Abrantes acolhe a 7ª edição do Festival de Filosofia, entre 21 e 23 de novembro, criando uma praça aberta a todos e onde há lugar ao pensamento livre, à arte de questionar e ao debate e partilha de ideias e troca de argumentos. Este ano, em que se celebram os 50 anos da Revolução de Abril de 1974, reflete sobre o valor da liberdade e caminho da sua construção. Ana Gomes, antiga diplomata, proferiu a conferência inaugural salientando que “nestes tempos tão duros, a forma de reagir é indignarmo-nos”.
Ana Gomes falava para uma plateia composta por pessoas das mais diversas idades, na Biblioteca António Botto, em Abrantes, mas dirigia-se “em particular aos jovens: indignem-se, juntem-se e façam coisas. Há tanta possibilidade de agir a todos os níveis. Espero que este Festival de Filosofia, que em tão boa hora decidiram organizar, seja uma oportunidade para permitir às pessoas não apenas refletir, introspecionar-se, olhar também para o mundo em redor, emocionar-se, porque não acho que seja possível separar a razão da emoção […] nada do que chega ao intelecto pode não ter passado pelos sentidos”.

E num olhar pelo mundo, Ana Gomes considerou “o poder da palavra e da língua como instrumentos de liberdade e de resistência”, ilustrando com o caso de Timor Leste, que viveu de perto, sem esquecer o “direito coletivo” à autodeterminação dos povos, plasmado na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
“O caso mais escabroso que temos, e uso esta palavra sabendo do peso e da conotação terrível que tem porque é talvez a que melhor define aquilo que vemos todos os dias na televisão, o que se passa em Gaza e na Cisjordânia. Estamos a falar de territórios ilegalmente ocupados que não tiveram ainda a possibilidade de exercer o seu direito à autodeterminação, porque não puderam exercer esse direito básico, são os direitos humanos de cada individuo que são miseravelmente violados todos os dias, de forma tão trágica, que nos envergonha”, disse Ana Gomes na conferência inaugural da 7ª edição do Festival.
A ex-embaixadora trouxe o tema para a sessão porque o “edifício” da democracia, do pluralismo, da tolerância, do estado de direito, do “substrato institucional” construído desde a II Guerra Mundial, em que disse ter tido “o privilégio de participar” como diplomata portuguesa.
“Trabalhando nas Nações Unidas, em Genebra, em Nova Iorque, no quadro da própria União Europeia, e que hoje vejo francamente abalado, francamente posto em causa, quando vemos a presidência da maior potência ocidental, tudo indica, em acelerado declínio, fazer tábula rasa de toda esta construção, de todo este edifício de direito estabelecido, direito internacional. Fazer tábula rasa do estado de direito no seu próprio país, a nível internacional, e entrar numa fase absolutamente perturbante”, declarou.
Ana Gomes referia-se aos Estados Unidos e à reeleição do presidente Donald Trump. “Tudo aquilo que ele disse e que devemos levar a sério, que tenciona levar à prática como já está demonstrando e que vai, sem dúvida, ter consequências dramáticas não apenas para os Estados Unidos, mas para os seus principais aliados”, nomeadamente “no quadro da NATO”, e “consequências para a ordem internacional ao ponto de muitos já falarem na grande desordem internacional”.
Negando ser “alarmista” ou “pessimista”, manifestou, no entanto, preocupação. “Não posso ignorar que nos últimos dias uma das perguntas que mais ouvi foi: vamos ter uma terceira guerra mundial?”. E Ana Gomes afastou essa possibilidade, pelo menos “ao virar da esquina”, mas não excluiu “um cataclismo que esteja em preparação com consequências absolutamente trágicas e destruidoras da democracia, distópicas”.

“Já estamos a ver quando a eleição do presidente dos Estados Unidos é devida à ação do plutocrata mais rico do mundo que quer transformar-se num verdadeiro oligarca, Elon Musk, e no fundo todos os outros grandes senhores do dinheiro. Compram inclusivamente eleições de presidentes e querem fazê-lo para desregular mais e para agravar as desigualdades”, refletiu.
Para Ana Gomes, “a democracia tem de tirar partido de cidadãos informados” e, para tal, conta a “educação” e a “informação” na “era da desinformação”. Alertou ainda para o facto do desenvolvimento tecnológico e da inteligência artificial poderem ter “aproveitamentos extraordinários a favor da Humanidade mas também podem ter aplicações absolutamente destruidoras da democracia e da própria Humanidade”. Daí a importância da intervenção cívica que a liberdade supõe, defendeu.
Abrindo caminho para o pensamento, a arte de questionar, criando desassossego e provocando os participantes a refletir sobre determinados temas e premissas, o programa contará com seis painéis de oradores, locais e nacionais, de diversas áreas, nos três dias. O festival terminará com uma conferência de José Pacheco Pereira, professor, político e cronista, no sábado, dia 23 de novembro, às 22h30.

