(Da esquerda para a direita) José Baeta de 88 anos e Diogo Baeta de 91, na carpintaria que durante anos foi o seu local de trabalho

Nos tempos em que os barcos e os estaleiros navais abundavam no Tejo, José e Diogo Baeta, naturais de Alferrarede, Abrantes, aprenderam duas profissões, na época “bem pagas”, provavelmente, das mais velhas do mundo: calafate e carpinteiro naval. 

Até que, após a Segunda Guerra Mundial, a economia das povoações ribeirinhas, que assentava no transporte fluvial de mercadorias, mereceu grande transformação, sobretudo após a construção de pontes no Tejo, como a Marechal Carmona em Vila Franca de Xira ou a Salazar em Lisboa (atualmente Ponte 25 de Abril), vias facilitadoras do tráfico rodoviário ligando a margem norte à sul.

Com a chegada dos camiões e o declínio do tráfico fluvial chegou o declínio da construção de barcos d’água acima, como varinos, lanchas ou fragatas. Para os irmãos Baeta a carpintaria deixou de ser naval e passou a ser civil. Uma história de vida dura, com memórias de trabalhar descalço no lodo do rio, que ambos contaram ao mediotejo.net.

Os restos (i)mortais de uma lancha no quintal da casa de Diogo Baeta, em Alferrarede, denunciam que os lugares de agora já não são os de outrora… pelos menos aqueles que José Baeta e o irmão guardam na memória quando em 1945 construíram o maior barco d’água acima na Barca do Tramagal, no porto de Caldelas, onde, para além da azáfama do estaleiro naval, era costume as mulheres lavarem a roupa. Um varino preparado para carregar 120 toneladas de mercadorias, mas que na verdade suportava 160.

“Ardeu no meio do Tejo, em Lisboa, carregado de fardos de cortiça” disse José Baeta, de 88 anos, lembrando que aos 15 iniciou na companhia de Diogo, agora com 91 anos, o caminho a pé de Alferrarede Velha até à Barca do Tramagal, atravessando Rio de Moinhos chegando depois ao Casal da Preta.

Naquele lugar “havia uma barraca de madeira que servia de estaleiro ao barco, no inverno comecei a dormir lá sozinho naquele ermo, com camadas de gelo, porque não tinha transporte para ir para casa”, conta José. Mais tarde comprou a sua primeira bicicleta, paga a prestações de 20 escudos por semana.

Fotografia do dia em que os irmãos Baeta colocaram na água o maior barco d’água acima construído na região, capaz de carregar 160 toneladas.

Começava então a viagem de um barco que levou “dois, quase três anos a fazer” e de uma vida de calafate. Diogo mostra-nos uma fotografia no dia em que o varino foi colocado em água, numa época em que o rio Tejo, sem barragens, era completamente navegável desde Malpica do Tejo até ao estuário em Lisboa.

“Naquele tempo de Belver para baixo até Salvaterra, de março a outubro, o Tejo era habitável. Cada praia tinha um contingente de pescadores para pescar com os varinos, pesca de arrasto, era muge, barbo, bogas, sável… havia peixe com fartura”, refere José. Quando o caudal do Tejo estava baixo “faziam-se jangadas para transportar de cortiça a madeira”, recorda Diogo Baeta.

Contudo, já não se lembra, mas José insiste que o barco bojudo, depois de testado no rio, “foi acabado em Constância”, sob os olhos experientes e as mãos minuciosas do mestre Augusto Pires de Oliveira, conhecido como Augusto Pato. Barco construído com madeira de carvalho com cintas em madeira de eucalipto. Foi Diogo ajudar a serrar os eucaliptos, numa época de “serradores de serra braçal. Não havia pinheiros que dessem para o comprimento exigido pelas quatro cintas, duas de cada lado”, explica.

Dos irmãos Baeta, José é o mais novo, ainda contam duas irmãs, Hortênsia e Cristelinda, com maridos marítimos, proprietários de barcos d’água acima e de água abaixo, com quem José ganhou o gosto pelas lides náuticas. “Eram barcos mais pequenos de 7 e 8 toneladas, os varinos, para transportar cal hidráulica da Barca do Pego” onde Diogo, aos 17 anos foi aprender a carpinteiro naval e a calafate diz apontando para o “maço” com o qual calafetava os barcos, guardado entre outras memórias desse passado longínquo.

