A pandemia de covid-19 levou muitas autarquias a criar linhas de atendimento para apoio psicológico que ajudaram a combater o isolamento social e acompanharam situações de depressão e ansiedade, acabando por vezes por solucionar carências sociais. Em vários concelhos, havendo ou não linhas de atendimento distintas para problemas psicológicos e dificuldades financeiras, foi e continua a ser frequente as primeiras receberem chamadas com pedidos de ajuda para a aquisição de bens ou o pagamento de despesas.
Aliás, conforme sublinhou à Lusa a vereadora da Ação Social de Abrantes, Raquel Olhicas, “muitas vezes as carências sociais levam a fragilidades mentais”. Neste concelho mantém-se ativa a linha telefónica de apoio psicológico e emocional, que diagnostica também diversas situações de debilidade social.
O serviço já atendeu “cerca de 1.500 chamadas” e aumentaram os “processos sociais e pedidos de auxílio económico”, que são encaminhados, “após uma triagem do problema”, para a resposta tecnicamente mais adequada. Foram criados neste âmbito quatro departamentos de apoios sociais, além do de apoio psicológico.
“Os idosos recorreram muito à linha de apoio psicossocial, que se revelou um recurso importante no combate ao isolamento social que a pandemia veio despoletar”, notou a autarca, dando conta de que as linhas de ação, a este nível, passam por “apoiar a população no processo de readaptação” e na “recuperação e reajuste sobre o impacto que a situação pandémica imprimiu em diversas áreas da vida da comunidade”.
Dois anos após o início da pandemia de covid-19, o jornal mediotejo.net colocou algumas questões à vereadora da Ação Social na Câmara de Abrantes, Raquel Olhicas, sobre o trabalho desenvolvido a partir das linhas de apoio ao cidadão.

mediotejo.net – A linha de apoio psicológico continua a funcionar ao dia de hoje? Como se processa este apoio e despiste das chamadas telefónicas?
Raquel Olhicas – Na sequência da situação pandémica, o Município de Abrantes criou uma linha de apoio psicológica e emocional, através da qual são diagnosticadas, também, diversas situações de debilidade social, pois muitas vezes, as carências sociais levam a fragilidades mentais. Este número móvel é atendido por um técnico superior especialista em serviço social, com resposta sete dias por semana e disponível 24 horas/dia, incluindo feriados. É realizada uma triagem da situação (social ou mental) e quando se trata de situação mental é posteriormente realizada uma sinalização para um dos três psicólogos do quadro da Câmara afetos a esta resposta.
Sublinhamos que, quando se justifica, articulamos com as diferentes unidades funcionais do Centro de Saúde de Abrantes (médicos de família e enfermeiras especialistas em Saúde Mental e Psiquiátrica), com a Equipa de Tratamento de Abrantes e com o departamento de Psiquiatria do Centro Hospitalar do Médio Tejo. Quando é feito um diagnóstico de âmbito social é efetuado encaminhamento para a resposta social mais adequada, dentro dos diferentes programas de apoio criados para fazer face à pandemia. Esta linha mantém-se ativa, respondendo às solicitações sempre que necessário. Até ao momento a linha já atendeu cerca de 1500 chamadas.
Quais os casos que predominam, em termos gerais e em concreto na saúde mental, e o que leva as pessoas a procurar ajuda junto da autarquia? Que leitura faz desta iniciativa, da procura e dos resultados a quem precisa de ajuda?
A pandemia COVID 19 veio revelar desafios psicossociais que mereceram a atenção desta autarquia e motivaram a criação desta linha de apoio, como um reforço de outras ações desencadeadas em resposta às necessidades da população. Ao nível da saúde mental, num primeiro momento, os pedidos de ajuda estavam associados sobretudo à vivência de uma situação ainda desconhecida (a pandemia) e as suas implicações futuras. A maioria das pessoas que procuraram este apoio estava a passar por mudanças significativas relativamente aos seus postos de trabalho, e a enfrentar situações de doença na família ou a encarar alterações significativas no seu habitual modo de vida. Mais, a consequente e necessária imposição de medidas de proteção e segurança, conduziram, em paralelo, a um maior distanciamento social e maior isolamento, que teve também impacto significativo no bem-estar psicológico da população, sendo por isso expectável que, na generalidade, as pessoas se revelassem mais ansiosas, com medo, mais preocupadas, ou com sentimentos de tristeza.
