Canal de Alfanzira, no rio Tejo, em Mouriscas. Créditos: Arlindo Marques

A história que Joaquim Candeias da Silva investigou transporta-nos à navegação e às dificuldades em atravessar o “Cachão”, situado “a duas léguas de Abrantes”, a correnteza mais complicada do Tejo, então totalmente navegável e importante via de transporte de mercadorias, a montante de Abrantes até Alcântara. Quem o concluiu foi o engenheiro Juan Baptista Antonelli a quem o rei Filipe II (I de Portugal) ordenou obras de engenharia hidráulica no Médio Tejo.

A obra de engenharia em questão terá cerca de 440 anos, localiza-se dentro do Tejo, em Mouriscas (Abrantes), a montante do Casal do Tejo e a jusante do Casal de Vale Covo, ambos na antiga vintena dos Cascalhos, onde também chamam o ‘Cachão’, nome adquirido graças à velocidade que as águas do rio ali atingem com ruído, correndo “entre densos fraguedos xistosos de extraordinária dureza”, como explica o historiador Joaquim Candeias da Silva.

“Geologicamente serão estes de origem pré-câmbrica, da chamada ‘série negra’, e daí que nem as águas de milénios a fio a baterem neles tenham conseguido rompê-los”, o que dificultava a navegação naquele local.

Foi precisamente no decurso de um levantamento documental que o historiador realizou, em meados da década de 1990, com vista à dissertação de doutoramento sobre o período filipino em Portugal, que Candeias da Silva se deparou com vários textos referentes a obras de engenharia hidráulica no Médio Tejo a montante de Abrantes, ordenadas por Filipe II (I de Portugal), ao longo dos anos de 1581-1582. Uma dessas obras é o Canal de Alfanzira, inserido num grande projeto de navegabilidade do Tejo.

Muralha em sirga no Canal de Alfanzira. Créditos: Joaquim Candeias da Silva

Trata-se de uma obra de engenharia hidráulica – que crê ser única no género –, como referido, em prol da navegabilidade do Tejo.

“Mais concretamente, a construção de um pequeno braço de rio artificial, através da abertura de um canal na margem direita do Tejo, a fim de desviar as embarcações de uns fraguedos muito perigosos no próprio leito do rio que naquela zona impediam a normal navegação. Obra de grande vulto para o tempo, testemunha bem os esforços de Filipe II para modernizar a Península, que então acabara de ficar sob uma coroa única”, realça o historiador.

Sessenta anos foi o período de dominação espanhola de Portugal, entre 1580 e 1640, na sequência do desaparecimento sem herdeiros de D. Sebastião (1578) e do cardeal-rei D. Henrique (1580), passando a coroa para Filipe II de Espanha, neto de D. Manuel I. Este período recebe o nome dos três monarcas espanhóis.

O historiador descreve o Canal como “uma obra de engenharia rara, que não só documenta bem o engenho do seu autor (Juan Baptista Antonelli)”, ou do seu já indicado promotor (Filipe I de Portugal), “mas também um tempo novo – o início da ‘união ibérica’ e da ‘monarquia dualista’”.

Portanto, o Tejo “passava a ter uma importância fulcral para a navegação peninsular e este troço do rio era um obstáculo difícil de tornear, pelo que o Canal representou para o tempo uma solução hábil do domínio da técnica sobre a natureza”, explica Candeias da Silva. Ora esta construção existe junto à margem do Tejo, em Mouriscas, desde 1581, à vista de toda a gente que por ali calha em passar.

Canal de Alfanzira, em Mouriscas (Abrantes). Créditos: Joaquim Candeias da Silva

Contudo, a perda de importância do rio como via de comunicação, sobretudo depois da chegada do caminho-de-ferro e do transporte rodoviário – a camionagem acabou por destruir completamente os transportes fluviais ao longo do Tejo -, a obra filipina “encontrava-se praticamente perdida, e até o topónimo fora já de todo esquecido”.

“No caso específico de Alfanzira, a memória do local e do que ali acontecera tinha-se praticamente evaporado da memória coletiva na segunda metade do século XIX, desaparecendo de todo no século XX, inclusive entre os moradores mais próximos”, assegura o historiador.

Então, como é que Joaquim Candeias da Silva chegou à construção? “A partir de uma análise mais minuciosa das referências documentais”, concluiu que “a obra e o microtopónimo se deveriam localizar em território abrantino, algures numa zona ribeirinha entre Alvega/Concavada e Mouriscas, mais precisamente entre a foz do Rio Frio e a estação Caminho de Ferro de Mouriscas, na margem direita do Tejo. E, a termos em conta tanto o esforço humano então requisitado como as avultadas somas investidas, dificilmente o tempo e a natureza poderiam tudo apagar. Alguma coisa teria de subsistir…”.