“Andei dois anos a trabalhar de borla e o meu pai ainda pagou”. Nos barcos nunca se aventurou porque “desde novo sempre quis ser carpinteiro” profissão que abraçou depois de experimentar o trabalho rural na apanha da azeitona na propriedade do Taínho. “Não fiquei por lá, gostava mais do Tejo”.

José Baeta e Diogo Baeta ao lado do que sobra de uma pequena embarcação no quintal da casa de um dos irmãos

Quando casou, Diogo tinha 23 anos, “o trabalho dos barcos já estava a caducar”. Foi trabalhar como carpinteiro civil para o Rossio ao Sul do Tejo durante dois anos, com um salário de 28 escudos por dia, e na vinda da jornada diária “ainda ia fazer duas horas na Barca do Pego a consertar uns barquitos”. Do magro salário, de direitos poucos num Estado Novo repressor, ainda retirava um terço para o encarregado Batarata.

Antes de iniciar uma vida de trabalho, José recorda o primeiro dia de escola em Alferrarede, o mesmo em que fugiu sem a professora dar por isso, depois de entrar na sala de aula pela mão da avó materna e deparar-se com uma sala cheia de crianças, muitas sentadas no chão porque as “carteiras não chegavam para todos”, diz.

José Baeta passou no exame da quarta classe apesar da mãe o retirar da escola durante a apanha da azeitona para ir ajudar nos campos. No currículo ainda acrescenta a profissão de ajudante de oleiro na função de desenformar canecos de barro para a resina, e na serração à beira da estação de Alferrarede, do senhor Pereira Nazaré a ganhar sete escudos por dia.

“À noite ainda por lá ficava a tirar a serradura das serras. Ganhava mais nesse trabalho do que ganhava durante o dia”, lembra. Nas férias trabalhava com os tais cunhados marítimos, José Lopes Cabedal e António Lopes Cabedal, também eles irmãos casados com as irmãs Baeta.

Já rapazote, numa dessas lides de “safar o barco”, partiu um braço a carregar fardos de cortiça destinados ao Montijo e ao Barreiro.

No Rossio ao Sul do Tejo, ligando a terra ao barco “a prancha era comprida, teria uns 10 metros, a bambolear escapou-me um pé” do picareto colorido “acabado de arranjar e meter na água, parecia um brinquinho!”, recorda, contando outra história de quando empurrou borda fora um pastor de borregos por ter manchado com os pés descalços, cobertos de lodo, a pintura fresca de um barco à proa, preparado para grandes viagens.

Esses possuíam cobertura na ré para os alimentos e na proa, onde dormiam os marítimos.

Em sua casa, ao lado da oficina de carpintaria, Diogo Baeta ainda guarda as ferramentas de calafate, entre eles a marreta

A vida de calafate começou, então, para José na Barca do Tramagal mas seguindo a prática precária de contratação de trabalhadores de acordo com as necessidades do momento eram frequentes as deslocações à beira rio até Valada do Ribatejo para arranjar barcos nos estaleiros navais que marcavam a atividade económica ribeirinha.

Filhos de pai pedreiro e mãe doméstica, sem grandes posses financeiras, antes de passar pelo serviço militar, Diogo recorda a construção de “um barquito (uma lancha) para um senhor que estava a explorar o areal das Barreiras do Tejo”, o único dinheiro que conseguiu levar para a tropa. “Era assim a vida!”.

Como calafate, responsável pelo isolamento da embarcação, “metia estopa nas juntas do tabuado dos barcos, na união das tábuas umas com as outras. A estopa levava um calda de alcatrão” na tentativa de impedir a entrada de água no barco. “Fazia-se para não entrar mas às vezes entrava”, graceja Diogo.

O irmão, que tem presente a construção do casco, do esqueleto ao tabuado, traz à memória o fundo do maior barco d’água acima construído na região, “todo pregado com pregos de pau. Passei tempos infinitos a fazê-los com um formão grande. Sem berbequins, com um travo fazia o furo e torneava-se à mão o prego, depois era batido com uma marreta”.

