O apicultor Nuno Barreta num dos seus apiários em Mação. Créditos: mediotejo.net

Com “a pior seca dos últimos 100 anos”, como revelou no mês passado o ministro do Ambiente, também os produtores de mel de Mação anseiam por chuva. Ontem já era tarde mas ela terá de vir o mais tardar em setembro – é a própria sobrevivência das colmeias que está já em causa, e não apenas a produção de mel. Os apicultores falam em quebras de produção superiores a 50% (nalguns casos chegaram aos 80%), em colmeias mortas devido às elevadas temperaturas e na necessidade de alimentar as abelhas artificialmente, porque o mel que resta talvez não assegure a sobrevivência das colmeias.

Além disso, as abelhas são vitais no equilíbrio da biodiversidade. Cerca de 75% da produção mundial de frutos e sementes depende da ação destes insetos polinizadores.

Por isso, reclamam apoios do Estado. O produtor apícola e dirigente associativo, Nuno Barreta, lembra que na agricultura existem apoios para outros animais devido à seca, como vacas ou cabras, mas as abelhas são esquecidas. “Não há nenhuma medida comunitária de apoio à apicultura. Existem muitas medidas de apoio relacionadas com a terra, com a superfície, enquanto o apicultor não é subsidiado pelo número de colmeias que possa ter”.

Produção de mel. Foto: DR

Explica ao mediotejo.net que “a apicultura é uma atividade essencial para manter a biodiversidade, para a sobrevivência de algumas espécies na flora, mas os apicultores não têm apoios. O único apoio existente, através do Programa Apícola Nacional, subsidia a aquisição do tratamento para a varroa, um tratamento obrigatório”.

Este produtor, que é também presidente do Conselho Fiscal da Cooperativa de Apicultores de Mação, Melbandos, possui cerca de 500 colmeias distribuídas pelas freguesias do concelho. Um dos seus apiários encontra-se num terreno perto da vila de Mação, o qual visitámos. Enquanto explica ao nosso jornal os problemas que enfrenta devido à seca, devidamente equipado com fato protetor (nós também), prepara a abertura de uma das cerca de 40 colmeias, onde pudemos ver os favos sem mel e a cera a derreter.

Com a seca e as temperaturas extremas as abelhas estão a sofrer fortemente. “As altas temperaturas, tal como são prejudiciais para o ser humano, são também para a flora e para a fauna. Este ano é atípico, choveu pouco, logo a abelha precisa de se alimentar e não há flores nem néctar”.

O apicultor Nuno Barreta num dos seus apiários em Mação. Créditos: mediotejo.net

As alterações climáticas refletem-se na produção. “Os apicultores com quem tenho falado têm todos quebras de produção acima de 50%, há apicultores com 70% e 80% de quebra de produção”, revela.

Nuno Barreta, que diz ter tido uma perda na produção de mel na ordem dos 60% este ano, manifesta-se preocupado com os custos da alimentação artificial para as abelhas, “à base de concentrados vitamínicos e proteicos, com glicose”, preparados específicos para a apicultura, devido à falta de alimento natural nos campos. Com as alterações climáticas, “há apicultores que já começaram a alimentar as colmeias”, assegura.

Desde maio, a campanha deste ano ficou comprometida, porque as flores do rosmaninho, flora dominante, secaram precocemente devido às altas temperaturas e à seca, sendo este mel “o mais valorizado” (o mel de rosmaninho é retirado a partir do final de junho) e de “excelente qualidade” em Mação, “com apicultores já premiados a nível nacional”. A partir daí “as abelhas deixaram de produzir mel, pólen e outros produtos” como o própolis e a cera, igualmente comercializada.

Tal cenário significa “menos mel português” e, como consequência, “a concorrência com o mel vindo de outros países e ficamos em desvantagem porque a rotulagem deveria ter critérios mais rigorosos”, considera. Explica que a exigência da rotulagem divide “em mel UE (União Europeia) e mel não UE. Concorremos com mel não UE, por exemplo vindo da China, quando em Portugal somos obrigados a fazer tratamentos para as doenças da abelha com produtos homologados enquanto o mel chinês, a preços muito mais baixos, não se sabe quais foram os produtos utilizados para o tratamento das doenças das abelhas e logo a qualidade não será certamente a mesma”, alerta o produtor.

Acresce à alimentação artificial, a necessidade de água, essencial para a refrigeração das colmeias. “Os apiários que estejam distanciados das fontes de água, os apicultores têm de providenciar a existência de água e colocam depósitos perto. Uma colmeia forte precisa de manter humidade para que as abelhas consigam refrigerar durante o calor excessivo. A colmeia fraca não consegue levar humidade suficiente à colónia e morre”, refere.

Abelhas num apiário em Mação. Créditos: mediotejo.net

Nuno Barreta dá conta de um número significativo de morte de abelhas devido às altas temperaturas. “As abelhas não conseguem refrigerar a colmeia, a cera acaba por derreter e é um terramoto dentro da colmeia que acaba por morrer. A rainha é a única abelha dentro da colmeia que põe ovos, para nascerem novas obreiras e zangões, a postura da rainha é proporcional à entrada de néctar e pólen na colmeia, se não há alimento no exterior, logo a rainha vai diminuir a sua postura o que enfraquece a colmeia porque a abelha tem um determinado tempo de vida e se não é substituída por outra corre maior risco”.

