O tempo está silencioso, denso, sufocante. Uma porção de gente olha cabisbaixa para uma igreja antiga do interior, silenciosa e dourada, com santos de caras cerradas e cabelos ondulados e secos. O soalho range, os mantos roxos salpicados de estrelas que cobrem as imagens, parecem esconder alguma coisa. A ordem na igreja é perfeita, cada coisa em seu lugar, limpeza esterilizante.
O sobressalto toma conta de mim. Sinto-me perdido. O suor frio poreja na testa, os olhos injetam-se de sangue. Encostei-me a uma parede e aí permaneci de pálpebras cerradas, pensando que estava a sonhar. Por mais que lutasse para afastar o conteúdo do que estava a sonhar e que me consumia aos poucos, a imagem era de uma paisagem repulsiva. Confesso que sentia um pouco de medo de estar só entre aquelas paredes da igreja, onde se passaram fatos sem cabimento, envolvendo o passado e o presente.
A escuridão pesada da rua, por onde ando muita vez, está agora um lugar inteiramente estranho. O largo parece agora uma ilha de sombras, onde correm vultos em desespero, esbatidos em redor de elementos estranhos, olhando angustiados, de vozes baixas dizendo injúrias e ameaças entre murmúrios e cochichos.
Um homem sentado, está só e triste. Os seus olhos silenciosos, recolhidos, parecem observar as marcas da sua existência. Ele parece chamar as companheiras, as vizinhas, para se aconchegarem no seu corpo de menino, pálido e frio, sentado sobre uma pedra fria e reluzente. Um olho fechado com dificuldade. As mãos sobre as pernas, como se contemplasse o rio. Enfeitaram-lhe o corpo, trouxeram-lhe flores. Ele ficou lindo como um santuário.
Há um longo, pesado e asfixiante silêncio quando olhamos à volta. O coração bate forte no peito, a respiração suspensa, o corpo agitado por violento esforço de contenção. A vista turva leva-me ao rio, interminável, reluzente e majestoso, onde a calma imóvel projeta uma realidade suprema e iluminada. Muitos banhistas. Trazem cheiro a mel que acompanha a brisa que descontrai os músculos.
E as pedras, muitas, tão silenciosas, tão incessantes que assediam a consciência. O ar tem tanta graça que faz tremer os arbustos. O rio continua a deslizar entre a lama e as plantas. Como uma criança moribunda caminha ao encontro do seu irmão de sangue. Os lábios de ambos parecem repentinamente, revelar pensamentos ou palavras. Procuro perceber as imagens e recordações mas, de um momento para o outro, passa um comboio de mercadorias sobre a ponte que faz um barulho estrondoso. Ouço gritos que se espalham entre o estouro dos vagões. Deixo de ver as árvores, a via-férrea, a luz hostil do amanhecer. Sinto-me agora enrugado e angustiado.
Sou agora um homem de andar cambaleante e olhos que, apesar de cansados brilham com uma estranha vitalidade, neste estúrdio silêncio que reina ao meu redor e que na sua impressionante eloquência chega a deixar de ser silêncio, comove-me profundamente. A marcha silenciosa segue-me para ambos os lados dos rios e os seus estalidos ecoam nos meus ouvidos.
É com grande pesar que ao longo dos últimos anos me vi forçado a empreender uma viagem, através do nevoeiro onde dantes rompiam bramidos que se casavam com o odor salgado do ar, numa inefável promessa de descoberta. Vagar pelas ruas estreitas era como sentir uma conexão quase espiritual com cada pedra da calçada, cada poste de luz, cada janela iluminada. E a praça, sempre cheia de risos, agora tão silenciosa nas madrugadas…
Tenho saudade de homens corteses e generosos. Quero pisar os meus passos, usar as roupas velhas que tantas vezes usei. Quero abrir a janela para acompanhar a chegada da luz do dia.
Faltam poetas, escritores, vida cultural, falta espaço para nos sentirmos intelectuais.
