Pomonas Camonianas, regressam a Constância. Créditos: Ricardo Escada

As Pomonas Camonianas envolvem uma parceria entre a Câmara Municipal, a Casa-Memória de Camões e o Agrupamento de Escolas de Constância, sendo este o rosto mais visível do evento uma vez que são alunos e professores quem dinamiza a maioria das atividades que levam Camões a percorrer o centro histórico da vila poema durante dois dias: 9 e 10 de junho, coincidindo com o Dia de Portugal, de Camões, e das Comunidades Portuguesas.

A estes, juntam-se associações e instituições do concelho, que também marcam presença no Mercado Quinhentista recriado no parque de merendas. Foi neste local que decorreu a cerimónia oficial de abertura na tarde de sexta-feira, durante a qual atuaram os alunos do coro do ensino articulado da música (5º, 6º e 7º anos) da Escola Luís de Camões.

O programa de sexta-feira incluiu uma prova de orientação noturna e o espetáculo teatral ‘A Viagem’, baseado na obra de Luís de Camões por alunos e professores do Agrupamento de Escolas de Constância.

O dia 10 de junho iniciou com um concurso de pintura ao ar livre, feira de antiguidades e velharias e duas palestras na Casa-Memória de Camões. À tarde, decorreu a tradicional deposição de flores no monumento a Camões, e houve ainda espaço para declamações, animação de rua e um espetáculo de fogo.

“Falar de Pomonas em Constância é falar de tradição, aquilo que é Camões em Constância, aquilo que cada um de nós recorda e cada um de nós vai absorvendo da cultura e da tradição de um povo”, começou por dizer a diretora do Agrupamento de Escolas de Constância, Olga Antunes, sublinhando que a vila poema é “a única terra de Portugal que tem a Casa-Memória Camões”.

Uma ideia de que “é importante preservarmos aquilo que é nossa e está enraizado num povo. Só quando temos segurança naquilo que é a nossa terra, quando conhecemos efetivamente as nossas tradições, quando conhecemos o nosso passado podemos olhar para o futuro de uma forma diferente porque é o nosso passado que nos faz alicerçar o futuro”, acrescentou a diretora.

Olga Antunes sublinhou que os professores tentam enriquecer os jovens não só com os conteúdos programáticos dentro da sala de aula” mas também “com os conteúdos programáticos fora da sala de aula, com a atividade que sai da escola e cruza com a tradição e a comunidade mais alargada”.

Constância celebra Camões de forma especial com as Pomonas Camonianas. Foto: CMC

A recriação histórica a cargo novamente de centenas de alunos do pré-escolar ao ensino secundário, apoiados pelos professores e auxiliares de ação educativa do agrupamento de escolas de Constância, e encarregados de educação que trajaram a rigor para personificar os mercadores, membros do clero, nobres e plebeus.

As Pomonas Camonianas “é uma atividade que pretendemos que seja cada vez mais alargada, que tenha cada vez mais visibilidade enquanto atividade promotora de aprendizagens diferentes e é por isso que faz parte do Plano Nacional das Artes e da primeira bienal do Plano Nacional das Artes”, referiu ainda Olga Antunes durante o seu discurso na cerimónia de abertura do evento.

ÁUDIO | DIRETORA DO AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE CONSTÂNCIA, OLGA ANTUNES

Constância tem com Camões uma muito antiga e enraizada relação, fundada na plurissecular tradição de que o poeta terá vivido na vila durante algum tempo, tendo ali escrito parte da sua produção poética.

Sobre as ruínas que o povo aponta como tendo sido as da casa que o acolheu, foi erguida há 20 anos a Casa-Memória de Camões para perpetuar a memória do poeta à vila ribatejana.

Em Constância, existem ainda o Monumento a Camões do mestre Lagoa Henriques e o Jardim-Horto Camoniano, desenhado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles, que apresenta a maior parte das plantas referidas por Camões na sua obra e é considerado um dos mais vivos e singulares monumentos erguidos no mundo a um poeta.