Nuno Barreta dá conta que desde a cresta (recolha do mel) contabiliza mais de 30 colmeias mortas. “Só este fim-de-semana, de um apiário, foram seis colmeias mortas”.

Como se sabe as abelhas têm um papel essencial nos ecossistemas e na biodiversidade. 76% das plantas utilizadas na nossa alimentação dependem de polinizadores para a sua produção, como as árvores de fruto e os produtos hortícolas, e sendo 66% das espécies polinizadoras as abelhas. De salientar que os seres humanos não são os únicos animais a beneficiar dos alimentos que existem graças às abelhas.

O apicultor Nuno Barreta num dos seus apiários em Mação. Créditos: mediotejo.net

Espanhóis colocam colmeias em Portugal e prejudicam produção nacional

Outro tema que preocupa os apicultores de Mação está relacionado com as “transumâncias não autorizadas”, ou seja, com a mudança das colmeias de um local para outro, embora o problema tenha maior significado a norte do Médio Tejo e também no Alentejo.

“Um apicultor português não tem apoios comunitários, não há medidas internas ou externas para o apoiarem, enquanto os apicultores espanhóis têm subsídio até para a transumância, ou seja, aproveitam a floração para vir colher mel a Portugal”, critica.

O produtor conta que “muitos espanhóis trazem colmeias para colheita de mel ou de pólen na nossa região, trazem camiões cheios de colmeias que colocam no campo, próximas dos nossos apicultores – há legislação que regulamenta a proximidade entre apiários –, não respeitam as nossas regras para a transumância e não são fiscalizados” prejudicando a produção portuguesa, denuncia.

Vespa asiática. Foto: DR

Quanto à vespa asiática, instalada no Médio Tejo há cerca de seis anos, considera “não ser um problema unicamente dos apicultores, mas de saúde pública. Todos os apicultores se preocupam com a vespa asiática e, de alguma maneira, tentam proteger os seus apiários com instalação de armadilhas, com a colocação de harpas (grelhas elétricas), alguns municípios também têm ajudado os apicultores na distribuição das armadilhas. A Melbandos tem ajudado dentro do possível em colaboração com a Câmara de Mação, na distribuição de armadilhas”, sendo que “pela primeira vez” a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo “ajudou os apicultores com a distribuição de armadilhas. Reflete que a comunidade finalmente está a perceber que é uma problema de todos”.

A Melbandos, fundada em 2013, integra 80 associados com mais de 10 mil colónias. Tendo em conta a especificidade dos três tipos de mel dominantes na região – Rosmaninho, Urze e Multiflora -, abrangendo os concelhos de Mação, Sertã, Vila de Rei e Proença a Nova.

O apicultor Nuno Barreta num dos seus apiários em Mação. Créditos: mediotejo.net

Relativamente ao futuro, Nuno Barreta nota que a apicultura “é a atividade dos resilientes”. Apesar dessa característica intrínseca, com as alterações climáticas e se não chover brevemente “muitos apicultores estão a pensar em desistir e muitos já desistiram porque é andar a correr atrás do prejuízo”.

Nas contas somam-se as despesas da alimentação das abelhas “se quisermos manter as nossas colmeias vivas até à próxima floração”, mais o aumento dos combustíveis, importantes para a apicultura, pela necessidade de mudar as colmeias de um sítio para o outro, portanto, os custos já se fazem sentir no litro de mel, que chega mais caro ao consumidor.

“Este ano com os efeitos da guerra [na Ucrânia] o preço do vasilhame duplicou, um frasco de vidro que custava 50 cêntimos está próximo de um euro e há muitos fornecedores que não têm para entrega. Neste momento quem ficar na apicultura é mesmo porque gosta e por masoquismo”, opina.

Além de apicultor Nuno Barreta é enfermeiro, na unidade de Saúde Pública do Médio Tejo no Centro de Saúde de Mação, e vereador na Câmara Municipal de Mação. Dedica parte do seu tempo às abelhas, particularmente aos fins-de-semana. “A apicultura é daquelas coisas que se gosta ou não se gosta. Aprendi a gostar em criança, com vizinhos amigos. Comecei a ter o incentivo, a ter algumas colmeias e há cerca de 8 anos decidi que queria crescer como apicultor e fiz um projeto PDR 2020 para colmeias com a construção de uma melaria”, lembra.

O apicultor Nuno Barreta num dos seus apiários em Mação. Créditos: mediotejo.net

Para tal criou uma empresa e uma marca – a ApiBarreta. “Uma empresa familiar onde toda a família ajuda e tentamos sobreviver porque neste momento a apicultura, como todas as atividades agrícolas, está a passar um mau bocado”.

Para já, Nuno Barreto pensa continuar. “Porque sou jovem e não posso desanimar na primeira contrariedade, mas tenho de pensar e escolher. Entre exercer apicultura para ter prejuízo ou ter alimento para a família… se calhar primeiro a família.”

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.