O bombeiro Valter Lopes, da corporação de Abrantes, viu a sua vida virada do avesso com acusações de assédio sexual que levaram ao seu despedimento em processo que o Ministério Público acabou por arquivar por falta de fundamentos. A própria direção da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Abrantes “reconhece agora que não foi praticada nenhuma infração disciplinar pelo trabalhador, quanto aos factos constantes na referida queixa”. Um ano depois, como fica a vida deste homem, que perdeu a profissão que era a “paixão de uma vida”?

As denúncias de assédio sexual ocorreram em fevereiro de 2016, em caso que seguiu para averiguações no Ministério Público. O caso acabou por ser arquivado pelo MP pela falta de provas para a ocorrência do crime de que era acusado. Ao mesmo tempo, a direção da AHBVA (Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Abrantes) decidiu abrir um processo de inquérito interno, que viria a resultar em despedimento por justa causa. Valter Lopes não aceitou os motivos para o despedimento e recorreu para o Tribunal de Trabalho. O acordo para a indemnização foi alcançado entre as partes mas Valter perdeu o lugar de bombeiro em Abrantes. Hoje trabalha numa empresa da região mas as feridas causadas pela mágoa e pelo sofrimento que o processo causou a si e à sua família estão longe de sarar.

Valter Lopes, no exercício das funções de bombeiro

“Este processo de que fui acusado injustamente causou sérios problemas a mim e à minha família, e acabei julgado pela sociedade e pelos meus camaradas, muitos dos quais me viraram a cara num momento tão difícil. Acabei por ser despedido de bombeiro, que para mim era mais uma paixão do que uma profissão, sendo que agora, afinal, não sou culpado de nada. E as lágrimas, o sofrimento, a dor? E lembrar que foi o meu filho quem viu a notícia pela primeira vez no jornal da cidade e começou a chorar compulsivamente?”, contou ao mediotejo.net um Valter Lopes amargurado, triste, sem conseguir segurar as lágrimas ao recordar os contornos de todo este processo. (ver vídeo)

“Foi um choque para o meu filho, então com 13 anos, para mim, e para a minha mulher, na altura grávida de gémeos. Este processo destruiu a minha vida, tive momentos de autêntico desespero e só os meus filhos me agarraram a esta vida, sem esquecer o apoio que tive dos meus sogros e dos meus pais. A grande maioria dos meus amigos afastaram-se e os meus camaradas de profissão também me viraram a cara, salvo algumas exceções. Hoje ilibaram-me das acusações mas o mal já está feito. Este sofrimento e esta desconfiança já ninguém apaga”, relata, tendo revelado que o mínimo que pode fazer é agir em termos legais relativamente às pessoas que denegriram a sua imagem e com quem compactuou com este processo de acusação.

Contactado pelo mediotejo.net, o presidente da direção da AHBVA, João Furtado, lembrou que “a acusação era muito grave” e “congratulou-se” com o facto de “não se confirmarem os factos que constavam da acusação da bombeira”. Aquele responsável disse ainda que Valter Lopes “já não está nos bombeiros” tendo confirmado um “acordo financeiro” para o não regresso à corporação. No âmbito desse acordo, aliás, a AHBVA publicou na sua página na internet a notícia do arquivamento do processo e o reconhecimento público que não foi praticada nenhuma infração disciplinar pelo trabalhador:

“A Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Abrantes e o bombeiro Valter Lopes chegaram a acordo no âmbito do processo que correu termos no Tribunal de Trabalho de Tomar, no processo nº (…) porquanto e face ao arquivamento por parte do Ministério Público da queixa que tinha sido apresentada por Ana Barrento, a AHBVA reconhece agora que não foi praticada nenhuma infração disciplinar pelo trabalhador Valter Lopes, quanto aos factos constantes na referida queixa”, pode ler-se na mensagem publicada pela AHBVA.

A AHBVA mandou instaurar um processo disciplinar ao bombeiro Valter que resultou numa ação de despedimento, “por ter colocado o nome da entidade patronal numa situação de exposição pública, que atenta diretamente contra os fins e honra da AHBVA”. No processo, instruído pelo advogado André Grácio em março de 2016 por despacho da AHBVA, pode ainda ler-se que Valter Lopes “criou junto dos seus camaradas bombeiros, superiores hierárquicos e população uma suspeição quanto à sua pessoa, o que impede a manutenção do seu vínculo laboral, face à natureza do serviço que presta, pelo que proponho [o advogado] que lhe seja aplicada a pena única de despedimento”.

A sua reintegração no quadro ativo “prejudicaria gravemente o bom funcionamento do quartel de bombeiros”, pode ainda ler-se na decisão que sustenta a ação de despedimento, tendo feito notar que “foi lançada uma forte suspeita que o arguido é um agressor sexual”, que “a atividade sexual no interior do quartel não pode ser tolerada e é um ilícito muito grave”,e que a AHBVA “é uma associação humanitária que se rege por princípios nobres e tem uma postura honrada”.

Valter contestou os motivos do despedimento, que considerou ilícito, e recorreu para o Tribunal de Trabalho. Ali, chegou-se a este acordo, em março deste ano, no valor de “alguns milhares de euros”, que não quantificou, e o “direito a pedir transferência para outra corporação com obrigação de aprovação da AHBVA em 10 dias”.

“Não achei nada justo o que me fizeram, mas gostava de voltar a ser bombeiro, quando estiver bem psicologicamente”, finalizou Valter , preparando o arranque para uma nova etapa da sua vida. Que vai ter de reconstruir, todos os dias.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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3 Comments

  1. Porque é que não escarrapacham na noticia o nome da senhora que o acusou falsamente ?

    1. O nome da Bombeira também está na notícia, se ler com atenção.
      Só não entendo é a atuação das Chefias e Colegas, a apontarem o dedo e manterem o despedimento por terem uma imagem a defender. Mas não ficarem com receio, que no futuro a Bombeira Ana Barrento, não faça o mesmo com um qualquer outro colega. Continua ao serviço nesta Corporação? Os Colegas não têm receio de estar de serviço com ela?…

  2. e porq não despediram a mentirosa, que certamenta queria festa e o dito cujo recusou, assim avançou com a mentira que foi ace ite pelos alcapones

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