António Botto numa representação habitual pelo funcionário da BMAB Orlando Marchão. Foto: CMA

A Biblioteca de Abrantes recebe este sábado, às 16h00, a performance literária “Botto em palavras – Desabafos de António Botto”, pelo Grupo de Teatro Palha de Abrantes. A iniciativa está inserida nas comemorações do 30.º aniversário da Biblioteca Municipal, e as atividades propostas têm decorrido em torno do poeta António Botto, natural de Concavada, e que empresta o seu nome ao espaço cultural.

Refira-se que as comemorações dos 30 anos da Biblioteca Municipal António Botto arrancaram com a inauguração da exposição “Botto – Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses”, no dia 13 de outubro, uma mostra que pode ser visitada até este sábado, 13 de janeiro, e com um conjunto de atividades culturais e sessões literárias em torno do poeta abrantino.

António Botto (1897-1959) foi “segregado pela sociedade respeitável dos anos 1920”, uma situação que perdurou até à sua morte, por atropelamento, no Rio de Janeiro. Em causa estava, em particular, a homossexualidade do escritor, nascido em Concavada (Abrantes) e um comportamento que não seguia a “compostura e aprumo” exigidos pelos padrões da época, e que permaneceram ao longo da ditadura.

Poeta, dramaturgo e escritor epistolar, António Boto nasceu no dia 17 de agosto de 1897, em Concavada, no concelho de Abrantes, e dá nome à Biblioteca Municipal desde 1993, 30 anos que o município assinala.

Mural de António Botto em Concavada, terra natal do poeta. Foto: mediotejo.net

António Botto, o menino que correu “descalço e alegre” pelas ruas da “terra de província, com arvoredos, piquenas casas, e uma fonte” – como se refere aos tempos de infância na localidade abrantina em “Cartas que me foram devolvidas” (1932) – cedo passou a pisar o chão do bairro de Alfama e foi pela capital que cresceu com os dois irmãos, a mãe doméstica e o pai marítimo, conhecedor profundo do Tejo e que garantia o sustento da família.

Muitas vezes terá a mãe dito: “António Tomás, porque não vais para padre?” A desistência dos pedidos contínuos, aos quais nunca cedeu, é dada na primeira pessoa: “Alguém lhe disse uma noite: seu filho é bonito de mais para ser padre.”

Não ficou conhecido por ser bonito, mas pela figura esguia, o encontro com figuras de relevo enquanto trabalhava como livreiro em Lisboa e a coletânea de poemas “Canções”, revista e aumentada entre 1921 e 1932, que Fernando Pessoa (ortónimo) aclamou e Álvaro de Campos censurou.

Quando o heterónimo andava por longe, os dois caminhavam juntos para o famoso “Martinho da Arcada”, ponto de encontro de intelectuais na Praça do Comércio (Lisboa). Os cafés e as bebidas acompanhavam a discussão certa sobre a ousadia das palavras do poeta da Concavada cujas “Canções” representaram uma mudança na mentalidade portuguesa ao abordar explicitamente a homossexualidade que o poeta da “Tabacaria” viria a traduzir para o inglês.

António Botto, Fernando Pessoa, Raul Leal e Augusto Ferreira Gomes no café “Martinho da Arcada”. Foto: DR

As noites boémias trouxeram-lhe a sífilis que debilitaram o corpo, mas não a avidez das palavras do homem para quem: “Deram-se as bocas num beijo, / – Um beijo nervoso e lento… / O homem cede ao desejo / Como a nuvem cede ao vento. / Vinha longe a madrugada. / Por fim, / Largando esse corpo / Que adormecera cansado /E que eu beijara loucamente / Sem sentir, / Bebia vinho, perdidamente, / Bebia vinho… até cair”.

José Régio escreveria em 1959, ano da morte do poeta, que António Botto conquistara a imortalidade através do seu legado literário. Entre ele encontrou as palavras arrojadas que lhe geraram “o choque profundo, a surpresa ao mesmo tempo grata e como receosa, da mais autêntica originalidade: a que se não arremeda, nem conquista, a que mesmo involuntariamente se denuncia, pois é fatal, vital, e porventura nem bem consciente de si”.

António Botto respondeu-lhe, sem saber, 37 anos antes: “No amor, / – Apenas, é mentira no futuro / Aquilo / Que nos parece uma verdade presente. / O amor não mente, nunca! / Exagera simplesmente”. Não mentiu e uma vez assumida a orientação sexual, nem a união de facto com Carminda Rodrigues, nove anos mais velha, não foi suficiente para diminuir a homofobia de que foi alvo toda a vida.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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