Membros da direção da Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

A doença traz, inevitavelmente, tristeza, mas esta pode ser atenuada com solidariedade, ação que vai desde uma ajuda no transporte do doente até ao apoio no enxoval do bebé recém-nascido.

Essa solidariedade acontece no Hospital de Abrantes através de uma IPSS, que recebeu o jornal mediotejo.net a pretexto dos 20 anos da Liga dos Amigos do Hospital, assinalados em dezembro de 2021. Neste seu aniversário, a instituição formula votos de esperança num futuro mais solidário e humanista com o contributo “imprescindível” de muitos voluntários de toda as idades, “por um melhor Hospital, melhor SNS e melhor país”.

Contudo, o voluntariado é, atualmente, a maior dificuldade. Durante os dois anos de pandemia ficaram com o trabalho presencial limitado e, quando se puder voltar ao “normal”, teme-se uma quebra no número de pessoas disponíveis. “Muitos voluntários já tinham uma idade avançada e não vão voltar. Vamos ter de renovar o grupo”, diz Teresa Pimenta Correia, coordenadora do voluntariado, função que ocupa juntamente com José Alberty, lançando um apelo a quem possa juntar-se a esta missão.

A Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, de reconhecida utilidade pública mas sem acordos com a Segurança Social, que tem por objetivos estatutários comparticipar no conforto e humanização dos serviços, promover a melhoria das condições de acolhimento e tratamento dos doentes do Hospital de Abrantes, por forma a garantir a permanência das relações familiares e sociais. Nestes objetivos promove a colaboração da comunidade e suas instituições.

Para cumprir os objetivos aprovados nos estatutos, são necessários voluntários selecionados e formados anualmente, que doam o seu tempo e o seu trabalho. Os membros da Liga sublinham que “ser voluntário é também encontrar sentido para uma vida mais plena. Numa época de profunda crise do Humanismo, ressalta a imagem da solidariedade, dedicação e entrega personificada pelo voluntário hospitalar. É uma figura que pode transmitir ao doente fragilizado pela sua doença, a tranquilidade e a esperança de que necessita”.

Para o voluntariado, a Liga estabeleceu, inclusivamente, um protocolo com o Instituto Politécnico de Tomar e contava com os seus alunos. “Pelo menos uma vez por semana vinham fazer voluntariado. É bom para os alunos porque conta para o currículo. Mas este ano letivo não houve possibilidade, esperemos que em setembro consigamos um grupo do Politécnico”, diz Teresa, referindo também os alunos do ensino secundário, com mais de 18 anos, das escolas da cidade.

Além dos dois coordenadores do voluntariado, estiveram presentes na conversa com o nosso jornal o vice-presidente José Terras Marques, o secretário José Bragança Ferreira e o tesoureiro Júlio Miguel. Ao falar do trabalho dos voluntários ao longo destes 20 anos salientaram “o papel ímpar e exemplar” de Isabel Alberty, enfermeira e coordenadora do voluntariado “que criou, organizou e dinamizou, sendo ainda hoje uma referência mobilizadora (até do marido), só semelhante à sua mãe”, Maria Ramiro Godinho, também voluntária.

“Temos várias funções, uma delas é na consulta externa acompanhar as pessoas que estão na sala de espera” oferecendo “chá, bolachas e rebuçados, revistas, jornais e conversar com as pessoas que, por vezes, estão ali muito tempo”, explica Teresa. Também “apoio num dos bares e as visitas nas enfermarias, almoços e jantares. Estávamos na ortopedia e nas medicinas. Uma escala de voluntários para apoiar na alimentação. Tínhamos também uns grupos que vinham à hora da visita para os doentes sem visitas e conversar. Tudo isso acabou há dois anos”, acrescenta. A Liga aguarda por isso instruções do Ministério da Saúde para o regresso do voluntariado no apoio e no conforto aos doentes.