Não se enganou! E até defende tratar-se de “um património edificado raro e muito interessante”, que “importa conhecer melhor, divulgar e valorizar”. Por isso, “visando a sua valorização e salvaguarda”, recorda ter apresentado na sessão da Assembleia Municipal de Abrantes de 30 de junho de 2000 uma proposta de classificação do imóvel, eventualmente de “interesse público”.

Mapa / Carta Militar 1:25 000, identificando o sítio de Canal de Alfanzira

O historiador recorreu à Carta Militar de Portugal, na escala 1/25.000 (Folha n.º 322, ano de 1946), dos Serviços Cartográficos do Exército, e confirmou o sítio. “Lá vinha esboçada a configuração de um acidente não natural, um traçado em jeito de canal. E, deslocando-me propositadamente ao local, com vista ao seu reconhecimento no terreno, de imediato obtive a esperada confirmação”, contou.

Posteriormente descobriu que “o Canal já tinha sido objeto de referência em mapas e memórias oitocentistas, tendo o local e topónimo Alfanzira origens muito anteriores ao século XVI”.

O historiador refere que “em 1581, a 1 de abril dos seus paços de Tomar, instalados no Convento de Cristo, fez o novo rei publicar um primeiro despacho incumbindo Antonelli de reconhecer todo o curso do Tejo a montante de Abrantes, até à velha Alcântara, com vista a melhorar a navegabilidade do mesmo. De imediato o dedicado e competente engenheiro napolitano se pôs a caminho. Apoiado na experiência de três excelentes barqueiros abrantinos, partiu do porto do Tejo rumo à dita povoação fronteiriça e, de tal modo se desempenhou da missão, que mês e meio depois já estava de regresso a Tomar, com um exaustivo relatório – Relacion de la navegación del Tajo desde Abrantes hasta Alcántara – que parece ter deixado o rei muito agradado”.

Em tão longo percurso, os problemas a resolver eram sérios, mas o mais complexo de todos era precisamente aquele “passo” (ou passagem) ao largo de Alfanzira, devido ao acidentado do local, o tal cachão ou “rápido” que a corrente ali fazia (e ainda faz).

Zona do ‘Cachão’ no rio Tejo e resquícios de uma antiga azenha, em Mouriscas. Créditos: Respira Natureza (blog)

Não obstante a problemática, Antonelli conseguiria encontrar solução, “projetando e fazendo construir num primeiro plano a montante um grande açude, a abrir na margem direita para um canal (com 800 pés de comprimento e 30 de largura), o qual num segundo plano conduzia as embarcações a salvo do cachão, contornando-o desse modo habilmente”.

Segundo Candeias da Silva “as operações naquele ‘passo’ começaram pouco depois e duraram mais de um ano, empregando muita mão-de-obra especializada, muitos meios materiais e consumindo vultosas somas de dinheiro: mais de mil ducados, ou seja, quase metade do orçamento inicialmente previsto para todo o troço do rio (24 léguas)”.

Juan Baptista Antonelli ia dando conta ao rei Filipe do andamento das obras. “Por vezes deixava escapar alguns lamentos: os caminhos de sirga, em Portugal, ficavam mais caros do que o previsto – um terço mais que em Castela… Porquê? – Os cabouqueiros portugueses trabalhavam pouco… ‘por la flogedad natural de esta gente, que es irremediable’; e se não trouxera equipas de Castela, que já tinham terminado as suas partes, teriam ficado as obras portuguesas por fazer… Pelo que pedia compreensão e dilação ao soberano, e… mais dinheiro. O rei Filipe I, senhor de uma capacidade de trabalho invulgar, não mandava ler, lia ele próprio todos os relatórios, na íntegra. E a prova é que ia deixando frequentemente alguns sublinhados e observações à margem, que eram verdadeiros despachos para os seus secretários”, explica.

Joaquim Candeias da Silva em 1996, aquando da investigação sobre o canal de Alfanzira.

No caso específico das obras de Alfanzira, “sabemos que foi particularmente difícil a tarefa dos pedreiros em romper aqueles rochedos, os quais – segundo o engenheiro afirmava, e nós podemos ainda constatar no terreno – eram ‘en peña viva, tan dura, que si no es con fuego, no hay como romper ni sacarla’; e pedreiros / cabouqueiros eram então oficiais raros por aquelas bandas.

Por outro lado, eram necessárias ferramentas adequadas, que era preciso encomendar aos ferreiros da região. Interessante é que ele previa também o florescimento nas redondezas de algumas estruturas de apoio à navegação, tais como ‘vendas’ e armazéns para apoio aos navegantes, instalação de mais azenhas, e até ermidas para as devoções.

E, apesar da complexidade do projeto, no final o técnico dava-se por satisfeito e aconselhava mesmo o soberano a prosseguir a mesma política noutros rios, pois o que fizera era ‘la más notable y singular obra que haya hecho jamás Principe en el mundo’…”, acrescenta o historiador.

