Concluída a intervenção no açude insuflável de Abrantes para reparação de uma rutura, uma intervenção que ascendeu a um investimento de 400 mil euros, a Câmara Municipal pensa agora em investimentos ao nível da escada passa peixe, num equipamento que pode vir a ter em breve uma mini hídrica acoplada.
“O açude felizmente hoje está insuflado, como já todos perceberam o rio voltou a ter aquele espelho de água que nos é já característico e que todos nós já conhecemos muito bem. Foi uma intervenção complexa, do ponto de vista financeiro também robusta, agora o mais importante é dar toda a vida e toda a dinâmica necessária a este espelho de água para que ele tenha projeção e tenha verdadeiramente a função que deve ter na nossa comunidade. O rio tem um comportamento completamente diferente com o açude insuflado”, disse o presidente da Câmara, à margem da reunião de executivo, dando conta da importância do açude e do espelho de água por ele criado, com cerca de 80 hectares.
“Este foi um grande investimento há uns anos atrás, da requalificação das margens, e esta requalificação também só faz sentido com a criação deste grande espelho de água, e chegámos ao fim desta intervenção. Existem alguns apontamentos cirúrgicos de consolidação desta empreitada da recuperação do açude insuflável e estamos neste momento, digamos, com a obra praticamente findada. Aproveitámos obviamente esta intervenção para fazer algumas correções em mais do que só especificamente na zona que estava danificada e de acordo com aquilo que eram as anomalias detetadas no açude”, disse Manuel Jorge Valamatos, avançando com informação sobre a futura míni hídrica, investimento na escada passa peixe e com a ideia de possibilitar aos agricultores algum aproveitamento da água tendo em conta o período de seca e as necessidades do setor.
“Há possibilidade e faz todo o sentido porque no momento em que atravessámos ou se reforçou esta ideia da escassez de água e desta situação de seca, leva-nos a repensar um conjunto de mecanismos e eu julgo que temos de saber aproveitar tudo aquilo que temos à nossa volta para mitigar e minimizar os efeitos da seca e as questões que se relacionam com a água. Obviamente que estaremos disponíveis e, mais do que isso, seremos nós próprios a incentivar essas reuniões e a procurar mecanismos que possam valorizar a otimização destes recursos, e como é evidente temos aqui uma bacia extraordinária que deve ser valorizada e aproveitada também quer para a rega, para a agricultura, quer para outros fins, procurando o aproveitamento máximo deste recurso”.

ÁUDIO | MANUEL JORGE VALAMATOS, PRESIDENTE CM ABRANTES:
Questionado sobre o processo de criação de uma mini-hídrica acoplada ao açude insuflável, Manuel Jorge Valamatos disse que “esse processo continua, e cada vez mais. Aliás, pelos acontecimentos recentes das questões que dizem respeito aos processos de produção de energia, cada vez mais faz sentido aproveitar obviamente este recurso e instalar uma mini-hídrica. É um processo que estamos a acompanhar com o Ministério do Ambiente e procuraremos as melhores estratégias para conseguir aproveitar aquilo que são os nossos recursos e as nossas condições e estamos e vamos continuar a fazer reuniões com o Ministério do Ambiente, tendo em vista ali a colocação de uma mini-hídrica”, afirmou.
O autarca falou ainda da sua visão para a escada passa peixe, estrutura que integra o açude insuflável, e que tem merecido pontualmente a preocupação de movimentos ambientalistas.
“Como sabem nós fizemos a primeira parte de um estudo que no fundo observava e analisava o comportamento das espécies piscícolas na transição da escada passa peixe. Há uma primeira fase desse estudo, nós por via depois do açude insuflável ter ficado danificado, não conseguimos concluir esse estudo que estamos a fazer com as faculdades e com professores universitários que trabalham nestes domínios. Queremos brevemente concluir esse estudo e que esse estudo possa apontar medidas que resolvam ou que pelo menos possam minimizar aquilo que são os défices e as dificuldades da subida dos peixes na escada passa peixe. E queremos obviamente, eventualmente em função desses resultados, conseguir ter propostas concretas para podermos apresentar também a fundos comunitários para resolver essas questões”, afirmou, relativamente a um investimento que poderá ser conjugado com a eventual instalação de uma mini-hídrica no açude.
“Claro que sim. Uma das razões porque, de alguma forma, houve aqui algum atraso relativamente a decisões concretas para minimizar essas matérias, teve precisamente a ver com essas questões. A instalação ali de uma mini-hídrica obriga estruturalmente a algumas alterações e essas alterações têm que acoplar, têm que integrar seguramente outra estratégia também que, como é feito noutros açudes no nosso país, estratégias de infraestruturas que possam valorizar o ambiente e a relação que os peixes têm com a parte a montante e a jusante do açude”, notou, tendo lembrado o papel didático que o equipamento pode proporcionar.
“Nós temos um exemplo no país, concretamente em Coimbra, onde isso acontece, numa passagem passa peixe, e gostaríamos, obviamente, de poder ter esse apontamento aqui, porque além de poder resolver algumas questões que dizem respeito à transponibilidade do açude pelos peixes, que os possamos monitorizar e até que possam servir didaticamente para a observação e obviamente estaremos atentos a todos esses processos”, concluiu.

O açude insuflável de Abrantes, no rio Tejo, apresentava uma rutura no vão 2 de 70 centímetros, um rasgo que obrigou o açude instalado no rio Tejo a estar desinsuflado durante vários meses. Os trabalhos de reparação começaram em dezembro de 2021 e estão agora concluídos, tendo representado um investimento na ordem dos 400 mil euros, dos quais 150 mil euros para a colocação de uma ensecadeira e 250 mil euros para a reparação da comporta do vão 2 do açude.

O maior açude insuflável do país foi inaugurado em Abrantes no dia 16 de junho de 2007 numa cerimónia que contou com a presença do primeiro-ministro de então, José Sócrates, e que constituiu um dos momentos principais de valorização das margens do Tejo.
Este açude permitiu criar um espelho de água com 80 hectares e cerca de três milhões de metros cúbicos de água e correspondeu a um investimento de dez milhões de euros, constituindo uma obra única em Portugal.
O enchimento do açude demora cerca de 45 minutos e o sistema de comportas tem uma zona de passagem permanente de metros cúbicos por segundo de água para garantir um caudal ecológico no rio, foi noticiado na altura da inauguração.
