Foto: mediotejo.net

Abrantes lançou duas iniciativas por ocasião do Dia da Saúde Mental (10 de outubro), entre as quais uma ação de sensibilização sobre o estigma da doença mental e ainda uma caminhada que pretende alertar para o tema, quebrar tabus em volta da saúde mental e salientar a importância da prevenção e da reflexão sobre este tema. No auditório do Edifício Pirâmide, em Abrantes, a sessão na tarde de quarta-feira foi muito participada, contando com especialistas na área da Psiquiatria e da Associação de Saúde Mental do Médio Tejo.

Neste sentido, desmistificando o que é uma doença mental, Erik Dornelles, médico interno de Psiquiatria do Hospital Santa Maria, voluntário na Associação de Saúde Mental do Médio Tejo, começou por retratar genericamente a evolução da abordagem psiquiátrica e das unidades hospitalares e clínicas, crendo que desde cedo se começou a notar a existência de um potencial que merecia ser explorado e dinamizado num processo de reabilitação do doente mental.

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Acontece que, a certa altura e na sua opinião, parece ter existido uma regressão na forma de pensar e atuar em psiquiatria. “Abrimos a porta da gaiola, soltámos os pássaros, mas não os ensinámos a voar”, comentou.

Quanto à doença mental, referiu classificar-se mediante o dano/sofrimento ou disfunção do utente, sendo certo que é feito um diagnóstico que implica prognósticos e as chamadas etiquetas sociais. Segundo o médico, os diagnósticos são “pegajosos”, ou seja, dificilmente se abandona ou desliga do processo, buscando sempre respostas e procurando soluções.

Nesta senda, e indo ao encontro da apresentação “O Estigma na Doença Mental – Passado, Presente e Futuro”, lembrou o conceito trazido por Ervin Goffman em 1963, onde surge o estigma que opõe a minoria a uma maioria, isto é, o doente mental à “normalidade”, baseado em crenças sociais que prevaleceram ao longo da História, conforme a evolução da própria psiquiatria e dos modelos a ela associados.

Acontece que o estigma na saúde mental sucede através de preconceitos (a nível cognitivo) que levam à discriminação (em termos comportamentais), sendo de diversa ordem: público, pessoal, evitamento de etiqueta e estrutural.

Já os preconceitos sobre a doença mental, e os doentes em si, desde logo rotulando-os como sendo imprevisíveis, perigosos e até incompetentes, mas também responsabilizando-os pelos seus atos, geram atitudes discriminatórias, caso do evitamento, coerção e segregação.

Tudo isto se traduz no estigma pessoal, provocando danos na auto-estima do doente, gerando e alimentando auto-preconceito e auto-discriminação, e com isso incrementando sentimentos de culpa, vergonha e incapacidade.

Este estigma e o tabu que continua muitas vezes a envolver as questões de saúde mental, levam a que exista um afastamento da temática, uma fuga à preocupação com a saúde da mente, e com isso, gera-se o evitamento de etiquetas. Ou seja, a fuga pelo medo da etiqueta e de ficar marcado ou rotulado.

Apresentado por Erik Dornelles foi o facto de 30 a 50% das pessoas com perturbações mentais evitarem procurar os serviços da área.

O estigma estrutural já se refere às políticas e organizações que acabam por contribuir para o estigma das doenças mentais, nomeadamente porque o serviço de psiquiatria e da saúde mental tem tendencialmente muito menos investimento que outras áreas como a oncologia e a cardiologia, por exemplo.

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Para o médico “o estigma mata” e a criação de estereótipos em torno das doenças mentais surge muito pela criminalização ou psiquiatrização da criminalidade, onde “pessoas que têm perturbação mental, já devido ao estigma, têm maior probabilidade de serem presas pelos mesmos crimes cometidos por pessoas que não têm esses diagnósticos”.

“O estigma está presente em vários níveis, e todos eles se relacionam, mas os vários níveis são importantes para pensar as políticas de combate ao estigma”, adiantou.

