A guerra levou já à fuga de mais de um milhão e meio de ucranianos, sobretudo mulheres e crianças. Créditos: ONU

A “lei da proximidade” explica, no mundo do jornalismo, porque algumas notícias têm maior ou menor impacto nos leitores. Em regra, se uma criança morre de forma violenta no bairro onde vivemos, esse acontecimento irá abalar-nos mais do que a notícia da morte de milhares de crianças à fome no Burkina Faso. Não quer isto dizer que as pessoas não se interessem, ou que não tenham coração. É apenas uma questão de proximidade e, também, de identificação: quando acontece ao nosso lado, é mais imediata a sensação de que “poderia ter acontecido comigo, podia ser um filho meu.”

Mesmo quando a proximidade não é física, pode ser emocional. Veja-se o exemplo da mobilização da opinião pública portuguesa em torno da independência de Timor-Leste. É a essa luz que se pode também explicar a preocupação de muitos portugueses com a guerra na Ucrânia. Apesar dos quatro mil quilómetros que separam os nossos países, há desde logo a percepção (correta) de que toda a Europa vai sofrer com as ondas de choque que se seguirão a cada bomba largada pela Rússia.

As primeiras já as estamos a sentir, com os preços do gás e do petróleo a baterem recordes só alcançados nos anos 70, quando os países árabes boicotaram o fornecimento de crude pelo apoio dos EUA a Israel na guerra do Yom Kippur, a que se seguiu o impacto da revolução iraniana. Em termos concretos, ainda não existem cortes de abastecimento que expliquem estes aumentos de preços (mas tudo se gere com as expectativas no chamado “mercado de futuros”). Certo é que para a próxima semana foi já anunciado um aumento que pode ir até aos 14 cêntimos por litro para o gasóleo em Portugal, o que criou este fim de semana filas imensas de carros nos postos de abastecimento. Vão seguir-se, inevitavelmente, aumentos de preços generalizados em todos os bens essenciais de consumo, e a recessão económica para a qual a pandemia de covid-19 já tinha aberto caminho vai ser ainda mais grave, e mexer com as carteiras de todos.

Em simultâneo, a Europa vê-se a braços com uma nova onda de refugiados. Mais de um milhão e meio saíram já da Ucrânia, e as Nações Unidas prevêem que possam chegar aos 10 milhões nas próximas semanas. Muitos estão a viajar para Portugal, onde têm familiares ou amigos. Além disso, o governo português foi o primeiro na União Europeia a abrir-lhes a porta, sem condições, e prometendo apoiá-los na procura de casa e de trabalho.

A grande maioria dos refugiados que atravessam agora as fronteiras da Ucrânia são mulheres e crianças, uma vez que os homens entre os 18 e os 60 anos são obrigados a ficar para defender a pátria.

Olhamos para as imagens que nos entram em casa pelas televisões e pelos jornais e vemos quase sempre mulheres de olhar perdido, com uma pequena mala numa mão e uma criança na outra. Não sabem onde vão dormir no dia seguinte, como poderão alimentar os seus filhos, como irão sobreviver daqui para a frente.

Como em todas as grandes tragédias, os Estados não vão conseguir dar a mão a todos, por mais boa vontade que tenham. É aí que entram as organizações humanitárias, a sociedade civil, os cidadãos em geral.

Por todo o país, e também nos concelhos do Médio Tejo, há autarquias, associações, escolas e movimentos espontâneos de pessoas que têm estado a mobilizar-se para recolher bens essenciais para entregar às famílias ucranianas em fuga, nesta hora tão difícil.

Mas vai ser preciso muito mais. Há que encontrar em poucos dias casa, trabalho, escola, roupa, mobília e comida para quem aqui procure abrigo. Mesmo quem não tenha bens materiais para partilhar pode sempre dar um sorriso ou uma palavra de conforto. Brincar com as crianças, ensinar-lhes umas palavras em português. Fazer com que se sintam bem-vindas. E dar-lhes alguma esperança de que mesmo aqui, a quatro mil quilómetros das suas casas, vão poder reencontrar aquilo que todos temos, sem lhes dar por vezes o devido valor: uma almofada onde pousar a cabeça e a possibilidade de sonhar com um futuro melhor.

Patrícia Fonseca

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

Entre na conversa

1 Comentário

  1. Olá Patricia parabéns e obrigado pelo excelente artigo: A Ucrânia aqui tão perto.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *