Marques Godinho foi um dos presos políticos de 1947, por tentativa de "golpe de Estado", para depor a ditadura de Salazar. Fez carreira militar em Abrantes, cidade onde casou, tendo residido em Rossio ao Sul do Tejo. Créditos: mediotejo.net/DR

A Revolução dos Cravos teve lugar, como todos sabemos, no mês de abril, mas na verdade contam-se três ‘Abriladas’ no século XX em Portugal; 1947, 1961 e 1974. A primeira foi a tentativa de golpe militar contra o regime, chefiada por Mendes Cabeçadas, que presidia à Junta Militar de Libertação Nacional. Uma tentativa frustrada da qual fizeram parte, entre outros, o general Marques Godinho (natural de Galveias, em Ponte de Sor, e que residiu em Rossio ao Sul do Tejo, em Abrantes), o brigadeiro Vasco de Carvalho e o coronel Carlos Selvagem. No mesmo dia, a 10 de abril de 1947, no âmbito do levantamento frustrado, deu-se ainda a sabotagem de aviões na Base Aérea de Sintra, levada a cabo por Hermínio da Palma Inácio e Gabriel Gomes.

“Já antes do Estado Novo, que começou em 1932/33 – Salazar chega a chefe do governo em 1932 e institui uma nova Constituição em 1933 –, mas durante o período entre 1926 e 1933 já tinha havido tentativas de golpes militares, todos falhados; em 1927, 1928, em 1931. Houve uma série deles inclusive nas colónias e em Lisboa” foram os chamados golpes reviralhistas, explica ao nosso jornal a historiadora Irene Flunser Pimentel, vencedora do Prémio Pessoa em 2007 e autora de ensaios e livros como “A História da PIDE”, “Os inimigos de Salazar”, “Vítimas de Salazar. Estado Novo e Violência Política” (co-autoria com João Madeira e Luís Farinha) ou “A política feminina do Estado Novo”.

A partir de 1933, os golpes reviralhistas deixaram de acontecer. Depois de 1937, António de Oliveira Salazar e o seu subsecretário de Estado da Guerra, Fernando dos Santos Costa, resolveram acalmar as Forças Armadas. Daí resultaram “uma série de reformas militares que colocaram contra Santos Costa vários militares da velha guarda. No fundo, o que Salazar tentou foi ‘domesticar’ as Forças Armadas e foi buscar algumas para as suas instituições – para a PIDE e para censura – e relativamente àqueles que teriam ideias mais republicanas houve uma espécie de saneamento”, refere Irene Pimentel.

O terceiro mandato do Presidente da República Óscar Carmona (de 1942 a 1949) foi muito marcado pela evolução da política interna, decorrente do renascimento de novas vagas conspirativas que voltaram a procurar Carmona como reduto de apoio. Neutrais à Segunda Guerra Mundial mas não indiferentes às suas repercussões na economia e na sociedade portuguesa, algumas “altas figuras” da oposição republicana dos Estado Novo como Mendes Cabeçadas, Tamagnini Barbosa, Celso Magalhães ou monárquicos como Carlos Selvagem e Vasco Carvalho irão preparar um vasto movimento golpista entre 1944 e 1947.

Marques Godinho (o segundo a contar da direita) numa cerimónia com o Presidente Carmona. Créditos: DR

Sendo certo que com o início da Guerra, embora a tranquilidade continuasse a escassear em Portugal, acalmaram as tentativas de golpes de Estado, em 1945, os oficiais opositores de Santos Costa, até por razões corporativas, iniciaram um movimento que viria a resultar na chamada Abrilada de 1947 – que não chegou realmente a iniciar-se -, tendo esta sido precedida pelo Golpe da Mealhada.

Logo em 1944, decorrem algumas reuniões entre essas “altas figuras” que acreditam que só com um golpe de força que traduza de modo alargado a posição da instituição militar, o que só é possível, na convicção dos conspiradores, através de um envolvimento do Presidente da República, que seria o denominador comum das várias correntes das Forças Armadas.