Ermida da Senhora da Guia nos Trilhos da Grande Rota 12 em Alvega. Créditos: mediotejo.net

Relacionada com este Canal filipino, estará provavelmente, segundo Candeias da Silva, a ermida de Nossa Senhora da Guia, em Alvega, que lhe fica quase defronte num terraço da margem Sul do Tejo “com excelente posição e visibilidade. Esta, de acordo com uma lápide existente numa das paredes exteriores, à entrada, foi mandada edificar em 1626, por Lourenço Godinho e sua mulher Isabel Freire, em propriedade sua e provavelmente para cabeça de um morgadio que constituiriam com as suas fazendas”.

“Mas o culto parece ser bem mais antigo, prendendo-se com a devoção secular de barqueiros, pescadores e calafates, especialmente dos primeiros, que faziam o transporte de mercadorias entre Lisboa e Alvega. Daí que os populares se habituassem a invocar a Senhora, mormente em tempo de cheias, tempestades e nas suas viagens inseguras, pois acreditavam que Ela os guiava nos momentos difíceis. A imagem da Senhora é ainda hoje de grande veneração popular, com romaria na segunda-feira de Páscoa”, disse o historiador aquando das III Jornadas de Arqueologia do Vale do Tejo, em Vila Velha de Rodão, em 2016, enquanto palestrante sobre o Canal filipino de Alfanzira.

Juan Bautista Antonelli viria a falecer pouco tempo depois da obra, em Toledo, a 15 de março de 1588. E, com o seu desaparecimento, os projetos de incremento da navegação do Tejo sofreram “um rude golpe. Mas não claudicaram logo, pois continuaram noutras partes. Terminariam sim, depois de 1640, com o fim da ‘União Ibérica’ e a Restauração” da Independência, razão do nosso feriado a 1 de dezembro.

Atualmente acede-se facilmente ao Canal tanto por via férrea (na Estação – apeadeiro – de Mouriscas), como por via rodoviária, embora por estradas de terra batida. O conjunto poderá observar-se da ponte sobre o Tejo (entre Alvega e Mouriscas), mas com alguma dificuldade devido à linha ferroviária de ligação à Central Termoelétrica do Pego, a qual serviu para transportar o carvão até ao seu encerramento, em 2021.

O historiador Joaquim Candeias Silva, em Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Sintetizando, o historiador diz que “o conjunto patrimonial se compõe do Canal propriamente dito (o qual também podia servir de cais de acostagem), em pedra xistosa argamassada, com seu açude de proteção a montante (já bastante derrubado), e de alguns moinhos (também em adiantada e irreversível ruína), que aproveitavam a corrente do rio. Um deles só há pouco tempo foi desativado (meados da década de sessenta); e, apesar da incúria ou desinteresse humano e de todo o mais desgaste por ação dos agentes naturais, ainda mantém quase intactas algumas estruturas, incluindo as mós”.

Quanto à obra filipina, refere que “apesar do assoreamento e derrube nalgumas partes, se encontra globalmente bastante bem conservada, o que a vai tornando numa verdadeira raridade arquitetónica – conforme fica dito, desconheço qualquer outra no género. Mas, seria bom que ali se efetuasse uma operação de salvaguarda e proteção, já que a tendência será para a sua erosão e lenta mas progressiva e fatal destruição. É urgente, por exemplo, uma desmatação que impeça o crescimento da densa vegetação arbórea que ameaça destruir aqueles muros”, nota.

Na proposta que Joaquim Candeias da Silva apresentou na referida sessão da Assembleia Municipal de Abrantes, no ano 2000, portanto há 23 anos, constava a preservação integrada, para uma mais fácil classificação do imóvel, visando a sua valorização e salvaguarda.

Isto porque, defende, um trabalho de “todos nunca serão demais. Pois o Tejo, que já foi uma autoestrada ambulante de e para o mar, hoje não passa de um fluxo líquido (pelo menos no Tejo Médio), cada vez menos fluído e de líquido menos puro. Mas no tocante à História… ele é uma torrente de histórias, para o oceano, para o mundo, sem fundo e sem fim. Ele é, ou pretende ser, património da Humanidade. Como diria Newton, o que sabemos dele é ‘uma gota de água’; o que falta saber é… um rio de memórias”.

Recorda que a proposta foi enviada pela Câmara ao IGESPAR (atual DGPC). Nela se previa, por exemplo, “a inventariação do património de arqueologia industrial da área (moinhos / azenhas, fornos de cal, lagares), ou de outra arqueologia funcional, como açudes, caneiros, pontes, cais e pesqueiras, caminhos de sirga” sem esquecer a existência, quase defronte do local, da ermida dedicada a Nossa Senhora da Guia.

“Nada surtiu efeito até agora, ao que parece. Mas aqui fica a ideia de lembrança, uma vez mais”, conclui.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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1 Comment

  1. Já conhecia a história.
    Na ponte consegue-se ver o sítio mas com a vegetação não consegui ver o muro de sirga.
    Porque não um trilho a passar por lá obrigando a fazer a desmatação? Eu gostava de passar por lá.

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