Antigo terreno da RPP Solar, junto à EN 118, foi adquirido em hasta pública. No local, um placard anunciava um investimento na área da canábis medicinal. Créditos: mediotejo.net

A Câmara de Abrantes aprovou o reconhecimento da empresa GR+CW SA, com sede em Concavada, como entidade beneficiária para a concessão de apoios de natureza fiscal e tributária, no valor de 1.7 milhões de euros. A empresa, que vai trabalhar na área da cannabis e prevê criar 200 postos de trabalho, investiu 3.7 milhões de euros na aquisição de terrenos para desenvolver a sua atividade.

Em reunião de executivo, foi aprovado por unanimidade o reconhecimento da empresa GR+CW SA, como entidade beneficiária e a concessão de apoios de natureza fiscal e tributária, no valor de 1,7 milhões de euros, caso cumpra todas os objetivos previstos em termos de investimento e criação de emprego.

No entanto, um ponto “técnico-administrativo” esteve mais de meia hora em discussão. O vereador do PSD lembrou que o atual projeto “pretende ocupar o espaço da RPP Solar de má memória” levantando dúvidas sobre ao apoio de 1.7 milhões de euros que o Município dará à GR+CW SA, empresa com um capital social de 52.903,00 euros, com sede localizada em Concavada.

“Aqui prevê-se a criação de 200 postos de trabalho, veja-se a importância. Numa Câmara Municipal com um orçamento de cerca de 40 milhões de euros deixará de entrar nos cofres da Câmara 1.7 milhões, o que é uma fatia significativa”, considerou o vereador social-democrata, Vitor Moura, sublinhando que “neste momento é preciso que essa má memória” referindo-se à RPP Solar, “seja bem lembrada (…) uma vez que já lá sepultámos um milhão de euros”, afirmando envolver este investimento “risco”.

“Não acusem o PSD de contradição nas cautelas e caldos de galinha”, referiu.

ÁUDIO | VITOR MOURA, VEREADOR PSD CM ABRANTES:

No inicio de outubro de 2021, o presidente da Câmara de Abrantes anunciou que o terreno e instalações da RPP Solar, entidade que tinha como objetivo criar um complexo industrial para construção de painéis fotovoltaicos, na freguesia de Concavada (EN 118), foi comprado em hasta pública por um promotor que pretende ali desenvolver um projeto “relevante para a região”.

O projeto prende-se com um investimento na área da canábis medicinal. Um placard colocado nos antigos terrenos da RPP Solar publicitava a “Grow Medical Cannabis”, uma empresa do Reino Unido com o slogan “Inspired by nature, perfected by science” (em português, inspirado pela natureza, aperfeiçoado pela ciência), aludindo à “maior fábrica com boas práticas de fabricação da União Europeia no mundo”.

Ora, aliada à marca ‘Grow’ a GR+CW Sociedade Anónima, que comprou o terreno por cerca de 3.7 milhões de euros, constituiu-se para esta atividade em Abrantes o “comércio de produtos farmacêuticos e componentes naturais para a industria farmacêutica a partir de plantas naturais, bem como o fabrico, produção e comércio de produtos farmacêuticos de base e de substâncias ativas farmacêuticas que, pelas suas propriedades farmacológicas, são utilizadas no fabrico de medicamentos”.

A empresa GR+CW tem dois anos, tendo sido constituída em 25 de outubro de 2019. Desenvolve, portanto, a sua atividade principal no âmbito de especiarias, plantas aromáticas, medicinais e farmacêuticas, tendo sido conhecida no passado como Dynastypassion Lda. e pretende criar 200 postos de trabalho em Abrantes.

Em novembro de 2021, o jornal mediotejo.net contactou a Grow em Inglaterra que encaminhou a resposta às nossas questões para a Grow Portugal, com sede em Mértola, empresa da qual nunca obtivemos resposta.

No dia 23 de fevereiro, perante as dúvidas de Vitor Moura, o presidente da Câmara explicou que o executivo aprova “um processo técnico-administrativo de acordo com os nossos regulamentos e é previsional, sobre os lucros, tem a ver com derrama”.

Ou seja, “só vai acontecer se estiverem a trabalhar”, disse Manuel Jorge Valamatos (PS) garantindo que, no futuro, o projeto será levado a reunião de Câmara. “Eu não anuncio nada antes de estar concretizado”, vincou.

ÁUDIO | MANUEL JORGE VALAMATOS, PRESIDENTE CM ABRANTES:

No entanto, Vitor Moura insistiu na existência de “questões que comprometem a Câmara” referindo-se designadamente ao IMT e custos previstos nos projeto para encargos urbanísticos e taxas administrativas, “também benefício da Câmara”, apontou.

ÁUDIO | VITOR MOURA, VEREADOR PSD CM ABRANTES:

Por seu lado, o vice-presidente João Gomes explicou tratar-se de um contrato assinado por duas entidades, sendo que a Câmara só apoiará a empresa “com o real funcionamento da entidade”, salientou dando conta de compromissos que “se não forem uma realidade” a empresa “tem de devolver o dinheiro”, tendo assegurado ainda que tal encontra-se estabelecido no contrato.

ÁUDIO | JOÃO GOMES, VICE-PRESIDENTE CM ABRANTES:

Já o vereador eleito pelo movimento ALTERNATIVAcom, Vasco Damas, considerou que “o Município aprendeu com os erros do passado e neste momento não está a comprar castelos no ar. Salvaguardou os seus interesses. Aquilo que estamos a aprovar em termos de benefício terá um retorno muito maior para o nosso concelho”, afirmou, dizendo, no entanto, compreender a intervenção do vereador do PSD, no sentido de “esclarecer a opinião pública”.

ÁUDIO | VASCO DAMAS, VEREADOR ALTERNATIVAcom CM ABRANTES:

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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