A questão do volfrâmio ainda ambicionou apoio britânico, mas a hábil proibição das exportações em junho de 1944 anulou o previsível êxito da operação. Meses depois, a recusa do Governo dos aumentos da função pública e dos militares potencia o fervilhar oposicionista, onde movimentos civilistas como o MUD (Movimento de Unidade Democrática) e o MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Antifascista) buscam apoios face à crise que se abate no país.

Em 1945, o Regime procura amortecer os ímpetos conspirativos com a ilusão de realizar “eleições tão livres como na livre Inglaterra”, como prometera Salazar, mas a saída para a oposição só será possível fora do Regime.

Irene Flunser Pimentel dedicou a sua vida à investigação da História contemporânea portuguesa, e em particular dos períodos de vida em ditadura. Créditos: Luísa Ferreira/Ciência Viva

Uma longa conspiração organiza-se em junho de 1946, na já referida Junta Militar de Libertação Nacional, que preconiza um golpe através da criação de uma vasta plataforma civil e militar que pressionasse Carmona a demitir o Governo. Em setembro de 1946 é assinado um “pacto” por 46 oficiais cujo descontentamento corporativo é bem expresso no documento, e que serviria como instrumento de manifestação junto do Presidente da República, de modo a que Carmona “sentisse” da parte da instituição militar uma vontade expressa na substituição do Governo de Salazar.

Ao mesmo tempo, a Junta irá desenvolver um programa político e um plano de operações de modo a alcançar um amplo apoio militar no país. Com muitos desentendimentos internos, a tentativa de golpe da Mealhada, como ficou conhecida, acabará por ser facilmente controlada pelo Governo, onde Santos Costa e Salazar seguem atentamente o desenrolar dos acontecimentos. O presidente do Conselho consulta de imediato Carmona e produz uma nota oficiosa para a imprensa. Mas o movimento militar não desarmaria e prepara a sua reorganização aprazada para 10 de abril de 1947.

Conta a historiadora que, em 1946, “esses oficiais que tinham planeado uma tentativa de golpe de Estado, à ultima hora, não saíram. Apenas saiu Fernando Queiroga Chaves – um ex-integralista, um ex-nacional sindicalista, mais à direita que o próprio Salazar – que foi com as suas tropas até à Mealhada, onde foram travadas pelas tropas do Regime. Entretanto, os outros oficiais continuaram a conspirar” até 10 de abril de 1947 no qual “a maior parte dos militares não saiu, e os únicos que participaram foi Hermínio da Palma Inácio e Gabriel Gomes” na referida sabotagem de aviões na Base Aérea de Sintra.

Uma vez mais a conspiração não tem êxito acabando com uma vaga de prisões, expulsões e reformas compulsivas dos implicados.

Em consequência do insucesso do movimento revolucionário, através da detenção desse grupo de oficiais de alta patente sob a acusação de conspiração contra o Estado Novo, o governo de Salazar anula mais uma tentativa de golpe de Estado.

José Garcia Marques Godinho, filho de José Garcia Godinho e de Joaquina Victória Marques Godinho, nasceu em Galveias, Ponte de Sor, no ano de 1881, Créditos: DR

A movimentação teria sido suscitada pelo próprio Carmona, destinada a repor o espírito inicial do Golpe de 28 de maio de 1926. “Queriam que a ditadura do Estado Novo terminasse, queriam eleições, que fosse extinta a PIDE, que Santos Costa deixasse de ter poder no Regime. Mas era tudo muito vago. Todas as tentativas de golpe de Estado até ao 25 de Abril são todas muito vagas nos seus objetivos. Aliás o 25 de Abril demarca-se de todas esses tentativas militares. Todas tinham aliados civis e o 25 de Abril vai ser um golpe de Estado só militar. Foi preparado, segundo o plano de Otelo Saraiva de Carvalho, para que a partir de determinado momento vários regimentos, de vários sítios, para ocupar vários pontos chave”, afirma Irene Pimentel.

