir do seu enorme talento e da sua notável perceção estética”, afirmou.

Valamatos vincou que a criação do MAC é resultado de uma visão estratégica iniciada há mais de uma década, assente na conservação, valorização, preservação e promoção do património do município. “Este dia fica marcado para a história de Abrantes, como reflexo de um trabalho persistente e de uma aposta estruturante na cultura”, frisou.

Sobre a carreira do escultor, Manuel Jorge Valamatos recordou a sua produção diversa, que abrange escultura monumental e intimista, medalhística, pintura, cerâmica, tapeçaria e até incursões pela música. “Charters de Almeida trabalhou materiais como o ferro, o aço, o bronze, a pedra e o betão, explorou escalas, formas e conceitos, sempre com uma impressionante capacidade de expressão estética”, elogiou.

ÁUDIO | Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes

Durante a inauguração do MAC, o edil explicou que o edifício foi pensado para refletir a pluralidade da obra do artista. “Este museu não é um mero repositório. É uma casa com história que acolhe uma obra com identidade, um espaço para ser vivido, um museu que não fecha a arte, mas sim a abre a todos”.

Manuel Jorge Valamatos. Foto: mediotejo.net

O autarca acrescentou ainda que a inauguração do MAC permitiu “libertar” a galeria municipal para trabalhos de artistas locais e regionais, num espaço que, nos últimos anos, funcionara como “laboratório” para o novo museu. Sublinhou ainda que Abrantes, com esta inauguração, passou a dispor de “um conjunto muito atrativo de estruturas culturais ao serviço da região e do país”.

O escultor João Charters de Almeida destacou a importância do esforço coletivo que tornou possível a criação do espaço dedicado à sua obra. Num discurso emocionado, o artista rejeitou qualquer protagonismo individual, sublinhando que “nenhuma pessoa sozinha é capaz de fazer seja o que for” e que o sucesso resulta sempre da colaboração com os outros.

Charters de Almeida fez questão de recordar todos aqueles que acompanharam o projeto desde o início, nomeadamente os anteriores executivos, elogiando a determinação de todos os envolvidos. “Foi um desenvolvimento absolutamente hercúleo e notável, porque ninguém desistiu. Quanto mais dificuldades surgiam, mais redobrada era a luta”, afirmou.

ÁUDIO | João Charters de Almeida durante a cerimónia de inauguração do espaço museológico

O escultor partilhou ainda a sua visão artística, explicando que a sua obra reflete a ideia de movimento constante da vida e do tempo. “Tudo o que está à nossa volta não é estático, está sempre em movimento, tal como nós”, afirmou, defendendo que o museu deve ser um espaço vivo, aberto à interpretação e à evolução.

Visivelmente emocionado, Charters de Almeida expressou a sua gratidão à Câmara Municipal e a todos os que contribuíram para a realização do projeto.

“Sinto-me profundamente honrado por trabalhar para a Câmara de Abrantes e por tudo o que aconteceu hoje, algo que nunca imaginei que pudesse acontecer”, disse, concluindo com um agradecimento especial à sua esposa, que marcou presença ao seu lado durante o momento.

Isabel Damasceno, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR Centro), marcou presença na cerimónia de inauguração, onde agradeceu à Câmara de Abrantes pelo empenho na concretização do projeto e recordou a amizade com Charters de Almeida e a sua esposa.

A presidente da CCDR Centro salientou que a entidade que lidera, enquanto gestora de fundos comunitários, acompanhou de perto o desenvolvimento do projeto ao longo dos anos.

“Aqui fomos vendo o que ia acontecendo com este magnífico edifício e com a sua preservação e transformação neste lugar de cultura”, referiu.

Isabel Damasceno. Foto: mediotejo.net

Isabel Damasceno sublinhou ainda que a criação do MAC representa um “enorme enriquecimento” para a região, ao dar nova vida a um edifício histórico e ao consolidar o legado de Charters de Almeida. “É honrar um nome, honrar uma obra, honrar uma causa, que é a causa da cultura”, afirmou.

A inauguração ficou também marcada por um momento de emoção familiar protagonizado pelos netos do escultor. Em palco, os seis netos partilharam com o público a faceta mais íntima e pessoal de João Charters de Almeida, descrevendo-o como um avô “dedicado, persistente, lutador, honesto e, acima de tudo, um homem de família”.

Foto: mediotejo.net

“Hoje temos o privilégio de homenagear a vida e a obra do nosso avô”, começaram por dizer, sublinhando que, para além do reconhecido escultor, existe “um grande avô”, cuja influência ultrapassou largamente o campo artístico.