Membros da direção da Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes (da esquerda para a direita) Júlio Miguel, José Terras Marques, José Bragança Ferreira e José Alberty. Créditos: mediotejo.net

A direção da Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes, na prossecução dos seus objetivos estatutários e para corresponder à dinâmica do voluntariado, cedo tomou consciência da necessidade de obter mais recursos além da quotização, insuficiente. Assim, propôs ao Conselho de Administração, e foi concedido com protocolo, a exploração do café Bar do Hospital. Esta circunstância é considerada “decisiva” pela direção para o percurso meritório da Liga, em coordenação permanente com o Serviço Social e o Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo.

Segundo Teresa Pimenta Correia, os doentes “aderem muito bem” às iniciativas da Liga. “Muitos dizem: lá vem a bata amarela. De semana para semana, são as únicas pessoas que conversam com esses doentes. Não há possibilidade das enfermeiras pararem horas à conversa, nem das auxiliares, é um corre corre, há muito pouco pessoal, por isso é uma falta tão importante”.

Um apoio aos doentes que o vírus SARS-CoV-2 “veio parar completamente”, lamenta tal como estagnou a parte financeira, uma vez que um dos bares, junto à entrada da área covid, encerrado desde o inicio da pandemia. “E já não vai abrir enquanto não decorrem obras”, afirma Júlio Miguel, referindo-se à alteração física da consulta externa no Hospital de Abrantes.

Em jeito de compensação, até à chegada da pandemia, aos voluntários a Liga oferecia um jantar e um presente de Natal, e no final do ano uma viagem lúdica. Também todos os doentes internados no Hospital pelo Natal recebiam um presente, mas “este Natal não houve distribuição dos presentes”, diz, lembrando as mantas guardadas.

A Liga presta apoio não apenas ao doentes mas também aos próprios funcionários do Hospital, na medida em que os seus bares, abertos 365 dias por ano, possuem preços de caráter social, e ainda efetuam doação de bens alimentares ao Projeto Homem (recuperação de toxicodependentes).

Júlia Miguel constata que “as visitas terminaram” com a pandemia, “a consulta externa está espalhada por vário locais do Hospital, portanto não há um local fixo”, o que originou um decréscimo significativo nas receitas da instituição.

A Liga assegura ainda o funcionamento de um bazar para funcionários e visitas com venda de jornais, revistas e jogos Santa Casa e mantinha o emprego de 11 trabalhadores. Neste momento emprega 9 funcionários. “Este contexto obrigou a rescindir contrato com duas colaboradoras”, lamenta o tesoureiro.

Este percurso de “luta por ideais nunca foi fácil, como neste tempo de pandemia não o é”, admite o vice-presidente. Apesar de tudo, a Liga ao comemorar 20 anos de existência “tem conseguido manter a atividade possível, procurando ajustes e alternativas para continuar a apoiar situações de carência de doentes no nosso Hospital, sempre atentos à evolução para o retorno à normalidade”, acrescentou.

Entrega de uma viatura de 9 lugares, para transporte dos funcionários do CHMT que a Liga de Amigos do Hospital de Abrantes ofereceu ao Centro Hospitalar do Médio Tejo. (foto de arquivo)

Isto é, “os apoios essenciais nunca pararam”, nota José Terras Marques. E esses apoios passam pelo fornecimento de bens como medicação à população carenciada, alimentação especifica a crianças e doentes do ambulatório, apoio a transportes, funerais sociais, aparelhos designadamente na ortopedia ou apoio a bebés e grávidas.

“Aqueles que são validados pelo Serviço Social do Hospital, que identifica essas carências”, explica Júlio Miguel, lembrando o projeto Tricotanças, em que a Liga oferece as matérias primas, como a lã, tricotada depois por voluntários que fazem nascer gorros para o primeiro enxoval dos recém-nascidos na maternidade de Abrantes.

Ou seja, “muito empenho e trabalho” do voluntariado gerava “significativas ações em benefício do doente e do Hospital” que muito contribuíram para a credibilidade interna e externa da Liga. Este reconhecimento possibilitou o apoio da Câmara Municipal de Abrantes, de empresas e até de mecenas a título individual “para a resolução de importantes problemas do nosso Hospital sendo os mais relevantes a instalação e equipamentos da nova Unidade de Esterilização e a impermeabilização e pintura do hospital” estas últimas intervenções com um valor a rondar os 400 mil euros, refere José Terras Marques.