São presos vários oficiais, entre os quais o general Marques Godinho, e dá-se uma vaga de prisões de oposicionistas, a 15 de abril. Entre os detidos, Mário Soares, que será libertado em 27 de agosto. Em 14 de junho, nota oficiosa do governo revela que no anterior conselho de ministros do dia 1 haviam sido demitidos vários oficiais e professores universitários, por estarem implicados no movimento revolucionário abortado.

“Foi então que Salazar aproveitou para sanear de vez uma quantidade de oficiais, e também de professores universitários e outros elementos da oposição. Talvez tenha sido um dos maiores saneamentos ou purgas políticas” no Estado Novo, explica a historiadora.

São presos vários oficiais, entre os quais o general Marques Godinho, e dá-se uma vaga de prisões de oposicionistas, a 15 de abril de 1947. Entre os detidos, Mário Soares, que será libertado em 27 de agosto.

O Regime do Estado Novo, partindo da ideia que a segurança da Nação e do Estado estavam acima de todos os interesses individuais, sujeitava os acusados a castigos e penas exemplares como uma forma de reduzir o número de cidadãos com comportamento desviante à moral imposta. Impunha-se , por isso, a pedagogia do medo. Exceto para aqueles a quem o exemplo da prisão de outros não limitou a sua ação contra o Governo.

Jerónimo Velez Milheiras escreve no livro “Memórias de Galveias” que “José Garcia Marques Godinho nasceu em Galveias. Ingressou na Escola do Exército onde concluiu o curso de Infantaria em 25 de novembro de 1904. No ano seguinte foi promovido a alferes (1905) e chegou a tenente (1909) e passados seis anos foi promovido a capitão (1915), colocado em Abrantes.

Durante a Primeira Guerra Mundial embarcou para França no Corpo Expedicionário Português, onde se destacou sendo condecorado com a Cruz de Guerra. Foi promovido a major (1922), a tenente-coronel (1935) e a coronel (1938). Durante a Segunda Guerra Mundial já brigadeiro foi nomeado Comandante dos Açores e promovido a general em 1942”.

O general Marques Godinho acabou por morrer na prisão nesse mesmo ano de 1947. Ao que se suspeita, devido aos desentendimentos com o ministro Santos Costa, por causa das suas “simpatias nazis” e posições a favor dos países do Eixo e contra os Aliados, designadamente quanto à presença norte-americana nos Açores.

No Jornal de Abrantes noticia-se a morte do general Godinho, referindo “a consternação no meio abrantino, onde o seu amável convívio durante largos anos granjeara gerais simpatias e amizades pessoais”

Notícia publicada no Jornal de Abrantes, em 1947.

Fernando Queiroga, no livro “Portugal Oprimido”, fala do general José Garcia Marques Godinho, como das figura “mais nobres e prestimosas do Exército Português e que morreu em circunstâncias que um dia Santos Costa teria de explicar devidamente”. Ou seja, por ser Santos Costa, favorável a resistir a qualquer tentativa americana em relação aos Açores.

Recorda-se que Portugal foi membro fundador da NATO, em 1949, e muitos parceiros sentiam-se desconfortáveis por coabitarem numa organização militar com uma ditadura que não respeitava os mais elementares direito do Homem, e isso deveu-se sobretudo à posição estratégica dos Açores.

Escreve igualmente Jerónimo Velez Milheiras, no referido livro “Memórias de Galveias”, que “nos Açores, devido às suas posições, teve desentendimentos com o subsecretário de Guerra, Santos Costa, de quem fora até aí homem de confiança. O general Godinho envolveu-se em atividades contra o regime de Salazar, juntamente com o almirante Mendes Cabeçadas e o brigadeiro António Maia da Força Aérea, mas o golpe fracassou e não chegou a sair à rua. O general foi preso em 1947 e posteriormente esteve internado no Hospital Júlio de Matos em recuperação cardíaca, foi transferido para o Forte da Trafaria, onde veio a falecer naquele mesmo ano. O advogado da família, Adriano Moreira, então com 26 anos de idade, acusa o ministro de homicídio voluntário, alegando que ele sabia da doença cardíaca de Godinho e quis calar o segredo de que o general (antigo Comandante Militar dos Açores) era portador das instruções por Santos Costa, para resistir ao desembarque das forças americanas”.