Um trabalho de minúcia mas que tinha vantagens: “O prego era de madeira, varava a caverna de um lado ao outro e conforme se gastava, gastava-se também a cabeça do prego, se fosse prego de arame gastava a cabeça e ficava roto” permitindo a entrada de água na embarcação, explica Diogo.

Fotografia com Diogo Baeta durante a construção de um barco, (em baixo) e outra do barco acabado (em cima)

Principalmente no verão, “de maio até à feira do Cartaxo [Feira de Todos os Santos]”, quando era mais fácil andar dentro de água, o trabalho de calafate e de carpinteiro naval era ao ar livre com os pés descalços dentro de água, de lama, “com os barcos nos picadeiros, a levantá-los manualmente quando vinha a maré, depois era baixá-los até navegarem”.

O estaleiro era a praia de uma vida dura. “Barcos varinos, de mastro ao alto, picaretos, de mastro pequeno e mastro de três bicos, chamada vela de verga” explicam os irmãos. Rio abaixo transportavam madeira, cortiça, palha, frutas como melão e melancia, rio acima para trazer até ao interior sal e sacos de arroz.

A viagem com vento favor no barco à vela “eram dois dias para ir e vir a Lisboa” diz José, “quando havia tempo cantava-se o fado”, recorda Diogo. O mais novo dos irmãos Baeta manifesta saudades daqueles tempos de sacrifício, quando “no inverno a dormir na proa com as mantas molhadas da chuva e do rio”. Ainda assim “gostava de navegar!”, desabafa José.

Por terras do Médio Tejo as rivalidades faladas entre carpinteiro naval e calafate não se faziam sentir, pelo menos entre os irmãos Baeta. A vida de calafate era igualmente dura. “Andávamos sempre todos sujos, de alcatrão, trabalhar com o lume, raspar a madeira, o pó preto…”.

Sacrifícios pelo bom salário. “Ganhava-se bem! 50 escudos por dia enquanto aos carpinteiros pagavam 30 escudos. Mas depois a construção naval acabou” no rio Tejo, conta Diogo.

De 1945 em diante chegou o transporte terrestre. “Camiões a gasógeno. Os primeiros de três ou quatro toneladas, tinham um cilindro no exterior ao lado da carroçaria. Os camiões tiraram o trabalho aos barcos” e os irmãos aproveitaram o saber da carpintaria naval para trabalhar na construção civil.

José Baeta ainda procurou sustento na União Fabril do Azoto para onde entrou no fim de novembro de 1949 com a UFA ainda em obra. A propósito da inauguração, na qual esteve presente o então Presidente da República Craveiro Lopes, trabalhou “três dias e três noites sem arrancar pé” numa fábrica onde chegaram a trabalhar “cinco mil pessoas. Abalaram todos”. Também José Baeta decidiu sair numa véspera de Natal.

Em parceria com o irmão apostaram uma carpintaria em Alferrarede. Uma oficina onde já não usam o machado e a serra braçal, com obras “quase por todo o País. Tínhamos os clientes que queríamos. Chegámos a ter 40 trabalhadores, mas empregados de escritório nunca tivemos, nós fazíamos as contas e tratávamos da papelada. Éramos patrões trabalhadores”, sublinha Diogo.

Nem Diogo nem José passaram o conhecimento aos herdeiros. Diogo teve três filhos, dos quais restam dois, uma Educadora de Infância e um rapaz sem vontade de talhar barcos. José “infelizmente” não deixa geração. Para recriar a arte, José guarda, talvez por isso, vontade e tábuas há cerca de 20 anos, preparadas para construir um barco.

Quem sabe, parecido com a lancha que jaz no quintal da casa de Diogo, feita com madeira de oliveira, da roda de proa aos braços, em busca de memórias antigas aconchegadas em novos lugares de um Tejo “completamente diferente”.

(Da esquerda para a direita) José Baeta de 88 anos e Diogo Baeta de 91, na carpintaria que durante anos foi o seu local de trabalho

*Publicada em outubro de 2018, republicada em janeiro de 2020

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Deixe um comentário

Leave a Reply