Projeto de “Reconversão do Antigo Mercado Municipal de Abrantes em Multiusos”. Foto: CMA

O executivo da Câmara Municipal de Abrantes aprovou, por maioria dos eleitos PS, o projeto de execução da empreitada de “Reconversão do Antigo Mercado Municipal de Abrantes em Multiusos”, numa decisão que contou com a abstenção dos vereadores eleitos pelo PSD e do vereador eleito pelo Chega.

A proposta foi discutida na reunião do executivo municipal realizada na quinta-feira, tendo o presidente da Câmara, Manuel Jorge Valamatos (PS), defendido o caráter estratégico da intervenção para o futuro da cidade e, em particular, para a revitalização do centro histórico.

Segundo o autarca, o município pretende antecipar todos os procedimentos administrativos para que a obra possa arrancar logo após a conclusão da empreitada da nova rotunda junto ao hospital, evitando atrasos entre os dois projetos.

“Estes procedimentos administrativos demoram imenso tempo e nós estamos a antecipar-nos para que, quando a obra da rotunda estiver terminada, não percamos tempo e a obra do multiusos possa avançar”, afirmou.

O projeto prevê a requalificação integral do antigo Mercado Municipal, transformando o edifício num espaço polivalente destinado à realização de eventos culturais, associativos, educativos e comunitários.

Para Manuel Jorge Valamatos, trata-se de “uma obra absolutamente estruturante” para a cidade, capaz de dar “uma nova vida” e “uma nova linguagem” àquela entrada de Abrantes. “É uma entrada da cidade muito relevante e vai ser um edifício com muita operacionalidade”, sublinhou.

O presidente da Câmara explicou que o novo multiusos pretende responder a necessidades que atualmente o concelho sente ao nível da realização de grandes eventos, sobretudo após a perda do espaço do antigo edifício da Quimigal, onde irá funcionar a futura Escola Superior de Tecnologia de Abrantes.

“Nós precisávamos de ter um espaço para grandes eventos do folclore, das bandas filarmónicas, das associações de pais, das festas de Natal e das atividades das associações de estudantes”, afirmou.

O autarca destacou ainda que, apesar da proximidade da inauguração do renovado Cine-Teatro São Pedro, a nova infraestrutura cultural não substitui a necessidade de um espaço multiusos de maior dimensão e flexibilidade.

“O Cine-Teatro São Pedro é uma sala cultural que não permite eventos como feiras nacionais de doçaria ou festivais internacionais de folclore”, referiu.

Segundo Manuel Jorge Valamatos, a localização do projeto foi pensada de forma estratégica, precisamente para trazer dinâmica económica e movimento ao centro histórico da cidade.

“Estamos a fazer isto de forma intencional, trazendo os eventos para dentro do centro histórico e dinamizando a atividade económica daquela zona”, explicou.

A intervenção prevê também uma profunda requalificação urbanística da envolvente do antigo mercado municipal, incluindo alterações na circulação pedonal e na ligação ao parque de estacionamento do vale da Fontinha.

Entre as novidades anunciadas está a instalação de um elevador exterior no edifício, destinado a facilitar o acesso entre o estacionamento e a zona da Avenida 25 de Abril.

“Vamos pôr aquele estacionamento do vale da Fontinha verdadeiramente a funcionar”, afirmou o presidente da Câmara, recordando que o parque dispõe de cerca de 350 lugares mas que atualmente é pouco utilizado devido às dificuldades de acesso pedonal. “Aquelas escadas são íngremes, perigosas e difíceis, e as pessoas evitam utilizá-las”, acrescentou.

A empreitada prevê ainda alterações significativas ao espaço público envolvente, incluindo mudanças no pavimento da via rodoviária e a criação de uma nova zona de praça urbana junto ao edifício e um jardim envolvente.

ÁUDIO | Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes

Manuel Jorge Valamatos classificou o projeto como “fantástico” e “um grande investimento”, defendendo que a intervenção, em conjunto com a nova rotunda do hospital, será determinante para impulsionar a cidade e o concelho nos próximos anos.

“Julgo que a rotunda do hospital e a requalificação do antigo mercado vão ser um grande incentivo e vão impulsionar-nos enquanto cidade e concelho para o futuro”, afirmou.

Durante a reunião, o autarca esclareceu ainda que a aprovação agora realizada permite avançar com o lançamento da empreitada, embora o início efetivo da obra esteja dependente da conclusão dos trabalhos na rotunda do hospital.

“Nós lançámos hoje a empreitada e queremos ganhar tempo para que, logo que termine a obra da rotunda, as obras do multiusos possam avançar”, explicou.

O presidente da Câmara recordou que o município optou por aguardar pela conclusão das recentes obras no hospital, sobretudo na área das urgências, evitando que várias intervenções de grande dimensão decorressem em simultâneo naquela zona da cidade.

Por fim, Manuel Jorge Valamatos garantiu que o projeto procura preservar a identidade arquitetónica e simbólica do antigo mercado municipal, conciliando memória e modernidade.

“Aquilo que queremos fazer é preservar o edifício e a sua identidade tanto quanto possível. O projeto não descaracteriza aquele edifício do nosso imaginário. Há respeito pelo espírito do lugar”, afirmou. Ainda assim, o autarca sublinhou que o espaço terá de responder às exigências atuais. “O lugar tem de ser contemporâneo e capaz de responder às necessidades dos dias de hoje”, concluiu.

