Na última crónica, dedicada aos 400 anos da Misericórdia da Chamusca, fiz referência aos templos que fazem parte do património dessa Santa Casa e, entre eles, mencionei a capela de Nossa Senhora das Dores. Ora, não é exato: a capela pertenceu, de facto, à Misericórdia, mas apenas durante alguns anos e atualmente é administrada pela Paróquia.
Agora, para além de corrigir a falha, aproveito para deixar aqui algumas notas sobre uma capela que o povo estima e é merecedora que se dê um pouco de atenção às suas características e à sua história.
Primeiro, a correção do erro.
A Senhora das Dores pertencia a uma confraria que, como tantas outras, foi extinta na fase inicial do liberalismo, em 1834. Na sequência dessa extinção, a capela, à semelhança de outras duas existentes na Chamusca – a de Nossa Senhora do Pranto e a de São Sebastião – foi entregue à Misericórdia. Mas essa situação apenas se manteve durante escassos oito anos: em 1842, por pressão do prior, acabou por passar para a administração da Paróquia, à qual continua a pertencer na atualidade.
E agora, um olhar sobre a capela e a sua evolução.
Embora se trate de uma capela, o povo em geral chama-lhe igreja. É popularmente conhecida pela designação simplificada de Nossa Senhora das Dores ou simplesmente Senhora das Dores, mas o seu nome completo é capela de Nossa Senhora da Piedade e Sete Dores.
Foi instituída por um devoto chamado Manuel Roiz Laranjinha que se endividou tremendamente para a ver construída e em condições de ser aberta ao culto. Terá sido inaugurada em 1759, após sete longos anos de trabalhos e dificuldades, tantos quantas as dores da Senhora a quem foi dedicada. Sobre a porta, o fundador fez questão que figurassem, para além do seu próprio nome, mesmo de forma abreviada, a data de 1755 em que finalmente a viu erguida, se bem que ainda não terminada. E quando morreu, em 1775, no chão dela se fez sepultar, como também sua mulher.
Com o objetivo, para além do culto, de reunir fundos para custear os trabalhos de embelezamento e conservação da capela, foi criada, em 1760, a Confraria de Nossa Senhora da Piedade e Sete Dores. Mas, apesar de todos os esforços que a irmandade fez para recolher esmolas e angariar dinheiro para fazer face aos custos da construção, o facto foi que, três anos depois, só conseguira juntar pouco mais de 900 mil réis, quando as despesas tinham ascendido a bem mais de 3 contos de réis, ou seja, passando do triplo do angariado. Deitando mão do engenho, o fundador foi ao ponto de lançar um jogo, parecido com o chinquilho, mas usando bolas, cujo objetivo era derrubar um paulito maior sem deitar abaixo um mais pequeno colocado nas proximidades. Desse jogo resultava rendimento para a confraria que bem precisava dele para aliviar os encargos do fundador. Chamava-se jogo da laranjinha, mas não se sabe se a designação lhe veio do apelido Laranjinha de Manuel Roiz ou se terá sido apenas coincidência.
A capela é uma construção de linhas simples, tanto na fachada como no interior, de uma nave só, ovalada, se bem que a capela-mor e o aspeto exterior sejam retangulares. No altar-mor, para além da talha dourada, destaca-se a imagem da Senhora da Piedade tendo ao colo o Filho Morto. Interessante é também o púlpito, igualmente em talha dourada.
No pouco tempo em que esteve sob a alçada da Misericórdia, a Santa Casa cuidou dela, colocou-lhe uma porta nova e, em 1838/40, procedeu à reparação dos telhados.
Embora não pertença à Misericórdia, continua muito ligada ao principal ato de culto que a Santa Casa todos os anos realiza: a procissão dos Fogaréus que percorre as ruas da Chamusca na noite de sexta-feira de paixão. Passa pelos principais templos da parte baixa da vila – e, entre eles, percorrendo-lhe o interior, a igreja da Senhora das Dores, como diz o povo.