Importava por isso agir em dois sentidos. Primeiro, a nível preventivo, com o objetivo de divulgar informação sobre saúde psicológica e ajudar as pessoas a reconhecer sinais de risco, a partilhar estratégias e recursos para lidar com as situações adversas e colaborar no encaminhamento dos pedidos de apoio, em caso de necessidade. Ao mesmo tempo, foi feito um trabalho de diagnóstico e de sensibilização junto das pessoas que beneficiaram de outros apoios sociais criados em resposta à pandemia COVID 19, sendo frequente a sinalização de casos, nos contactos estabelecidos para outros pedidos de apoio e até mesmo nas deslocações para entrega de bens de primeira necessidade. Fazemos, por isso, uma leitura muito positiva desta iniciativa, que considerámos como fundamental criar, para ajudar as pessoas a lidar melhor com a situação pandémica, a gerir as suas emoções mais intensas e auxiliar na procura de respostas para recuperação do equilíbrio psicológico e emocional.
Deduzindo que nem todas as chamadas estejam ligadas a problemas de saúde mental, a linha de apoio serve também para despistar outras necessidades e encaminhar para outros tipos de apoios, nomeadamente económico e/ou social?
Como referido anteriormente, a linha de atendimento não presta apenas apoio psicológico. Realiza também uma triagem do problema apresentado por parte do munícipe, sendo que após essa avaliação encaminha para a resposta que considera tecnicamente mais adequada. De entre os vários apoios é possível destacar os seguintes:
• Estratos Sociais Desfavorecidos: No âmbito do Regulamento de Apoio a Estratos Sociais Desfavorecidos e face à situação pandémica verificou-se um aumento dos processos sociais e dos pedidos de apoio e auxílio económico. Esta resposta social do município que já existia antes da pandemia demonstrou ter um leque abrangente de respostas e auxílios para as famílias, permitindo enquadrar um conjunto de apoios continuados e de carácter mais urgente.
• Fique em Casa e em Segurança: Medida de apoio a munícipes com mais de 65 anos, doentes crónicos ou portadores de deficiência, que possam estar sem apoio ou em situação de isolamento e que não tenham quem os apoie nas compras de primeira necessidade, como alimentos ou medicação. Tem como destinatários pessoas com mais de 65 anos de idade, doentes crónicos e portadores de deficiência (grupos identificados pela Direção Geral de Saúde como especialmente vulneráveis) e pessoas com COVID-19 (mediante análise de risco).
• Alimentos para tod@s: Esta medida pretende dar apoio extraordinário às famílias com crianças em idade escolar ou outras que necessitem de apoio alimentar e não têm possibilidade de fazer face a esta carência. Neste âmbito, é feita entrega de bens alimentares ao domicílio (cabazes alimentares).
• Fundo de Apoio e Emergência Social: Resulta de um acordo de cooperação entre a Câmara Municipal de Abrantes e as Juntas de Freguesia do concelho. Tem como objetivo prestar apoio aos munícipes que se encontrem em situações de grande vulnerabilidade social com necessidade de resposta urgente e inadiável (Alimentos e produtos de higiene de primeira necessidade; Medicação com receita médica ou considerada urgente; Transportes, quando considerado urgente e inadiável; Outras situações pontuais que não possam aguardar decisão de programas e apoios sociais já existentes).
Em termos de futuro, o que pode esta pandemia deixar como preocupação em termos de saúde mental, quem mais afeta, e o que pensa a autarquia fazer em termos de ajuda futura, quando, e se, desativar a linha?
Sabemos que a vivência de situações de crise, se prolongadas no tempo, poderão de facto afetar a saúde psicológica. Ao longo deste período, a vida pessoal e profissional sofreu alterações significativas e impôs a necessidade de nos adaptarmos e encontrarmos diferentes estratégias de gestão e equilíbrio. Ainda que temporariamente, modificou a forma como as pessoas se relacionam, como respondem às tarefas do dia-a-dia, como trabalham (presencial ou teletrabalho) e ocupam o tempo disponível nas atividades de lazer. Também as crianças e jovens sofreram o impacto destas mudanças, principalmente na ligação com a escola, onde destacamos o enorme esforço que a comunidade educativa tem feito para superar os constantes desafios, sendo importante a retoma da normalidade tão breve quanto possível. Impõe-se ainda a preocupação com a população idosa, que exigiu a nossa particular atenção.
Os idosos recorreram muito à linha de apoio psicossocial, que se revelou um recurso importante no combate ao isolamento social que a pandemia veio despoletar. Assim, as linhas orientadoras no futuro passam por apoiar a população no processo de readaptação. A atuação do município ao nível psicossocial irá incidir na recuperação e no reajuste sobre o impacto que a situação pandémica imprimiu em diversas áreas da vida da comunidade.