Partida de um contingente de tropas para reforço da guarnição militar dos Açores, em 1941. Créditos. CPF

Conta a historiadora Irene Pimentel que “no final da Guerra, em 1943, Salazar percebeu que os Aliados iam ganhar a Guerra e acedeu dar uma base aos britânicos e depois aos americanos. Santos Costa foi acusado pelo general Godinho de ser um germanófilo e estar ao serviço dos nazis e prometeu, quando já estava preso – conta Fernando Queiroga –, que se fosse a tribunal denunciaria Santos Costa. E Queiroga Chaves dá a entender que Santos Costa acabou por condenar à morte o general Godinho. Fez tudo para que ficasse na Trafaria. A mulher do general Godinho recorreu a Adriano Moreira, que pôs um processo a Santos Costa”. O advogado da família, futuro ministro do Ultramar, seria detido brevemente na Cadeia do Aljube.

Fernando Queiroga escreve também um artigo no jornal ‘O Semanário’, em 1957, intitulado “A morte, em circunstâncias misteriosas, do general Marques Godinho”. Dadas as suspeitas que envolveram a morte do antigo Comandante Militar dos Açores, a viúva do general enviou ao diretor da Polícia Judiciária uma petição.

O Presidente da República, Óscar Carmona, com o presidente do Conselho, Oliveira Salazar, membros do Governo e várias individualidades. Créditos: CPF

Palmira Pimenta de Almeida Beja Marques Godinho, a viúva, de uma fidalga família de Abrantes, domiciliada no Rossio ao Sul do Tejo, requereu que “mande investigar as condições em que faleceu no dia 24 de dezembro de 1947, no hospital militar da Estrela, seu marido general José Garcia Godinho porque entende serem criminosas as circunstâncias que provocaram o seu falecimento julgando responsável por esse facto o tenente-coronel Fernando dos Santos Costa, atualmente afastado do serviço, por ser ministro da Guerra do Governo português.”

” A atividade desse senhor”, escreveu, “deve-se ao seu ódio a meu marido e à violência do carácter, que o levou a escrever em carta que lhe dirigiu com data de 15 de julho de 1941: ‘Quem se atreve a ensaiar uma discordância, mesmo no campo absolutamente técnico, tem de ser sistematicamente eliminado. Tenho umas ligeiras informações a este respeito que dentro em breve terão consequências sérias.’

Palmira Marques Godinho com o marido, nos Açores, durante a II Guerra Mundial. Créditos: DR

E a viúva continua: “Apesar desta ameaça, meu marido, que ao tempo era Comandante Militar dos Açores – estávamos em guerra – não temeu declarar mais tarde aos seus camaradas que o referido senhor não tivera para com a pátria, na política de guerra, a lealdade exigível a quem ocupava o lugar de subsecretário da Guerra e que por esse facto devia prestar contas nos tribunais. Nunca soube rigorosamente as razões do meu falecido marido, mas percebi que enquanto o governo seguia uma política de colaboração com os Aliados, o referido senhor pretendia uma aliança com os países do Eixo, atuando nesse sentido. Meu marido era partidário da política do Governo, de colaboração com os Aliados, mas em cartas que o tenente-coronel Santos Costa lhe dirigiu, encontro referências à ameaça do perigo americano e a necessidade de resistir a qualquer tentativa americana em relação aos Açores. É esta divergência de atitudes que atribuo o facto de, em carta de II setembro de 1941, o mesmo senhor pretextando interessar-se muito pela saúde de meu marido sugeriu já o afastamento do comando que ocupava, como depois aconteceu. Contudo, dois meses antes, na carta de 10 de julho, declarava: estou convencido de que acertei na escolha do comando dos Açores. De então em diante não perdeu a ocasião de lhe ser desagradável, terminando essa surda perseguição com a nota oficiosa de 15 de junho de 1947, publicada nos diários, na qual se atreveu a acusar meu marido de traidor à pátria, numa tentativa desesperada de voltar contra este a acusação que perante camaradas, meu falecido marido lhe fazia. Seguidamente mandou-o prender pela polícia, negando-lhe todas as honras e prerrogativas que o seu posto de general lhe garantia”.

