Assinatura de Sofia Areal no quadro "Círculo Céu" (acrílico sobre tela, 2015). Foto: mediotejo.net

O último dia da exposição “Circularmente falando, uma pequena antologia pessoal”, de Sofia Areal, foi assinalado este sábado, dia 28, com a exibição do documentário “Sofia Areal – Um gabinete anti-dor” no edifício Pirâmide. O realizador, Jorge Silva Melo, esteve presente para apresentar o trabalho que retrata a artista, a técnica e um dos dos traços mais salientes das suas criações, a vontade de transformar a escuridão em luz e partilhá-la através das suas obras. Falámos com ambos e, afinal, mais do que uma exposição, foi o “sol” que esteve patente na Galeria QuARTel – Galeria Municipal de Arte de Abrantes.

A exposição “Circularmente falando, uma pequena antologia pessoal”, de Sofia Areal, esteve patente ao público na Galeria QuARTel – Galeria Municipal de Arte entre os dias 10 de dezembro e o sábado passado no âmbito da parceria entre o município de Abrantes e a Galeria Neupergama, de Torres Novas. As obras despediram-se do concelho com a exibição do documentário “Sofia Areal – Um gabinete anti-dor”, o 13º realizado por Jorge Silva Melo e produzido pelos Artistas Unidos/RTP.

O realizador juntou-se à artista no edifício Pirâmide para falar sobre as imagens recolhidas em 10 dias, entre 2011 e 2016, nas pausas de outros trabalhos. Imagens que partilham os diversos traços de Sofia Areal, os que distinguem as obras e os que formam a personalidade, partindo do quadro com tons vermelho, amarelo e branco em que alguns desses traços distintivos – redondo, orgânico, dinâmico, vibrante e musculado – se destacam.

O realizador, a artista e o quadro que marca o documentário. Fotos: mediotejo.net

Os 55 minutos selecionados por Jorge Silva Melo retratam o que o realizador resumiu na frase “essa, a mão de Sofia, a mão que faz a alegria”. A própria, por sua vez, surgiu na tela acompanhada das formas redondas predominantes no seu trabalho que simbolizam a história como recurso inesgotável, que “nunca acaba, nunca se esgota”, dos pauzinhos “do chinês” com que gosta de mexer as tintas industriais, os primeiros trabalhos e os catálogos das exposições que marcam um percurso com mais de trinta anos.

A rebeldia do traço impreciso num mundo que almeja precisão, as cores cruas, a “urgência médica e nunca perder o trilho do comboio” com que pinta e desenha, as colagens, a transformação do elitismo da arte na banalidade das “bolachas” (as telas redondas), a criação de “equilíbrios no equilíbrio” e as flores também surgiram. Tudo guardado no armário dos medicamentos do “pujante” gabinete anti-dor de Sofia Areal, fechado não a sete, mas a três chaves – “alegria”, “felicidade” e “luz solar” – a que todos têm acesso.

Célia Gonçalves e Luís Dias juntaram-se a Sofia Areal e Jorge Silva Melo na conversa com o público. Fotos: mediotejo.net

Conversámos um pouco com quem esteve dos dois lados da câmara, longe da tela de cinema e perto das telas expostas na Galeria QuARTel – Galeria Municipal de Arte, sobre a vontade expressa de “vencer a negrura da noite”. Momentos antes, a artista e o realizador tinham voltado a falar com o público juntamente com Célia Gonçalves, diretora da galeria Neupergama, e Luís Dias, vereador da Cultura do município anfitrião. Entre os presentes encontrava-se Elvira Sequeira, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Torres Novas.

Jorge Silva Melo destacou a singularidade de Sofia Areal na forma como “transmite luz” através das suas obras, em contraponto com a arte portuguesa que “é sorumbática, melancólica, nostálgica”. A “miséria humana” não se enquadra nestas telas. É o “esplendor da vida” que lhes confere luminosidade e frescura, traço raro na cultura ocidental, “único em Portugal”, que o fascina.

Exposição “Circularmente fantando, uma pequena antologia pessoal” na Galeria QuARTel. Fotos: mediotejo.net

O realizador, que durante a exibição do documentário caraterizou a artista como alguém que está a “construir a sua arte”, salientou “a alegria e o sol que a Sofia canta”. Não porque esta seja “alegre”, mas porque todas as manhãs “vence a tristeza profunda” com a “luz solar”. Uma vitória diária confirmada por Sofia Areal, para quem “o medo” está sempre presente e que nem sempre consegue vencer.

A luta contínua e alimentada pela “responsabilidade” que diz sentir em “ajudar” os outros através das suas obras. Os gabinetes médicos existem por causa dos seus pacientes e, neste caso, a arte do gabinete anti-dor de Sofia Areal revela-se uma partilha de “luz solar”, de “luminosidade construída”, receitada pela artista a todos aqueles que queiram “sonhar”. Segundo esta, “com o sonho consegue-se fazer muito mais na vida”, desejando que “as pessoas se esqueçam das suas tristezas e sofrimentos através da minha pintura”.

Sónia Leitão

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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