A iniciativa está inserida nas comemorações do 30.º aniversário da Biblioteca Municipal, e as atividades propostas têm decorrido em torno do poeta António Botto, natural de Concavada, freguesia do concelho de Abrantes. A sessão de sexta-feira decorreu em mesa-redonda, e reuniu cerca de duas dezenas de pessoas, sendo marcada pelo debate em torno do percurso dos dois poetas.
António Botto (1897-1959) foi “segregado pela sociedade respeitável dos anos 1920”, uma situação que perdurou até à sua morte, por atropelamento, no Rio de Janeiro. Em causa estava, em particular, a homossexualidade do escritor, nascido em Concavada (Abrantes) e um comportamento que não seguia a “compostura e aprumo” exigidos pelos padrões da época, e que permaneceram ao longo da ditadura.
Poeta, dramaturgo e escritor epistolar, António Boto nasceu no dia 17 de agosto de 1897, em Concavada, no concelho de Abrantes, e dá nome à Biblioteca Municipal desde 1993, 30 anos que agora se assinalam.
Hugo Martins foi o primeiro a usar da palavra, e começou por explicar aos presentes alguns detalhes da vida pessoal de António Botto, nomeadamente a sua data de nascimento, a “única resposta definitiva” da sua investigação, comprovada através de uma certidão obtida do espólio do autor.
“À medida que nós vamos avançando no tempo e o Botto deixa de ser menino, as dúvidas adensam-se e aquilo que diz a respeito da sua adolescência é bastante díspar”, indicou o palestrante.
Hugo Martins aprofundou o tema da sua dissertação (“Pessoa à lupa de Botto: de biógrafo-intérprete entusiasta a crítico demolidor proposta de análise e edição de textos bottianos sobre o poeta dos heterónimos”), com destaque para a ‘relação’ entre Botto, Fernando Pessoa e os seus heterónimos.
Relativamente a Fernando Pessoa, que, por um lado, é visto como “uma pessoa complicada”, e “que não estava com ninguém”, por outro lado manifestava-se como um poeta “livre” quando estava na presença de António Botto. Segundo a perspetiva de Hugo Martins, António Botto defende que os “heterónimos ou pseudónimos” de Pessoa não são mais “que uma estratégia [de Pessoa] para esconder algumas fraquezas e características menos boas” do poeta.


“O aspeto mais interessante da minha dissertação foi a editar todos os textos de Botto inéditos, tematicamente inspirados na vida e obra de Fernando Pessoa”, referiu. Na sua intervenção, Hugo falou ainda do casamento de António Botto com Carminda Rodrigues, que o acompanhou na fase final da sua vida, quando adoeceu.
De seguida, foi a vez de Pedro Sepúlveda, investigador da NOVA FSCH, usar da palavra. O palestrante, que foi professor de Hugo Martins e o acompanhou ao longo do seu percurso académico, falou da “relação de proximidade” entre os dois poetas. Fenando Pessoa, foi “defensor e comentador assíduo” na obra de António Botto tendo o investigador dado conta de Pessoa ter tido um papel “decisivo” na receção da obra do poeta abrantino.
Na sessão foi ainda abordado o tema da homossexualidade de António Botto, que foi o primeiro poeta português a escrever “poesia homoerótica”, o que foi visto como um ‘escândalo social’ em pleno século XX.
No final da iniciativa, o mediotejo.net falou com Hugo Martins, que nos explicou as razões da escolha dos dois poetas para tema da sua dissertação. “Numa das cadeiras, de Crítica Textual, percebi que Botto tinha uma veia interventiva muito robusta”, referiu. Decidiu por isso começar uma investigação que se mostrou “um universo perigoso, mas bastante desafiante”.
Hugo Martins é licenciado em História, e fez o Mestrado em Edição de Texto na NOVA FSCH, em que obteve a nota máxima na dissertação sobre “Pessoa à lupa de Botto: de biógrafo-intérprete entusiasta a crítico demolidor proposta de análise e edição de textos bottianos sobre o poeta dos heterónimos”.
António Botto, o menino que correu “descalço e alegre” pelas ruas da “terra de província, com arvoredos, piquenas casas, e uma fonte” – como se refere aos tempos de infância na localidade abrantina em “Cartas que me foram devolvidas” (1932) – cedo passou a pisar o chão do bairro de Alfama e foi pela capital que cresceu com os dois irmãos, a mãe doméstica e o pai marítimo, conhecedor profundo do Tejo e que garantia o sustento da família.
Muitas vezes terá a mãe dito: “António Tomás, porque não vais para padre?” A desistência dos pedidos contínuos, aos quais nunca cedeu, é dada na primeira pessoa: “Alguém lhe disse uma noite: seu filho é bonito de mais para ser padre.”
Não ficou conhecido por ser bonito, mas pela figura esguia, o encontro com figuras de relevo enquanto trabalhava como livreiro em Lisboa e a coletânea de poemas “Canções”, revista e aumentada entre 1921 e 1932, que Fernando Pessoa (ortónimo) aclamou e Álvaro de Campos censurou.
Quando o heterónimo andava por longe, os dois caminhavam juntos para o famoso “Martinho da Arcada”, ponto de encontro de intelectuais na Praça do Comércio (Lisboa). Os cafés e as bebidas acompanhavam a discussão certa sobre a ousadia das palavras do poeta da Concavada cujas “Canções” representaram uma mudança na mentalidade portuguesa ao abordar explicitamente a homossexualidade que o poeta da “Tabacaria” viria a traduzir para o inglês.

As noites boémias trouxeram-lhe a sífilis que debilitaram o corpo, mas não a avidez das palavras do homem para quem: “Deram-se as bocas num beijo, / – Um beijo nervoso e lento… / O homem cede ao desejo / Como a nuvem cede ao vento. / Vinha longe a madrugada. / Por fim, / Largando esse corpo / Que adormecera cansado /E que eu beijara loucamente / Sem sentir, / Bebia vinho, perdidamente, / Bebia vinho… até cair”.
José Régio escreveria em 1959, ano da morte do poeta, que António Botto conquistara a imortalidade através do seu legado literário. Entre ele encontrou as palavras arrojadas que lhe geraram “o choque profundo, a surpresa ao mesmo tempo grata e como receosa, da mais autêntica originalidade: a que se não arremeda, nem conquista, a que mesmo involuntariamente se denuncia, pois é fatal, vital, e porventura nem bem consciente de si”.
António Botto respondeu-lhe, sem saber, 37 anos antes: “No amor, / – Apenas, é mentira no futuro / Aquilo / Que nos parece uma verdade presente. / O amor não mente, nunca! / Exagera simplesmente”. Não mentiu e uma vez assumida a orientação sexual, nem a união de facto com Carminda Rodrigues, nove anos mais velha, não foi suficiente para diminuir a homofobia de que foi alvo toda a vida.

Adoro o Hugo Martins, pessoa que conheço bem. Adoro ouvi-lo falar e o entusiasmo com o faz.
Muitos parabéns e votos de felicidades.