“Nem um tostão é para ser gasto fora do Hospital nem a favor de alguém que não seja doente do Hospital”, sublinha, incluindo nessa contabilidade um montante pecuniário anual entregue ao Hospital e estabelecido através de protocolo.

A Liga dos Amigos do Hospital conta com centenas de associados mas apenas cerca de 100 com as quotas em dia. “Não queremos tomar a iniciativa de limpar ficheiros, mas se olhar para o ficheiro dos sócios estarão umas 300 pessoas. Contudo, não é a quotização que dá sustentabilidade financeira à Liga”, refere por seu lado o tesoureiro.

A ajuda da Liga manifesta-se então em duas áreas, de apoio a doentes e aquisição de equipamentos hospitalares e lazer e reabilitação de estruturas. Em conformidade com a lei do mecenato a Liga oferece equipamentos hospitalares, podendo destacar-se, além dos equipamentos e intervenções já referidas: remodelação do refeitório principal; participação na aquisição do Kardec, sistema de distribuição do medicamento-unidose para o Centro Hospitalar; 60 televisores; um ecocardiógrafo e duas camas elétricas para a UCI; dois aparelhos para terapia anodyne para cirurgia; uma viatura de 9 lugares para transporte de funcionários; oito macas Medivara para a Urgência; climatização da Capela; pavimentação da UCIP; um dispositivo para monitorização cerebral para a UCIP; um manequim pediátrico com caixa de sinais vitais e entre muitos outros equipamentos. Além disso, a Liga apoia a formação de médicos.

Um trabalho de uma IPSS que também é uma empresa, devido à gestão dos bares e do bazar. “Pagamos IRC, IVA, temos os nossos encargos com a Segurança Social, com a Autoridade Tributária”, explica Júlio Miguel, dando conta da dimensão do tempo dado aos outros por cada elemento da direção.

Há 20 anos, aquando da fundação da Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes, foi pioneira no Médio Tejo, e, mesmo no país, contavam-se pelos dedos de uma mão o número de instituições. A Liga nasceu do sonho do seu fundador e atual presidente Luís Filipe Moura Neves Fernandes, prestigiado médico-cirurgião, que presidiu à comissão instaladora do novo Hospital e ao seu Conselho de Administração, durante 16 anos, até à sua aposentação, em 2001.

“É com o seu perfil humanista e uma obstinada procura da excelência que naturalmente incute a sua liderança neste projeto da Liga dos Amigos do Hospital de Abrantes”, sublinhou José Terras Marques.

O médico cirurgião Luís Fernandes ao lado de uma painel de azulejos com a imagem de Manoel Constâncio que dá nome ao Hospital de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Foram 23 os sócios fundadores, lembra, por seu lado, o enfermeiro José Bragança Ferreira, sendo o próprio sócio fundador e reconhecido entre os seus pares como “um homem bom sempre disponível e interessado em ajudar o próximo”.

A partir dessa data “iniciou-se um trabalho de prospeção de sócios, entre os quais a enfermeira Isabel Alberty, iniciadora do processo do voluntariado e a Liga foi para a frente e está consolidada. Nos últimos anos temos podido auxiliar quem chega até nós, beneficiar enormemente o Hospital”, acrescenta.

Mesmo durante a pandemia, a direção, com mandato de quatro anos, reuniu todas as quartas-feiras, recorrendo às novas tecnologias sempre que as circunstancias impediam a forma presencial.

Os órgãos sociais são constituídos por 16 sócios eleitos, sendo atualmente presidente da mesa da assembleia geral Silvino Maia Alcaravela e do conselho fiscal Eurico Gil da Silva.

“A responsabilidade é imensa e não é fácil motivar as pessoas mais jovens para estes cargos associativos. Queremos renovação, mas é um processo muito complicado”, nota Júlio Miguel.

No entanto, o balanço destes 20 anos “é muito positivo”, garante José Terras Marques. Agora resta esperar pela “normalização” o mais rapidamente possível e que “o voluntariado comece a exercer a sua atividade”.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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