Espaço museológico da ACROM, Mouriscas. (da esquerda para a direita) Abílio Margarido, António Pimenta Gonçalves, Fernanda Maia, António Louro e Aristides Lopes. Foto arquivo: mediotejo.net

Mouriscas inaugurou este domingo o espaço museológico da ACROM, com um espólio emprestado por mourisquenses, constituído por mais de 800 peças que evocam o mundo rural e doméstico de antigamente. O mediotejo.net esteve na sede da Associação Cultural e falou com os promotores da iniciativa.

O espaço museológico da Associação Cultural das Rotas de Mouriscas, em Mouriscas, era uma ideia que pairava nas cabeças dos elementos da direção da ACROM perante o “espólio valiosíssimo existente em Mouriscas, embora mais ou menos escondido”, explicou ao mediotejo.net António Louro, o presidente da direção.

O espólio museológico emprestado por duas dúzias de mourisquenses, está exposto na atual sede da Associação, e é constituído por 832 peças – contabilidade feita dois dias antes de abrir ao público – que evocam o mundo rural e doméstico de eras mais antigas, com secções temáticas, duas dedicadas à fotografia e à escrita de autores de Mouriscas.

“Sentimos que precisávamos de um espaço mais central e amplo para avançarmos para outras iniciativas” como o ‘museu’, o terceiro que existe na aldeia mas na verdade “o único acessível diariamente ao público porque os outros dois estão fechados”, explica António Louro.

Espaço museológico da ACROM, Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

Para compor o espaço museológico, a ACROM lançou mãos à obra “pedindo aos mourisquenses peças que tinham em casa guardadas, que pertenceram aos pais, aos avós. Tivemos muitas ofertas, algumas já não conseguimos aceitar. Para isso precisávamos de mais espaço. Sabemos que as peças existem, mas para as expor seria necessário cinco salas com as mesmas dimensões daquela que foi escolhida para o ‘museu'”, nota o presidente, referindo “uma grande arca em choupo, o trilho de debulhar cereais ou as rodas aguadeiras”.

Conseguir um edifício maior “já foi falado” com a Junta de Freguesia no sentido da Associação partir para outro projeto incluído no plano de atividades de 2019, “o Centro Interpretativo das Ribeiras, da Vida Rural e Doméstica, para acolher todo esse espólio. Aqui está uma pequena amostra”, avança António Louro.

Na verdade, um espaço museológico dedicado a ofícios antigos, aos barcos do Tejo – com réplicas de bateira, fragata e picareto construídos em madeira por Vitor Grilo -, aos modos de vida da ruralidade onde podemos ver como era composta uma cozinha antiga, as loiças, pratos com mais de cem anos, os utensílios, a panela de ferro de cozinhar no chão da lareira, as candeias ou os ferros de engomar a carvão.

Reproduz também uma zona de ‘casa de banho’ com o lavatório, penico e o balde para tomar duche, mostra roupas de casa bordadas à mão, peças de vestuário e trajes tradicionais. No meio da sala um tear com três rocas e a respetiva dobadoura, diversas balanças, charruas e outras ferramentas de trabalhar na terra, bilhas de azeite, de queijos, de água para ter em casa ou na escola quando esta ainda não chegava canalizada, serras e serrotes e toda uma panóplia de objetos usados nas artes e ofícios antigos alguns já desaparecidos.

E como o ‘museu’ é de Mouriscas, terra com tradição na espartaria, não faltam as esteiras, as seiras e capachos e até um seirão habituado ao lombo dos burros no transporte de cântaros das fontes.

Espaço museológico da ACROM, Mouriscas. António Louro mostra a cabaça para tirar o vinho da talha. Créditos: mediotejo.net

Entre as peças preferidas dos elementos que integram a direção da ACROM está o tear que pertencia a uma das última tecedeiras mourisquenses, entretanto desaparecida, Deolinda Azedo, a forma de seiras e capachos por estar relacionado com o passado de Mouriscas na relação com as espartarias que chegou a empregar centenas de pessoas, o rodízio de azenha, o objeto preferido de António Pimenta Gonçalves, secretário da direção, até porque, segundo conta, foi moleiro.

“Identifica-se muito com o meu início de vida. Trabalhei num moinho de água, na ribeira. O meu pai tinha azenhas e uma moagem elétrica no centro da freguesia. A minha juventude desde que saí da escola até aos 16 anos foi a fazer farinha. Era precisa saber picar as pedras, pô-las a trabalhar…” conta acrescentando que “infelizmente não tem a quem passar esse conhecimento. É uma pena perdermos este património”, lamenta.

Abílio Margarido, presidente da Assembleia Geral, lembra que a exposição integra “peças muito raras” exemplificando com o parafuso de lagar de vara. “Tem muita graça transferir algum património que gostamos para aqui e vir vê-lo com os amigos. Aqui tem outro gosto! Há sempre histórias para partilhar, que se acrescentam, e conseguimos valorizar peças que em casa acabam por morrer num canto”.

