'Exposição de Vestidos de Noiva – Segunda Metade do séc. XX e início do séc. XXI'. Foto: mediotejo.net

Inaugura este sábado uma exposição de Vestidos de Noiva em homenagem à modista mourisquense Adelina de Jesus Lopes Pedra Rosa (1934-2016), mostrando 32 vestidos criados num período de meio século. O jornal mediotejo.net esteve nos ‘bastidores’ da exposição organizada pela ADIMO – Associação de Desenvolvimento Integrado de Mouriscas (patente na EPDRA até 1 de setembro), para tentar perceber o génio de Adelina de Jesus.

Uma vida inteira entre tesouras, agulhas, linhas e a confeção de vestidos de noite ou para o chá, de passeio, com corte elegante e fino acabamento, mas as preferências de corte e costura de Adelina de Jesus Lopes Pedra Rosa passavam pelos vestidos de noiva.

Precisamente a temática da ‘Exposição de Vestidos de Noiva – Segunda Metade do séc. XX e início do séc. XXI’ realizada pela ADIMO – Associação de Desenvolvimento Integrado de Mouriscas, com inauguração marcada para este sábado, 3 de agosto, no Centro Escola da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA), em Mouriscas, Abrantes. Uma mostra composta por 32 vestidos costurados pela modista mourisquense, na sua maioria pertencentes a famílias de Mouriscas, sendo o primeiro vestido da Exposição de 1961 e o último de 2010.

A ideia da Exposição surgiu em 2014, “num almoço das costureiras organizado pelas aprendizes da mãe da homenageada”, explicou Maria do Céu Fernandes, fundadora da ADIMO, atual vice-presidente da associação e cliente de Adelina durante muitos anos. Aliás, o seu vestido de casamento também nasceu das mãos da modista mourisquense.

Retrato de Adelina de Jesus Lopes Pedra Rosa. ‘Exposição de Vestidos de Noiva – Segunda Metade do séc. XX e início do séc. XXI’. Foto: mediotejo.net

O desafio para a mostra partiu de Maria do Céu junto de Adelina de Jesus Lopes Pedra Rosa. “Esteve empenhadíssima, ainda contactou algumas pessoas pedindo os vestidos, os respetivos dados, fotografias e autorização para a exposição. Era uma pessoa curiosa em aprender, com muito bom gosto e que sempre acompanhou a evolução da moda. O último vestido costurou-o em 2010 para uma noiva de Abrantes”. Adelina faleceu em 2016.

Na juventude, provavelmente influenciada pelo ambiente da sua “família de costureiras”, adquiriu gosto pelos tecidos e pela criação de vestidos glamorosos, o que a levou até à capital. A mãe de Adelina de Jesus foi uma modista “muito conceituada” em Mouriscas durante os anos 1940/1950, “conhecida por Maria da Portela”, tal como a tia, e ambas tinham aprendizes de costureira em casa, num Portugal do Estado Novo, sem pronto-a-vestir.

Adelina, “aos 12 anos, após completar a quarta classe, partiu para Lisboa, ingressando na Escola Madame Justo”, uma escola de corte, costura, bordados e chapéus, com alunas internas e externas, onde se diplomou em 1946, como muitas outras raparigas de diversas regiões do País, naquela que era “a maior organização do género em todo o império português”, podia ler-se no boletim desta escola de referência, à época.

‘Exposição de Vestidos de Noiva – Segunda Metade do séc. XX e início do séc. XXI’. Foto: mediotejo.net

Ainda menina, num País pobre, atrasado e atado a preconceitos, acostumada à ruralidade de Mouriscas viajou para Lisboa hospedando-se em casa de Madame Justo, “o pai que era ferroviário, estava em Santa Apolónia, ia visitá-la regularmente mas foi um passo de coragem, de alguém muito forte, que sabia o que queria fazer. O curso custou 300 escudos. Era muito dinheiro!” afirma.

Regressada de Lisboa, Adelina “integrou-se no ambiente familiar de costura, recebendo também os ensinamentos da mãe. Nas últimas décadas tornou-se numa modista de alta costura, dando atenção aos pormenores, também graças a muitas ajudantes com quem trabalhava e à sua irmã Maria Amélia Pedra Serras”.

Casou em 1955 com um rapaz de Mouriscas funcionário da Companhia dos Telefones. E levantada a toalha da boda começava a contagem decrescente para uma nova vida. Adelina volta a Lisboa para residir e trabalhar até finais dos anos 90 do século passado. Sempre com um pé em Mouriscas.

‘Exposição de Vestidos de Noiva – Segunda Metade do séc. XX e início do séc. XXI’. Lista de alunas diplomadas em 1946.

Adelina de Jesus Lopes Pedra Rosa enviuvou jovem, ficando na companhia do seu único filho, João Manuel Rosa, optou por permanecer em Lisboa. “Já tinha uma carteira de clientes muito boa, também de famílias de Mouriscas que viviam em Lisboa. Uma clientela diversificada e seleta. Era conhecida nas boas casas de tecidos de Lisboa; Casa Sousa, Pandora, Londres Salão, em várias lojas de referência onde combinava com a cliente para escolher o tecido, num atendimento personalizado”, revela Maria do Céu Fernandes.