José Marques Godinho foi então internado no hospital Júlio de Matos, onde sofreu dois enfartes do miocárdio. Acabou transferido para o presídio militar da Trafaria, acabando por morrer no dia 24 de dezembro de 1947, aos 66 anos. Palmira Marques acusou Santos Costa de homicídio voluntário e premeditado do general “pelas condições que lhe foram fatais”.

A investigação solicitada levou para a cadeia a viúva, os seus filhos foram ameaçados de várias represálias, e o advogado Adriano Moreira igualmente detido. “Contudo, 48 horas decorridas, tudo estava ‘investigado’. A pobre senhora abatida moralmente com a perda do seu marido e vendo os filhos na prisão entrega os documentos que interessavam aos algozes para que, assim, lhes fosse restituída a liberdade. Então, Salazar com a sua habitual e tão apregoada ‘honestidade’ assim se pronuncia: ‘Ajuramentem-se os funcionários que tiveram conhecimento dos factos, para nada revelarem’”, escreve Fernando Queiroga no jornal ‘O Semanário’.

A investigação solicitada levou para a cadeia a viúva, os seus filhos foram ameaçados de várias represálias, e o advogado Adriano Moreira igualmente detido.

Devido ao falhanço da primeira ‘Abrilada’, Oliveira Salazar “toma novamente as rédeas do poder porque saneia os principais opositores, civis e militares. E a PIDE também se reforça muito nessa altura, surgem novas leis de interdição de permanência em Portugal de alguns, que depois se exilaram, residência fixa de outros em aldeias, e algumas medidas de segurança. Há todo um processo repressivo que se agudiza durante esse período”, acrescenta Irene Pimentel.

A segunda ‘Abrilada’ deu-se em 1961. O objetivo desta intervenção seria igualmente a deposição de Salazar e a reorganização das Forças Armadas, tendo em vista uma mudança não apenas na política interna, mas também uma resposta às exigências internacionais em relação à questão colonial, ou seja, um levantamento militar que conduzisse a política portuguesa no caminho da auto-determinação das Colónias Ultramarinas. A última tentativa significativa de intervenção militar na vida política portuguesa antes de 1974, o golpe falhado de Botelho Moniz, ministro da Defesa Nacional.

“É diferente. Foi um golpe de Estado ‘palaciano’. Ou seja, não de saída de tropas mas no seio do próprio Governo, recorrer ao Presidente da República, Américo Thomaz, e foi isso que fez Júlio Botelho Moniz, ministro da Defesa Nacional e rival de Santos Costa. A Guerra Colonial começou em 1961 e Botelho Moniz tinha relações com a Embaixada dos Estados Unidos – na altura o presidente dos Estados Unidos era o Kennedy e tinha uma política anticolonial. Houve apoio dos Estados Unidos à UPA”, lembra Irene Pimentel referindo-se aos massacres que marcaram o início da Guerra do Ultramar, quando a União das Populações de Angola matou centenas de colonos brancos, mas também negros, transformando o norte de Angola num palco de morte.

Segundo a professora, “os americanos apostam no Botelho Moniz e ele aposta nos americanos para o ajudar na deposição de Salazar para levar a cabo uma política diferente do ponto de vista colonial”.

Lembra que Humberto Delgado, tal como Henrique Galvão, foram militares participantes no golpe 28 de maio de 1926 e “grandes apoiantes de Salazar e do início do Estado Novo. Depois entram em divergência, o Galvão até mais cedo, logo nos anos 1930, também por questões coloniais tecendo criticas ao Estatuto do Indigenato e à política colonial de Salazar, mas outros – e a NATO aí é muito importante – são oficiais que vão sendo educados, formados na Aliança Atlântica. Passam a vida em estágios nos Estados Unidos, na Inglaterra, em França. O caso do Delgado é muito paradigmático, mas vira-se contra o Regime só em 1958, já próximo de 61”.