Exemplos de linhas de apoio estendem-se a nível nacional
No concelho do Barreiro, no distrito de Setúbal, a Linha de Apoio Psicológico (LAP), criada em abril de 2020 e desativada em novembro de 2021, foi procurada por residentes das freguesias do Alto do Seixalinho, Lavradio, Barreiro, Santo António da Charneca e Verderena, a maioria com mais de 70 anos, seguida das faixas etárias dos 40 aos 49 e dos 60 aos 69 anos.
Durante este período, segundo informação disponibilizada pelo município, foram acompanhadas 67 pessoas e realizaram-se 649 sessões de atendimento. Apesar de a linha telefónica já não estar em funcionamento, foi mantido o acompanhamento de casos ativos até à sua resolução, não sendo recebidas novas situações, até porque a procura diminuiu substancialmente.
A autarquia continua, no entanto, a prestar apoio através da Linha de Apoio Social (LAS) e sempre que se verifiquem casos mais complexos são encaminhados para as entidades competentes.
A LAS, criada na altura do primeiro estado de emergência nacional e ainda em funcionamento, visa a resposta a vários tipos de necessidades, como as de natureza alimentar ou de medicação, mas também o encaminhamento para entidades que permitam a resolução definitiva da situação. Já recebeu perto de 2.000 chamadas e a média mensal atual é de cerca de 50, sobretudo com pedidos de ajuda por carência económica.
O município do Seixal (Setúbal) ativou também uma linha de apoio psicológico, em parceria com a associação Voz do Amor, que funcionou de 24 de março a 30 de junho de 2020, tendo atendido 100 pessoas, a maioria mulheres, com idades entre os 11 e os 76 anos.
De acordo com o presidente da associação, João Carvalho, foram apuradas diversas vulnerabilidades e aparentes patologias, sendo as mais predominantes a questão do isolamento social, a ansiedade, o pânico e alguns quadros a configurarem depressão e perturbações de comportamento.
Recorreram à linha pessoas de várias zonas do concelho, assim como residentes em Almada e Barreiro, e foram efetuados diversos encaminhamentos para serviços de saúde e instituições concelhias.
O concelho é também exemplo de como estas valências não couberam apenas a câmaras: a Junta de Freguesia de Corroios criou um projeto de apoio psicológico para ajudar a gerir as emoções face ao impacto de dois anos de pandemia.
Segundo Marta Oliveira, técnica da junta, o serviço começou há pouco tempo de forma presencial nas instalações do Auditório José Queluz, ainda que com um pequeno grupo de pessoas, dados os constrangimentos da pandemia.
A Câmara de Alcobaça, no distrito de Leiria, criou em março de 2020 uma linha telefónica para ajudar a comunidade a lidar com as situações de ansiedade, que, segundo o psicólogo João Mota, “acabou por receber chamadas de todos os pontos do país”.
O fluxo de “mais de 20 chamadas por dia” nos primeiros tempos da pandemia “não permitiu fazer um registo do número de pedidos recebidos” na linha, que “funcionava 24 horas”.
Já na Nazaré (Leiria), onde a linha se manterá em funcionamento até ao final de março, a procura foi bastante menor, sendo estimada pelos serviços de ação social da autarquia em cerca de 30 as chamadas recebidas durante toda a pandemia.
No mesmo distrito, em Peniche, foi criada em março de 2020 uma linha para dar resposta a todos os pedidos de ajuda, que apoiou 224 cidadãos durante o primeiro estado de emergência e 167 entre setembro de 2020 e julho de 2021, segundo o município.
Contudo, apenas seis cidadãos vieram a beneficiar de apoio psicológico: “pessoas idosas com problemáticas de isolamento social que se agravaram com os confinamentos, manifestando-se em sintomatologia depressiva e ansiosa”.
No distrito de Lisboa, em Arruda dos Vinhos, desde o início da pandemia, em que foi criada uma linha telefónica, o Gabinete de Psicologia, com um psicólogo e um psicoterapeuta afetos, atendeu 467 cidadãos, que necessitaram de acompanhamento especializado por apresentarem “quadros depressivos” resultantes do isolamento social, informou o município.
Em Mafra (Lisboa), desde que nasceu, em março de 2020, “A Linha Que Nos Une” contou com 136 atendimentos por técnicos licenciados em Psicologia, tendo sido reportadas “situações de ansiedade derivadas do isolamento” e diagnosticados casos “de perturbação de ansiedade e perturbação depressiva”, que foram encaminhados ora para o Gabinete de Ação Social da autarquia, ora para os cuidados primários de saúde, esclareceu a câmara.
c/LUSA