Mais tarde “começaram a aparecer os figurinos de costureiros, figurinos especializados de casas de alta costura, nomeadamente do Porto. Em cada estação enviavam os modelos e ao lado os tecidos para a confeção. Os fornecedores não enviavam os catálogos a qualquer modista, apenas àquelas que sabiam ter capacidade de execução. Era uma senhora de gosto requintado”, recorda.

Maria do Céu conta que em Lisboa, decorriam então as visitas às lojas, as escolhas dos tecidos e modelos, as provas das clientes se residentes na capital, mas os acabamentos primorosos “sobretudo a partir dos anos 90, eram finalizados em Mouriscas, porque Adelina não podia fazê-lo sozinha. Aí teve um papel fundamental a irmã Maria Amélia Pedra Serras e outras ajudantes, que finalizavam aqui os vestidos”.

‘Exposição de Vestidos de Noiva – Segunda Metade do séc. XX e início do séc. XXI’. Maria do Céu Fernandes. Foto: mediotejo.net

Em 1999 recuperou a casa da mãe e regressa definitivamente à sua aldeia natal. Na Exposição pode ver-se, não só o diploma da escola Madame Justo como também a máquina de costura da mãe, na qual Adelina iniciou a sua atividade de modista.

A ‘Exposição de Vestidos de Noiva – Segunda Metade do séc. XX e início do séc. XXI’ é composta por mais de três dezenas de vestidos, incluindo dois de “segundo dia” e outros dois de “meninos das alianças” e percebe-se, até pela disposição das peças, a influência política, da história de Portugal, nos vestidos de noiva.

Até certo ponto, o tradicional vestido de noiva continua a ser branco, representando a pureza, uma “moda” atribuída à rainha Vitória no século XIX, embora não haja consenso sobre a veracidade desse facto. Momentos houve e que o vestido de noiva se apresentava bastante luxuoso e imponente, para mostrar aos convidados que as famílias tinham posses. Ou não, dependendo da classe social dos noivos.

Por isso, os vestidos dos anos 1960 são de corte simples embora sem descurar o realce da feminilidade, com cortes império, as mangas longas ou mais curtas mas compostas com luvas. Um ornamento quase constante nos vestidos de noiva de Adelina é o laço na parte traseira da peça, seja pequeno, médio ou enorme.

‘Exposição de Vestidos de Noiva – Segunda Metade do séc. XX e início do séc. XXI’. Foto: mediotejo.net

No inicio dos anos 70, época de alguma irreverência e do rock & roll que chegava a Portugal tardiamente, as mini-saias apropriavam-se também das noivas. Com o 25 de Abril de 1974 os vestidos ficaram mais despojados, os noivos casavam de gola alta e os vestidos mudavam de cor, arriscando os tons amarelos, bege e azuis.

Pelo meio tiveram o seu tempo as mangas balão, as aplicações de pedras ou pérolas, os botões forrados aplicados nas costas e os bordados. Nos últimos anos, verifica-se uma mudança na linha. A cintura bem marcada a modelar o corpo da mulher, enquanto as mangas e as saias perderam o volume. Com a entrada no novo milénio, os decotes progrediram para cai-cais.

‘Exposição de Vestidos de Noiva – Segunda Metade do séc. XX e início do séc. XXI’. Foto: mediotejo.net

Para esta Exposição a ADIMO contou com o apoio da família de Adelina, o apoio técnico do Museu Nacional do Traje e da Santa Casa da Misericórdia de Atouguia da Baleia, de onde chegaram os manequins. Simão Pita foi responsável pelos desenhos do cartaz e catálogo, o presidente da associação, Humberto Lopes, pela fotografia, num trabalho conjunto que envolveu cerca de 10 pessoas, entre elas Dalila Margarido, Maria João Gonçalves, Olegário Teixeira, Virgínia Valente e Filipe Santos, na execução.

A pesquisa, para recolha de toda a documentação histórica, iniciou-se ainda em 2015, resultando na Exposição que agora inaugura num espaço dividido por duas salas.

‘Exposição de Vestidos de Noiva – Segunda Metade do séc. XX e início do séc. XXI’. Caderno de apontamentos de Adelina. Foto: mediotejo.net

Maria do Céu Fernandes é natural de Mouriscas e autora do texto para o catálogo da Exposição. À semelhança de Adelina, passou grande parte da vida na capital, onde trabalhou para o Ministério da Agricultura, na área do desenvolvimento local. Regressou às origens após a reforma.

Deu conta ainda de outra iniciativa associada à mostra: no dia 26 de agosto, segundo a lotaria, decorrerá um sorteio de rifas cujo prémio será um tabuleiro de frete (com mel, vinho, pão de ló, etc) a recriar o tradicional que era oferecido aos padrinhos dos noivos.

A Exposição abre ao público no dia 4 de agosto para ficar até dia 1 de setembro no Centro Escolar da EPDRA. E pode ser visitada aos sábados, domingos e feriados das 15h00 às 19h00.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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