Erik Dornelles notou ainda que o estigma “está a aumentar”, com base num estudo realizado em 2000, em que se verificou a escalada da promoção do estigma e preconceito junto dos profissionais de saúde mental, que acabam por ser promotores destes preconceitos dentro da população em geral, uma vez que têm contacto direto com os doentes e acompanham e conhecem os casos mais e menos graves.

“É bastante preocupante, como é que eu estou aqui a falar de estigma se os meus colegas são dos mais responsáveis pela proliferação desse estigma”, reconheceu.

Por outro lado, referiu ainda o médico interno de Psiquiatria que os doentes com antecedentes de saúde mental por norma “recebem pior tratamento em geral, são menos referenciados, são menos ouvidos e menos tratados, e são mais facilmente despachados. Isto gera piores números. Há pessoas que não vão porque não são bem tratados devido ao estigma”.

E como se pode mudar o estigma? Segundo Erik Dornelles, através do protesto, da educação e do contacto interpessoal.

O futuro passa por “focar na narrativa da recuperação como processo”, onde se privilegia a “mensagem afirmativa e empoderadora”, e também “aumentar o contacto cara-a-cara, com entrevistas com pessoas com doença mental e incentivar a «saída do armário» de forma segura e controlada”.

O combate ao estigma também passa por fomentar programas de peer-support, isto é, o apoio entre pares, a partilha de experiências, juntando pessoas que estão “mais à frente no processo de recuperação” e integrando-as no processo de recuperação de outros, dando suporte comunitário.

“Só educar não vai adiantar mudanças. Temos de falar com as pessoas, temos de fazer com que as pessoas com doença mental tenham confiança para vir falar e se exponham e que sintam que têm esse fórum e abertura. Só assim pode ser que as pessoas de poder – CEO de empresas, proprietários do mercado de arrendamento, investidores dos hospitais – comecem a ajudar no combate ao estigma”

O médico interno no Hospital Santa Maria terminou crendo que ”temos nas nossas mãos a oportunidade e a capacidade de avançarmos e reduzirmos finalmente o estigma na saúde mental”, disse.

Também na mesa de oradores esteve Rute Galvão, enfermeira especialista de Saúde Mental e Psiquiatria, fundadora e presidente da Associação de Saúde Mental do Médio Tejo e coordenadora técnica do projeto Integrativamente.

A enfermeira especialista referiu que o Município de Abrantes é um dos municípios “com mais incidência em doença mental”, e apontou a dispersão geográfica dos utentes como principal constrangimento à realização do trabalho.

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“Apesar do número de utentes seguidos pelo nosso programa atualmente poder ser menor do que em Tomar, por exemplo, a verdade é que nos faz perder imenso tempo pela dificuldade geográfica. Ter um doente em Casais de Revelhos, ter outro no Tramagal e outro no Pego, a distância é muito grande e o tempo que se perde entre eles… Mas o lema do programa e da nossa associação é acreditar no empoderamento destas pessoas, acreditar que têm capacidade para estar em casa, capacidade de ser reabilitados e é isso que queremos fazer com as famílias, ou sem elas”, relatou.

A associação sediada em Tomar, ao longo dos 8 anos de existência, revela que “muito tem sido o trabalho desenvolvido no concelho de Abrantes”, sendo certo que serve pessoas com doença mental e cuidadores residentes nos 13 concelhos da sub-região do Médio Tejo (Abrantes, Alcanena, Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Mação, Ourém, Sardoal, Sertã, Tomar, Torres Novas, Vila de Rei e Vila Nova da Barquinha).

Entre os eixos de ação desta associação consta ainda a promoção de literacia em saúde mental e ações de combate ao estigma associado às doenças mentais, onde a sessão de sensibilização realizada ao final da tarde de terça-feira, dia 11, se enquadrou.

Por seu turno, Raquel Olhicas, vereadora da Câmara Municipal de Abrantes e enfermeira de profissão, reconheceu que além de o estigma ser um assunto “muito sensível” e concordando que “o estigma mata”, assumiu igualmente que “as pessoas, num serviço de urgência, se forem conotadas como sendo portadoras de doença mental, muitas vezes podem ser tratadas de forma menos intensivista, não sendo olhadas tão profundamente. Temos urgentemente de desmistificar esta situação”.