“Poucas terras do nosso País dão este destaque a um dos maiores vultos da nossa cultura e da nossa escrita. Um trabalho desenvolvido pelo dr. Adriano Burguete que assente na tradição oral do nosso povo passou de geração em geração, desenvolveu os primeiros trabalhos sobre a presença de Camões na nossa vila”, começou por lembrar o presidente da Câmara Municipal.

Um trabalho que foi aprofundado e desenvolvido “com uma tenacidade, vivacidade e resiliência” pela jornalista Manuela de Azevedo que “dedicou grande parte da sua longa vida à Associação Casa-Memória de Camões e a esta ligação do poeta” a Constância, recordou Sérgio Oliveira.

As Pomonas Camonianas “se por um lado recriam o ambiente de um mercado quinhentista com as respetivas músicas e danças reafirmando e mantendo esta ligação ao poeta pretendem também junto dos mais novos incutir e passar esta ligação para que a mesma não se perca”, disse.

O autarca afirmando que “vivemos tempos difíceis e exigentes” sublinhou que as Pomonas Camonianas “são importantes do ponto de vista interno mantendo viva esta ligação e unindo um conjunto de instituições reafirmando o espírito de partilha e de comunidade que trabalha para um objetivo comum: a afirmação e desenvolvimento do concelho”, mas igualmente “importantes na afirmação externa através da promoção e captação de turistas para o concelho”.

E, comemorando Camões, Sérgio Oliveira utilizou uma frase, adaptada, do mesmo, substituindo a palavra “minha” por “nossa”, ou seja, cita “a nossa caravela ela balança mas não pára”.

ÁUDIO | PRESIDENTE DA CÃMARA MUNICIPAL DE CONSTÂNCIA, SÉRGIO OLIVEIRA

O evento, que tem por inspiradora Pomona, a divindade romana dos pomares e dos jardins, que Camões também cantou, apresenta, na sua essência, um mercado quinhentista, com exposição e venda de frutos e flores referidos por Camões na sua obra, com o espetáculo teatral e apontamentos poéticos e musicais.

Comunidade escolar leva teatro “A Viagem” às Pomonas Camonianas

A partida das naus de Vasco da Gama para a Índia; a dedicatória de Os Lusíadas a S. Sebastião, o encontro das naus de Vasco da Gama com o monstro do Adamastor; a representação de um excerto da peça  “Que Farei Com Este Livro?”, de José Saramago; Baile Quinhentista; representação do Concílio dos Deus  e um encontro de poetas que ao longo do século se inspiraram em Camões, terminando com um tema musical de Zeca Afonso, a partir de versos do poeta, foram alguns dos momentos que marcaram a noite de sexta-feira, junto ao Largo Cabral Moncada.

Fotos: Ricardo Escada:

“Este ano, visto que para o ano fará 500 anos do nascimento de Camões vamos abordar a ideia de uma viagem pensada em termos literários, porque Camões foi ao fim ao cabo o pai da língua portuguesa, deu origem a muitos textos a partir da sua obra e figura, teve um grande peso como poeta. A viagem é uma forma de abrir um pouco o leque para que não foquemos apenas na obra de Camões, mas em outros autores que se basearam nele, abordar a cultura portuguesa até aos dias de hoje, inspirada no universo camoniano”, já havia antecipado ao mediotejo.net o encenador Nuno Coelho, também na qualidade de diretor artístico de uma peça que envolve alunos, auxiliares e professores.

FOTOGALERIA/TEATRO ‘A VIAGEM’/RICARDO ESCADA:

PROGRAMA POMONAS CAMONIANAS:

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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1 Comment

  1. Em 1988 ganhei o 1.º e 2.º prémio do Concurso Cantar Camões musicando dois sonetos belíssimos do nosso poeta maior. O infelizmente desaparecido maestro Rui Serôdio telefonou-me para me informar que tinha sido finalista e até me deu os parabéns. Bem, eu sei que o Facebook e o Youtube apareceram poucos anos depois, mas haverá alguém que pelo menos tenha tirado umas fotos ou feito uns vídeos dessa fantástica noite, só para recordar (pois recordar é viver)? Eu sei que os tempos mudaram e a isso também Camões de refere num dos seus belíssimos sonetos, mas já contactei a Câmara Municipal que estranhamente se remeteu ao silêncio.

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