Mestre António, judeu de Torres Novas lá se foi. Veio à vila, sarou feridas, curou males e por entre prodígios e maravilhas deixou o povo embasbacado. Ele, cirurgião da corte em finais de quatrocentos, ele, que mergulhara nas entranhas de um corpo até então desconhecido, ele, o Mestre, decerto saudoso das suas origens, que agora ali voltara séculos depois, fez o que lhe fora pedido. Deambulou pelas bandas da Praça e do Castelo, distribuiu sorrisos e afectos, perfumou-se no jardim das rosas antes mesmo do cheiro a dromedários que nas barbas de Bívar Pinto Lopes por ali abancavam aguardando melhores leituras. Mestre António encenou, acenou, sorriu e cumpriu.
A salvação do corpo, de todos os corpos que resistiram àquele interminável sobe e desce, a todas as filas de espera, terá assim valido a pena. Pelo que conta quem viu, foi bonita a festa, pá! Uma vez mais, milhares de súbditos se renderam à festança do reino. Com fogachos, trombetas, música e tudo o mais que se possa imaginar.
Mas Mestre António, o judeu de Torres Novas, partiu triste. Ele, que agora ali voltara tantos séculos depois e saudoso das suas origens, não conseguira revisitar o seu burgo. E não conseguia perceber a razão por que não poderia dar uma voltinha que fosse pelas ruínas do centro histórico, ou uma mera saudação aos ainda sobreviventes dos tempos idos. Nem sequer uma visitinha às ruelas da sua antiga judiaria, ali para as bandas de Valverde.
Todas aquelas ruas, ruelas e pracetas onde havia crescido lhe eram agora vedadas. Não percebia o porquê. Talvez por segurança, Mestre António, não lhe desabe um beirado em cima, segredou-lhe alguém ao ouvido. Mas não. Ali não há esse risco, pensou ele. Talvez então por dinheiros, que espreguiçar a feira para ali, pode custar o ceitil e o vintém, que D. João II já não tem. Mas também por aí não será, pois tal noutros burgos haverá.
Pensou, meditou e chegou-lhe então a razão de tal censura tão dura: talvez o porco, talvez. A par da salvação do co(r)po, aquele seria também, o tempo da salvação do porco: no espeto, no pão ou no prato, de todas as formas e sempre com a devida sangria. A do dito e a bendita.
E assim, cercando o burgo, cobrando o tributo e mantendo afastado o comércio agiota, o reino continuaria a engordar o porco para uma próxima história, talvez com outra memória.