Uma exposição de peças antigas feita com “carolice”, a maneira encontrada para “dar vida a uma terra e viver o nosso passado ou dos nossos. De outra forma perde-se tudo”, reforça Abílio.

Por seu lado, Aristides Lopes escolhe uma “tupia”, peça assim batizada por elaborar formatos nos topos da madeira. Um utensílio de carpinteiro para modelar madeira que o vice-presidente da ACROM escolheu pela “complexidade da máquina”.

Espaço museológico da ACROM, Mouriscas. Aristides Lopes mostra o utensílio para furar loiça e gatear. Créditos: mediotejo.net

À entrada da porta, para além do tapete elaborado em cairo, à semelhança das seiras e capachos, encontra-se na parte de cima uma trepadeira seca e já devidamente tratada e envernizada, encontrada num dos percursos pedestres realizados pela Associação Cultural. Uma das preferidas do presidente do conselho fiscal, João Abreu.

A ACROM pretende que o espaço museológico esteja aberto ao público diariamente para visitas sem afixar um horário, estabelecido pelo tempo que os elementos da direção possam dar à comunidade. Para dinamizar o espaço, a Associação equaciona a realização de exposições temáticas ao longo do ano no sentido de “criar algum interesse para que o visitante volte” diz António Louro.

Esta iniciativa da ACROM está relacionada com a Rota Cultural e Etnográfica das Ribeiras da Arcês e do Rio Frio e do Rio Tejo de 35 quilómetros que abrange áreas dos territórios de Abrantes, Mação e Sardoal e nasceu de uma proposta vencedora do Orçamento Participativo Portugal 2017.

“Vai arrancar brevemente. Só não arrancou ainda porque o tempo não dá para tudo” mas a ACROM já é detentora do financiamento protocolado para o projeto avançar. “São três empresas a concurso privado. Lá para finais de março teremos algumas propostas para arrancar em abril” dá conta.

O projeto será executado por uma equipa multidisciplinar, integrando representantes das entidades envolvidas no protocolo. O trabalho a desenvolver por essa equipa técnica será materializado na identificação e levantamento do património natural (vestígios, pontes, azenhas, grutas, etc.), industrial urbano e histórico dos vales do Tejo, das ribeiras de Arcês e do Rio Frio; sinalização de obras de valor cultural, estabelecendo itinerários de acesso aos mesmos, promovendo a sua segurança e a sua divulgação.

O projeto dispõe de um investimento de 80 mil euros, assegurado pelo Estado Português, através da DGPC.

Espaço museológico da ACROM, Mouriscas. Fernanda Maia uma das associadas “mais entusiastas” e Aristides Lopes mostra o ‘tupia’. Créditos: mediotejo.net

Também o processo para realizar a Rota das Oliveiras Milenares vai iniciar. “Neste momento já estão inventariadas 100 oliveiras muito antigas, potencialmente milenares” outro projeto que a ACROM quer levar adiante tal como a Rota dos Moinhos. “Em Mouriscas temos 10 moinhos de vento. A ideia é fazer um roteiro temático”.

E por último o Roteiro das Fontes e Nascentes cujo inventário também já está feito. “Falamos de fontanários, cerca de 50, anteriores a 1960. São diferentes tipos de fontes: de bica, de mergulho ou fonte de chafurdo” explica Aristides Lopes.

As caminhadas pelos vários percursos, a que a ACROM já habituou os mourisquenses (e não só), continuam. A próxima já no dia 2 de março, com parcerias com outras associações como o COA – Clube de Orientação e Aventura e a Casa do Povo de Mouriscas. “Uma parceria com a EPDRA [Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes] também está pensada assim como com a Associação Palha de Abrantes” para a realização de atividades conjuntas e “criação de sinergias para se avançar noutras áreas”.

Só que nem tudo são iniciativas, e a maior necessidade da ACROM neste momento passa por “angariar sócios” refere António Louro. “Temos 220 associados mas temos de aumentar este número para poder de alguma forma minimizar os custos que temos com a renda do espaço, água, eletricidade, Internet, o contabilista e consumíveis, não só na sede como no campo como combustíveis ou óleos para máquinas” diz notando a falta de apoios oficiais, embora a associação concorra ao programa FinAbrantes “não chega”, garante.

“Não é fácil manter uma associação cultural, mas vamos conseguir” afirma confiante.

A inauguração aconteceu este domingo, 24 de fevereiro, às 11h00, na Rua da Fonte dos Amores, com vários ilustres convidados, como o presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Valamatos, e vereadores das câmara parceiras na Rota Cultural e Etnográfica, como são os municípios de Sardoal e Mação.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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