Em declarações ao mediotejo.net, falou sobre a importância da prevenção e da literacia em saúde junto da comunidade em geral e de diversos públicos, principalmente o escolar.

Raquel Olhicas, vereadora com o pelouro da Saúde na Câmara Municipal de Abrantes. Foto: CMA
ÁUDIO | Entrevista a Raquel Olhicas, vereadora da CM Abrantes

A vereadora notou que o município tem instituído políticas de literacia em saúde e de trabalho com os próprios colaboradores. “Criou-se uma equipa de dinamizadores locais da saúde mental, promovem diariamente estratégias para que os nossos colaboradores vão para casa e sejam também promotores de saúde mental, que é fundamental”, começou por dar conta.

“Investimos muito em políticas motivacionais, as pessoas mais motivadas produzem mais, com mais qualidade, e isso depois é contagioso e é fundamental a política de saúde mental laboral”, salientou.

Em termos de estratégias municipais e viradas para a comunidade, e tendo em conta a descentralização de competências na área da saúde que ocorrerá já em 2023, o município vai implementar o Conselho Municipal de Saúde, que unirá uma rede de parceiros do setor e de várias instituições, que reunirão sobre a saúde em geral no concelho.

“Vamos obviamente falar da saúde mental, porque os casos de depressão, sobretudo nos jovens, estão a aumentar. Temos de ir mais para as escolas, tentar que falem mais connosco, que se diagnostique mais rapidamente estas situações de debilidade mental”

Atualmente, e mediante o Plano Municipal para a Igualdade, há também um trabalho com uma equipa multidisciplinar que se desloca às escolas, do pré-escolar ao ensino secundário, onde se promovem estas temáticas, o caso do luto, do divórcio dos pais, da falta de auto-estima, do bullying.

“É uma aposta cada vez mais intensa, mas que precisa ser feita ainda com maior investimento”, afirmou.

Quanto a estas iniciativas de sensibilização e consciencialização, são para continuar. “Estes debates de partilha vão acontecer com mais frequência, não só de âmbito da saúde mental, mas de outras situações, caso das doenças cardiovasculares, de enfartes agudos do miocárdio, de situações cerebrovasculares. De acordo com as efemérides é nossa intenção apostar na prevenção”, adiantou.

“A Câmara Municipal está a apostar cada vez mais em literacia nestas temáticas precisamente para dar mais auto-conhecimento. Se nós conhecermos determinada situação de doença e se nos conhecermos a nós ao nível das reações podemos evitar situações de debilidade ao nível da saúde mental”, concluiu a enfermeira.

Raquel Olhicas lembrou que o município tem uma Linha de Apoio Psicológico [contactos: 966 919 490 ou 241 330 217 ] e que além do serviço da autarquia e acompanhamento se faz ponte e encaminha para estratégias e alternativas a nível de resposta psicossocial para outros meios, nomeadamente para centros de saúde, hospital e até especialistas em psiquiatria ou pedopsiquiatria.

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No final da sessão, também a vereadora com o pelouro da Educação, Celeste Simão, abordou a relevância do debate público sobre a doença mental e fez referência à estratégia municipal que tem vindo a ser implementada junto da comunidade escolar, em particular.

ÁUDIO | Celeste Simão, vereadora com o pelouro da Educação na CM Abrantes

A responsável mencionou projetos dirigidos às crianças e jovens das escolas do concelho num trabalho de prevenção, caso dos “Amigos do Ziki”, e fazendo ainda referência ao Plano Municipal para a Igualdade onde também são implementadas estratégias que promovem o bem-estar da comunidade e que desenvolvem ferramentas que incidem também sobre a promoção da saúde mental.

Para Celeste Simão este é um dos temas que a todos deve “desassossegar”, para que se busquem respostas e possam debruçar-se sobre o tema e pensar sobre formas de mobilização, implementando soluções para as problemáticas que vão surgindo no dia-a-dia de cada um, no seio familiar, na vida do outro e na vivência em sociedade.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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