A conferência de abertura, no dia 21, não contou com a presença do autarca abrantino Manuel Jorge Valamatos como estava previsto. Foi o vereador da Cultura, Luís Dias, quem discursou em representação do presidente da Câmara.
“O Município de Abrantes continua-nos a convocar para os dias mais ponderados do ano e para o original Festival de Filosofia de Abrantes que já vai na sua 7ª edição”, começou por referir o vereador da Cultura.
Referiu que, “nesta edição, elevamos os valores da democracia e continuamos a celebrar Abril, no cinquentenário do ‘dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos a substância do tempo’, como escreveu Sophia. Sob a bandeira da Liberdade, implodimos o fascismo e a opressão do país que fomos, dando luz à democracia e ao país que somos. Sob a mesma bandeira, reafirmamos a liberdade de pensar, nesta cidade de pessoas. Cidade que tem asas e voa, que nos alimenta a esperança e que nos inspira o desígnio da União que faz Abrantes”.
O 7º Festival de Filosofia de Abrantes conta com o Alto Patrocínio da Presidência da República, e incluiu logo após a conferência inaugural, esta quinta-feira, uma assembleia com alunos de escolas do concelho. A sessão, denominada “Assembleia da Liberdade – eu penso, eu participo”, decorreu no primeiro dia do Festival e contou com José Rosa como convidado e Joana Rita Sousa no papel de provocadora.
O segundo dia, 22 de novembro, irá iniciar-se com o painel “Liberdade sem preconceitos”, com as conferencistas Cláudia Lucas Chéu, Daniela Nascimento e Raquel Varela, juntando-se ao painel o provocador Nelson de Carvalho.
“Somos livres de ‘voar’”, será o segundo painel, com Bruno Ferreira Costa enquanto provocador e Adriana Cardoso, Liliana Borges e Maria Castello Branco no papel de conferencistas. A noite de sexta-feira será encerrada com o momento musical “Cantar a liberdade”, protagonizado pelos músicos Joana Cota e João Vaz.

O último dia do Festival de Filosofia de Abrantes começa com a atividade “Liberdade e arte”, uma sessão de filosofia para famílias orientada pela filósofa Joana Rita Sousa. A atividade, direcionada para famílias com crianças entre os 6 e os 12 anos, irá decorrer no MIAA – Museu Ibérico de Arqueologia e Arte.
O penúltimo painel debruça-se sobre “A arte no caminho da liberdade”, e traz Benjamim (Luís Nunes), Gisela Casimiro, Nuno Artur Silva e Nuno Nunes-Ferreira até à Biblioteca Municipal António Botto, numa conversa moderada por António Pinto Ribeiro.
Após um brinde à liberdade, a cargo da personal chef abrantina Célia dos Santos, terá lugar o último painel, “Pensar a liberdade”, com Anabela Mota Ribeiro, André Barata, António de Castro Caeiro e Mário Pissarra enquanto provocador.
Como escreveu o professor José Alves Jana, o “Festival de Filosofia de Abrantes propõe-se ser um lugar de encontro entre perspetivas diversas, um espaço interdisciplinar capaz de desafiar os participantes a irem mais longe do que iriam se pensassem sozinhos. Por isso, os filósofos e os sociólogos, os politólogos e os engenheiros, os físicos e os homens e mulheres de religião, os políticos e os cidadãos anónimos conseguiram criar um ambiente que ia para lá de cada um dos participantes. O que interessa não é tanto o que cada um disse, mas o espaço teórico e prático ‘entre’ todos, a fim de que o problema se afirme e as análises se desenvolvam”.


No ano em que se comemoram os cinquenta anos do 25 de Abril, decorre em paralelo a habitual Feira do Livro de Filosofia na Biblioteca Municipal, entre os dias 19 e 25 de novembro.
As entradas no MIAA – Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, mesmo ao lado da Biblioteca Municipal, serão gratuitas durante o festival.
Programa completo AQUI.