Numa intervenção emotiva e cheia de memórias, os netos recordaram os serões animados à volta da mesa, as conversas sérias, as brincadeiras infindáveis e o sentido de humor de Charters de Almeida. Entre histórias e risos, partilharam episódios como as partidas feitas aos amigos. “Sempre adorou brincadeiras e partidas, e muitos dos nossos amigos sofreram-nas na pele”, disseram.

ÁUDIO | Os 6 netos de Charters de Almeida subiram ao palco para homenagear o avô

Os netos destacaram os valores que o avô lhes incutiu desde cedo: a honestidade, a integridade, o respeito por todos e a importância de encarar a vida com criatividade e resiliência. “Sempre nos disse que tanto custa ser bom aluno como mau aluno, por isso mais vale sermos os melhores em tudo o que fazemos”, recordaram.

A intervenção terminou com uma homenagem à relação entre Charters de Almeida e a esposa, Mariazinha. “Seria impossível falarmos do avô sem falarmos da avó. São dois dos nossos maiores exemplos de dedicação e união. O avô nunca termina um almoço ou jantar sem agradecer à avó tudo o que tem e alcançou.”

Fernando António Baptista Pereira, historiador e responsável pela museologia do recém-inaugurado MAC, recordou o longo percurso até à abertura do espaço em Abrantes. Em declarações durante a cerimónia, destacou as dificuldades enfrentadas, desde os atrasos provocados pela pandemia de COVID-19 até à complexidade de realizar uma obra pública de qualidade, sublinhando que “valeu a pena fazer esse caminho” para honrar a vida e a obra de João Charters de Almeida.

Sobre o projeto museológico, Fernando Pereira explicou que a prioridade foi criar um espaço que desse protagonismo absoluto à obra de Charters de Almeida, evitando protagonismos arquitetónicos ou expositivos que pudessem ofuscar a arte.

Em vez de uma “apresentação cronológica preguiçosa”, optou-se por uma museografia que valoriza o diálogo entre materiais, escalas e períodos da vida do escultor, convidando cada visitante a construir a sua própria leitura da coleção. “Cada um fará a sua visita de forma diferente, de acordo com a sua sensibilidade”, frisou.

Fernando Pereira enfatizou ainda que o museu não ficou com “obras de segunda ordem”, mas sim com peças de “primeiríssima qualidade” doadas generosamente pelo próprio artista. A ausência das esculturas monumentais – instaladas em praças públicas em Portugal e no estrangeiro – é compensada com fotografias de grande formato que recriam a experiência de fruição das obras no espaço urbano. “A genialidade de Charters de Almeida está presente em cada andar, em cada peça, e é agora património de todos”, concluiu.

Após os discursos iniciais, seguiu-se uma visita guiada pelas diferentes salas, dispostas ao longo de três pisos, que contam e recontam mais de cinquenta anos da obra do mestre Charters de Almeida.

O MAC inclui peças da primeira fase do trabalho do escultor (até 1973), conhecida como a fase “dos bronzes”, pela predominância desse material, um conjunto de trabalhos denominados “Relógios de Sol”, em blocos de mármore polido com componentes metálicas, e ainda quadros e projetos das “Cidades Imaginárias”, grandes intervenções em espaço público com materiais como aço, mármore, granito e betão armado.

Também a zona exterior do logradouro do antigo Edifício Carneiro foi requalificada, onde será instalado um percurso de exposição ao ar livre que conduz até ao Jardim do Castelo, em confluência com a fortaleza e área envolvente.

O escultor Charters de Almeida doou ao município de Abrantes uma parte significativa da sua coleção, fruto de mais de meio século de atividade artística, com destaque para as obras em grande escala conhecidas como “Cidades Imaginárias”, que chegam a atingir os 40 metros de altura.

Nascido em Lisboa em 1935, Charters de Almeida estudou escultura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde se formou. É um artista reconhecido, com obras em Portugal, Estados Unidos, Canadá e Itália, entre outros países, e que está representado em museus, fundações e coleções particulares em vários pontos do mundo.

A empreitada foi adjudicada à empresa Tecnorém – Engenharia e Construções, S.A., pelo valor inicial de cerca de 2 ME, que evoluiu para 2,5 ME, com um prazo de execução inicialmente previsto de 720 dias.

A intervenção foi financiada em cerca de 85% por fundos comunitários do Portugal 2020, na sequência de uma candidatura aprovada no âmbito do PEDUA – Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Abrantes.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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