Por estes dias há um tema que se impõe… é incontornável… a super-nanny. Que não é psicóloga, diz ela. Ou que, pelo menos, diz que não está no programa da SIC na qualidade de psicóloga.

Então em que qualidade é que está?

Na qualidade de alguém que quer ajudar as famílias portuguesas, porque parece que todas as crianças são insuportáveis, impossíveis de educar, resistentes às regras e com um espírito altamente maléfico. Portanto, a SIC e a senhora que faz de super-nanny querem salvar as famílias portuguesas.

Estás a ser irónica! Tens que reconhecer que é uma verdade que atualmente há muito mais famílias com problemas com os filhos do que havia antigamente…

Claro que reconheço. E por, ao longo dos últimos 15 ou 20 anos, ter vindo a ouvir cada vez mais histórias inacreditáveis de comportamentos infantis e juvenis, parece-me que há, de facto, um problema. A coisa que eu mais tenho ouvido dos pais e mães é muito clara: “No meu tempo, bastava o meu pai ou a minha mãe abrir os olhos e eu parava logo!”

Sim, quanto a isso estamos de acordo. E, se assim for, há uma mensagem clara que o programa passa que tem mesmo que ser passada: os filhos têm que respeitar os pais e têm que cumprir regras. Por muito que agora olhemos para a infância e para a adolescência de outra forma, estas são as balizas da educação. Isto, sim, é incontornável.

Certo! Mas não tem que ser a televisão a ensinar aos atuais pais essas balizas. Até porque, ou muito me engano, ou a esmagadora maioria sabe disso muito bem. Porque foram educados dentro dessas balizar, independentemente das classes sociais ou dos ambientes em que cresceram.

Recapitulemos: temos um problema que se resume a uma grande quantidade de miúdos que não se encaixam do perfil de ‘educados’. Pelos vistos, apesar de tantos profissionais a trabalhar na área, o problema aumenta em vez de diminuir… Então, por que não encontrar uma forma de ajudar, simples, para chegar às massas?

Olha a treinadora de bancada!! Tens estatísticas que comprovem isso?

Não, reconheço que é senso comum. Mas nunca ouvi tanto pai e tanta mãe bem formados, educados e preocupados com a educação dos filhos e filhas em desespero absoluto. Se calhar, os grandes meios de Comunicação podem, de facto, dar alguma ajuda.

Mas a pedagogia que um grande meio de Comunicação deve fazer deve ter contornos diferentes.

Ah! Não me digas que vens falar de atores no papel de protagonistas reais para não expor as pessoas?

Não, não disso que falo.

A verdade é que, como alguém dizia no debate, terá sido a primeira vez que a televisão decidiu abordar as questões da parentalidade. Parece que até aqui esse era só um privilégio dos gabinetes dos especialistas, numa espécie de lobby.

Então mas os especialistas servem para quê? O que estudam, o que investigam, o que analisam não serve para nada? Gostas que alguém de fora da tua profissão venha mandar bitaites sobre o que tu fazes?

Claro que não, mas a questão da educação não se pode limitar ao conhecimento dos especialistas. Todos nós fomos educados, muitos de nós educamos ou vemos educar.

Lá está, a teoria do treinador de bancada! Por alguma razão a super-nanny não quer ser identificada como psicóloga! Está na qualidade de educadora, como qualquer outra cidadã ou cidadão deste país. E não quer ser identificada como psicóloga porque, eticamente, estará consciente de que o programa não respeita o enquadramento dos especialistas. Portanto, tudo aquilo é espetáculo! Quando as câmaras filmam a super-nanny a pôr as mão na cabeça perante o comportamento de uma criança, aquilo não é encenado? Quando o pai entra em casa, feliz com a suposta harmonia familiar, aquilo não é teatro? Tudo aquilo é espetáculo, para as audiências. E quanto mais polémico for, mais audiências dá.

A SIC defende-se dizendo que é um formato de documentário, que só faz sentido com os verdadeiros protagonistas das histórias. Aliás, a super-nanny pede aos intervenientes que façam de conta que não está, qual Big Brother.

Mas há momentos extremamente violentos. E não é só para as crianças, é para os adultos, também. Há momentos muito perturbantes, como a mãe a perceber que a avó (sua mãe) a desautoriza. Ou como o pai a dizer ao filho que se se portar bem talvez a mãe reduza o castigo. São adultos que veem os seus relacionamentos mais íntimos expostos para julgamento público.

Pois será como um reality-show…

Pois, pois… Mas há dois problemazinhos… Primeiro, mesmo que as crianças percebam que estão a ser filmadas e que vão ‘passar na televisão’, não têm a mínima noção das implicações que isso pode ter no seu crescimento, na sua relação com os outros, na sua auto-estima e por aí fora. Depois, num reality-show, talvez com uma pequena exceção dos primeiros, as pessoas sabem para o que vão e entram no jogo. A casa das pessoas, o seu dia a dia, a educação das crianças, a relação entre pais e filhos não é um jogo.

Mas as regras são claras. As famílias concordaram.

As pessoas não têm noção do impacto de uma coisa destas. As famílias aceitaram porque provavelmente estava desesperadas.

Então?!? Nada foi filmado com câmaras ocultas. Pelo que diz a SIC, as imagens que passam têm o consentimento das famílias. Portanto, ao nível do enquadramento formal, nada a apontar.

São perspetivas. Por isso é que gosto de falar contigo, para tentar olhar para um assunto por outra perspetiva. Mas deixa-me sugerir-te que faças o mesmo exercício. Na Comunicação Social, nem tudo se resume às regras estabelecidas. Há, ou devia haver, uma forte componente ética. Por isso é que, no debate sobre o assunto, a senhora do Instituto de Apoio à Criança dizia que não esperava isto da SIC. Porque é uma estação que nos foi habituando um tipo de opções que nos dão garantias de um certo tratamento dos assuntos e das pessoas. Basta recordarmo-nos que podiam ter comprado o formato do Big Brother e não o fizeram. Também é verdade que na altura a SIC está confortavelmente instalada na liderança das audiências e não precisava de gás… Mas não quis ser a estação a abrir esse capítulo da história da televisão portuguesa.

Então tu achas que se este programa passasse noutro canal de televisão a polémica não era tão grande?

Claro que era!

Mas aí haveria um discurso muito fácil: pois deste canal só se podia esperar isto. O que, por si só, revela uma atitude estranha. É quase como se os bons alunos nunca pudessem surpreender, fazer uma opção diferente da esperada, mesmo que devidamente fundamentada.

Acreditas mesmo nisso? Que a opção foi devidamente fundamentada?

É uma perspetiva. A perspetiva pedagógica, do exemplo, de mostrar a quem está a ter problemas semelhantes que há uma solução, foi devidamente fundamentada.

Pronto, agora é que tocaste no ponto-chave! O que eu achei mais incrível, para além de todas as já mais do que debatidas questões da exposição daquelas pessoas, foi a facilidade com que as famílias passam de infelizes a felizes… Deve ser a magia da televisão!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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