Desenho, pintura e cinema são artes que se misturam há 12 anos através de actividades integradas entre a Associação de Desenvolvimento Cultural Palha de Abrantes e profissionais de diversas áreas educacionais e artísticas. Estamos a falar do “Animaio” que já está na sua 12° edição, tendo como ponto de partida a divulgação, promoção e a inserção da arte do cinema junto das crianças dos 5 aos 12 anos de idade. “Cada desenho um frame”, é o princípio utilizado na produção dos filmes, exibidos anualmente em forma de cinema ao ar livre no final do ano lectivo. O mediotejo.net foi conhecer a exposição de todo o material utilizado para a produção de cada filme para dar a conhecer o trabalho de várias crianças e profissionais que se dedicaram ao Animaio durante este ano.

Em média, cada filme possuí 4 minutos. Parece pouco tempo mas é fruto do trabalho de um ano inteiro, pois as turmas escolares envolvidas no projecto de formação de públicos na área do cinema lêem vários livros no decorrer de cada ano. É Lurdes Martins, presidente da Associação  de Desenvolvimento Cultural Palha de Abrantes, quem escolhe os temas a serem desenhados por cada escola envolvida para  culminar numa semana de trabalho mais específico, entre pinturas em papel, em vidro, modelagem de plasticina e, no caso deste ano letivo 2016-2017, a madeira extraída da palmeira para fazer os escaravelhos, que são os insectos responsáveis pela morte de várias palmeiras imperiais, e também os trabalhos realizados em cortiça.

No espaço Sr. Chiado, em Abrantes, onde logo à entrada estão mesas e cadeiras que fazem parte do bar onde são servidos diversos tipos de bebidas e snack’s, já se podem ver na estrutura da escada que dá acesso aos andares superores, aves feitas artesanalmente que foram utilizadas noutros filmes, realizados em edições anteriores.

Os alunos de diversas escolas do concelho frequentam o espaço durante a semana que tem como um dos seus projetos a “escola do ócio”, um lugar onde as crianças, depois do horário escolar, acedem a um tipo de educação “complementar”.

Lurdes Martins destacou o trabalho de fundo que cada história contada através da arte possui:: “Aqui temos a parte da geografia da história, onde se explica porque é que determinado animal vive num lugar específico. E é necessário, antes de trabalhar com o animal, perceber onde é que ele vive, o que é que ele come, e qual é o meridiano e o contexto em que ele existe.”

Esse ano falou-se sobre a Patagónia, a Cordilheira dos Andes e as palmeiras, assim como sobre as árvores de onde é retirada a cortiça e o seu tempo de colheita, e ainda o fim das palmeiras imperiais em muitos lugares, inclusive em Portugal. Foi também produzido um filme sobre o livro de Luís Sepúlveda, “História de um Cão Chamado Leal”. (ver video)

Área onde estão expostos os desenhos que deram origem aos filmes Foto: mediotejo.net

Este ano foram mais de 200 as crianças envolvidas na 12° edição do Animaio, segundo as contas da presidente da “Palha de Abrantes”. Todas elas participaram activamente na produção dos 4 filmes, sendo que a exposição integra também os desenhos de alunos do 1° ciclo, que ainda não sabem escrever.

O processo final do filme é realizado “numa sala que a escola disponibiliza, com luz própria ou, pelo menos, sem luz. Uma sala escura”, contou a coordenadora do singular projeto cultural.

“Os filmes não ficam prontos da noite para o dia, pelo contrário, levam tempo. Às vezes a mesma criança desenha todo o filme. Para pôr em movimento qualquer personagem ou objecto, é preciso desenhá-lo várias vezes, com as mesmas características e avançando pouco a pouco, até o mesmo sair de cena. E isso requer aptidão e tempo”, frisou.

Existem cenas que são extensas, e onde se faz o tão necessário e importante trabalho em equipa, de maneira que todos os envolvidos estejam bem entrosados e consigam reproduzir as pinturas, quase idênticas, e que vão integrar as cenas (frames) do filme.

Um dos exemplos dos filmes deste ano Foto: mediotejo.net

A apresentação do trabalho global do “Animaio” deste ano decorreu na Praça Raimundo Soares, em Abrantes, no dia 12 de junho, ao ar livre, e onde as crianças e os seus familiares, amigos e docentes puderam assistir aos filmes e receber o certificado de participação.

Ícaro, um artista plástico com muitas obras reconhecidas, é da cidade do Porto e está envolvido com o “Animaio” desde há alguns anos. Recordou na ocasião que há pouco tempo estava em Coimbra e ouviu alguém chamar o seu nome em voz alta. Quando se apercebeu que aquele que o chamara havia sido um dos seus alunos em Abrantes e estava agora a tirar o curso de audio visual na universidade, é que deu conta que já não era apenas um antigo aluno, mas que estava ali um futuro colega de trabalho.

A representante da Associação Palha de Abrantes mencionou ainda o fato de que alguns alunos que frequentam as actividades do ‘Espalha Fitas’, secção de cinema da Associação Cultural, “são aqueles que não fazem parte da escola, fazem parte de uma turma que não é uma turma normal e eles nem sequer possuem um programa para cumprir”.

Sempre muito bem disposta, mesmo no meio do som de uma banda de rock que utilizava a sala ao lado para ensaiar e que acabava por abafar a sua voz, Lurdes Martins revelou o todo o processo que e desenvolvido por detrás dos bastidores do Animaio, iniciativa que leva a cultura cinematográfica às escolas do concelho e da região, e que tem sido alvo de elogios e da conquista de alguns prémios de relevo em festivais de cinema e de animação.

Vinicius Alevato, 30 anos, estudante de comunicação, está a aprender a
observar uma região com o olhar atento aos factos. Acredita no
jornalismo de proximidade e na importância de servir as pessoas através
da boa informação.

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