Salazar conseguiu reprimir as primeiras tentativas para o depor. Créditos: DR

Irene Pimental recorda, ainda, mais uma tentativa de derrubar o regime, o Golpe da Sé, em 11 de março de 1959. “Mais uma vez uma tentativa de militares e de civis. Os sublevados reuniam na Sé de Lisboa mas a PIDE conseguiu de novo introduzir-se, já tinha conseguido em 1946 e 1947 e depois tinha conseguido junto do Galvão em 1951, na tentativa da Rua da Assunção, que não chegou sequer a sair, foram só reuniões, mas a PIDE infiltrava-se sempre. E assim aconteceu com o Golpe da Sé que já tinha a influência de Humberto Delgado”.

O ministro da Defesa Nacional, Botelho Moniz, percebe que a afirmação de Salazar “vamos em força para Angola” sem quaisquer reformas nas colónias poderia dar mau resultado. Assim, recorre ao Presidente da República, Américo Thomaz, para destituir Salazar no contexto da Constituição de 1933. Era o Presidente da República que nomeava o presidente do Conselho e também o podia destituir. “Simplesmente Américo Thomaz diz que vai pensar e avisa Salazar. Ou seja, foi logo desmembrado”, refere Irene Pimentel.

Na história das tentativas conta-se outra semelhante, com civis e militares, na passagem do ano de 1961 para 1962: tentativa de tomada do Quartel de Beja, já com Humberto Delgado, sendo novamente um fracasso do qual resultaram, inclusivamente, vítimas mortais.

Novamente, antes da Revolução de Abril, ou seja, a terceira ‘Abrilada’, na madrugada de 16 de março de 1974, uma coluna de cerca de duas centenas de soldados comandada pelo major Armando Ramos saiu do Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha, e tomou a estrada a caminho de Lisboa. O seu objetivo era derrubar o governo de Marcello Caetano.

“Uma tentativa de Spinolistas, de tomarem a dianteira do MFA, e há uma figura que participa também no 16 de março que depois vai ser fundamental no 25 de Abril: Otelo Saraiva de Carvalho”, lembra a historiadora.

Otelo Saraiva de Carvalho. Créditos: Getty

O Regime não percebeu que Otelo esteve envolvido no 16 de março, mas Irene Pimentel considera que ainda que este tivesse sido preso “talvez não fosse diferente, porque já estava delineada, nesse Movimento das Forças Armadas, a vontade de levar a cabo um golpe de Estado e destituir o Regime. O 16 de março acabou por ser importante, foi uma espécie de laboratório do que não se devia fazer”.

E quem eram os grandes opositores ao Estado Novo? “É evidente que o Partido Comunista é fundamental e vai durar ao longo de todos esses anos. O PCP é sistematicamente desmantelado e renasce sempre devido aos seus meios clandestinos, de atuação, etc. Depois havia os republicanos reviralhistas que começam a envelhecer a partir dos anos 1950 e são aqueles que fazem os abaixo-assinados mas não são perigosos. Os responsáveis pelo atentado a Salazar em 1937, os anarco-sindicalistas que já vinham desde a Primeira República, durante a ditadura militar e digamos que é o último fôlego da CGT. Com o 18 de janeiro de 1934, têm mais dificuldade na clandestinidade e são ultrapassados pelo Partido Comunista”.

Irene Flunser Pimental afirma que os comunistas, entre os opositores a Salazar, “foram os mais reprimidos” principalmente partir de 1934. “Salazar até tem um celebre discurso: ‘o comunismo é a grande heresia da nossa idade.’ É o inimigo principal, porque é um partido organizado. Relativamente aos militares, Salazar desvaloriza porque tinha os militares na sua mão e portanto controlava-os. Por outro lado, a PIDE consegue infiltrar, inclusivamente no PCP, que é completamente clandestino”.

No dia de todos os prodígios, a Revolução fez-se com cravos vermelhos.

Cravo de Abril Créditos: VOA português

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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