Oposição abstém-se na votação do multiusos e critica solução prevista para antigo mercado

A aprovação do projeto de execução da empreitada de “Reconversão do Antigo Mercado Municipal de Abrantes em Multiusos”, discutida na reunião do executivo da Câmara Municipal de Abrantes, contou com a abstenção dos vereadores eleitos pelo PSD e do vereador eleito pelo Chega, que justificaram o sentido de voto com reservas quanto à solução funcional prevista para o edifício.

Durante a discussão do ponto, tanto Nuno Serras (Chega) como João Morgado (PSD) afirmaram concordar com a necessidade de reabilitar o antigo mercado municipal, mas defenderam que o edifício deveria manter ou recuperar a sua função original ligada à atividade comercial.

O vereador do Chega explicou que a sua abstenção resulta da posição que tem assumido desde a campanha eleitoral, defendendo que gostaria de voltar a ver o mercado tradicional instalado naquele espaço. “Gostaria de voltar a ver lá o mercado, naquele edifício”, afirmou Nuno Serras, considerando que o espaço poderia ter sido recuperado e modernizado sem perder essa identidade.

Segundo o eleito, o mercado poderia ser reorganizado “de forma ampliada, arranjada e diferente”, mas mantendo os comerciantes “todos ao mesmo nível”, à semelhança dos mercados tradicionais antigos.

ÁUDIO | Nuno Serras, vereador eleito pelo Chega

O vereador destacou também o valor simbólico e arquitetónico do edifício, sobretudo para a população mais velha da cidade. “Aquele edifício tem uma história grande e as pessoas estão muito familiarizadas com ele”, referiu.

Apesar das reservas quanto ao modelo escolhido, Nuno Serras reconheceu que Abrantes necessita de um espaço multiusos há vários anos, considerando positiva a criação de uma infraestrutura com essa capacidade. “O multiusos faz falta a Abrantes e já faz falta há alguns anos”, afirmou.

Nuno Serras, vereador na CMA eleito pelo Chega. Foto: mediotejo.net

Ainda assim, defendeu que essa infraestrutura poderia ter sido construída noutra zona da cidade, com melhores condições de estacionamento e menor impacto urbano durante a obra. “Podia fazer-se noutra zona da cidade, se calhar até com mais capacidade de estacionamento e menos transtornos”, acrescentou.

Também o vereador do PSD, João Morgado, justificou a abstenção com críticas ao processo que conduziu ao estado atual do edifício e com dúvidas relativamente ao futuro modelo funcional previsto pela autarquia.

Na sua intervenção, o social-democrata recordou que o processo relacionado com o antigo mercado se arrasta desde 2021 e relembrou que o edifício chegou a estar em risco de demolição. Segundo João Morgado, foi necessária uma petição pública com mais de 1200 assinaturas e uma Assembleia Municipal extraordinária para afastar esse cenário. “O PSD sempre se opôs à demolição e sempre defendeu a reabilitação”, afirmou.

O vereador acusou ainda o executivo municipal de falta de estratégia ao longo dos anos, considerando que o estado de degradação do antigo mercado poderia ter sido evitado através de intervenções regulares de conservação. “O edifício não chegou a este estado por acaso”, afirmou.

ÁUDIO | João Morgado, vereador social-democrata

João Morgado criticou igualmente a ausência de proteção de vários elementos identitários do espaço, referindo-se especificamente aos painéis de azulejo e à traça arquitetónica original do edifício. “O resultado é um estado de degradação que poderia ter sido evitado”, acrescentou.

O vereador do PSD defendeu que o antigo mercado deveria manter a possibilidade de regressar à sua função original enquanto espaço de comércio local e apoio aos produtores da região.

Vereadores do PSD na Câmara de Abrantes. João Morgado e Ana Oliveira. Foto: mediotejo,net

“O PSD defende que este edifício deveria preservar a possibilidade de regressar à sua função original”, disse, considerando que essa solução contribuiria para reforçar a centralidade urbana e a identidade histórica da cidade.

Durante a intervenção, João Morgado colocou ainda reservas relativamente ao impacto económico e financeiro do projeto apresentado pelo executivo socialista.

Segundo o vereador, os custos do investimento não devem ser avaliados apenas do ponto de vista financeiro direto, mas também tendo em conta o tempo de execução da obra, os constrangimentos provocados à atividade económica e o “custo de oportunidade” dos anos em que o edifício permaneceu sem utilização.

O eleito social-democrata afirmou ainda que o PSD não acompanha “a solução funcional proposta”, considerando existirem dúvidas quanto ao modelo de gestão, sustentabilidade financeira e impacto do futuro multiusos no comércio local.

Apesar das críticas, João Morgado reconheceu que a não intervenção não seria solução, admitindo que deixar o edifício continuar a degradar-se agravaria ainda mais o problema existente. “A alternativa não pode ser a continuidade da degradação”, afirmou.

O vereador concluiu explicando que a abstenção pretende refletir simultaneamente a crítica ao passado, as reservas relativamente ao futuro funcional do edifício e a defesa de uma maior salvaguarda patrimonial.

“Não gostamos de ver o mercado como ele está e não consideramos que esta solução seja a melhor opção para o mercado”, concluiu.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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1 Comment

  1. É avançar e quanto mais depressa melhor. Assim como está é que não é nada e andar-se todos anos a pagar uma tenda para a feira de doçaria com implicações no estacionamento é um absurdo.

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