“Não esquecem os mais velhos as histórias que falam do tempo em que ao Arripiado se refugiaram os da outra banda, quando os franceses invasores chegaram a Tancos para pilharem e incendiarem teres e haveres; abominável realização, a da guerra. Melhor seria se a cobiça se transformasse em festa e a fraternidade em alimento da alma.”
(1) Miranda, Emílio. Os Autos da Barquinha – Gelo por sal. Edições Mahatma, 2014
Por Decreto-Lei n.º 2/96, de 6 de março, a Igreja de Tancos foi classificada de interesse público, bem como o seu recheio, nomeadamente, os azulejos, os retábulos de talha com pinturas que revestem o seu interior, as esculturas e as pinturas existentes. Desconhecemos a data precisa da sua construção, ao contrário da Igreja Matriz de Atalaia que sabemos ser a de 1528, conforme consta de uma pilastra, em baixo relevo que se encontra naquele altar mor.
Supomos que terá sido construída no início do século XVI, muito perto da carta de foral de 1517 de Dom Manuel a Tancos, e possivelmente, sobre as estruturas de um templo anterior como aconteceu em outros locais do reino. Certo é que a sua construção poderá ter ocorrido antes de 1538, pois existe uma laje funerária em calcário, entre muitas outras que se encontram no chão desta Igreja, localizada a meio da igreja, que afiança: “Aqui jaz Inês / Fernandes mulher que / foi de João / (…) faleceu na era / de 1538”.
Recordo que em 5 em fevereiro de 2013, no seguimento de trabalhos de melhoramento do interior do espaço de culto da Igreja Matriz de Tancos uma equipa de trabalhos de construção civil encontrou fragmentos ósseos à superfície debaixo do estrado de madeira que suportava os bancos. Face à visibilidade de variado espólio osteológico humano, foi convocado ao local uma equipa da DGPC e do CPH-IPT que procederem à devida avaliação e peritagem. Assim, e em função do observado in loco procederam à decapagem de toda a área a descoberto, atingindo no máximo até 5 cm de profundidade e na mesma data, aproveitou-se para fazer o decalque das epígrafes tumulares para memória futura.
Do ponto de vista arqueológico refiro que a decapagem proporcionou a recolha de ossos humanos, moedas e contas de rosário. O espólio osteológico encontrava-se descontextualizado e, muito provavelmente, seria espólio que inicialmente fora depositado no exterior da Igreja, a partir de 1844 e que, na década de 40 do século XX, foi trazido para o seu interior com o intuito de colmatar o desnível existente no solo. Certo é que os técnicos na altura, não adiantaram qualquer outra observação científica relativamente a este tema. Já quanto ao decalque das epígrafes funerárias, pedras tumulares, menciono que foram registadas em relatório, embora elas se encontrassem em muito mau estado de conservação apresentando apenas uma minoria uma possibilidade de leitura. [Ana Cruz. Relatório da Campanha de Trabalhos Arqueológicos na Igreja Matriz de Tancos, CPH-IPT.2013]
Curioso é o aparecimento de uma sepultura, junto ao altar mor, com a estrela de David, símbolo do judaísmo, certamente de alguém ligado ao apogeu do comércio do cais de Tancos. [Sobre esta tema, epigrafia local, e para a Igreja da Misericórdia de Tancos consultar os Serões de Tancos, n.º 3, ano de 1926-1927.]

Mas sobre este templo, vejamos o que nos diz o site da DGPC:
“Igreja paroquial construída no séc. 16, de que subsiste a estrutura da capela-mor, com cobertura em abóbada estrelada, profusamente ornada com atributos cristológicos, remodelada no séc. 17, com a feitura da nave, de estilo maneirista, ampla e com cobertura em abóbada de caixotões de pedra, sustentada por paredes laterais em talude e de grande espessura. É de planta retangular composta por nave, capela-mor, anexos laterais, formando duas sacristias, e torre sineira no lado esquerdo, escassamente iluminada por janelas em capialço, jacentes, rasgadas nas fachadas laterais. Fachada principal rematada em empena, com os vãos rasgados em eixo, composto por portal e janelão, envolvidos por estrutura arquitetónica maneirista, de final de seiscentos, composta por colunas e remate em tabela, contendo nichos com imagens em cantaria, muito deterioradas, integrando uma Senhora da Conceição, colocada no local em data mais recente. Fachadas com cunhais de cantaria, as laterais rasgadas por portas travessas, a do lado esquerdo desativada e transformada em capela votiva. O interior está dividido em tramos por colunas embebidas na espessura do muro, o primeiro marcado por amplo coro-alto, assente sobre colunas toscanas e com acesso pela sineira, que irrompe pelo interior do edifício. Tem batistério no sub-coro, no lado do Evangelho, púlpito seiscentista, semicircular e com guarda pleno, situado no mesmo lado e adossado ao muro e com acesso pelo anexo. Arco triunfal amplo, de dupla arquivolta, assente em pilastras toscanas, ladeado por capelas laterais, de onde desapareceram as estruturas retabulares. Capela-mor com interessante retábulo de talha dourada, do estilo barroco nacional. As paredes encontram-se revestidas a azulejo de padrão seiscentista, com o nível inferior da nave marcado por enxaquetado e o superior com padrões policromos variados, interrompidos por painéis figurativos, hagiográficos, estes realizados em diferentes épocas, com um claro domínio das figuras a azul e branco, sobre fundos neutros, brancos. No exterior, ostenta as cruzes dos Passos da Via Sacra, em azulejo. Possui interessante retábulo lateral da segunda metade de seiscentos, de esquema maneirista, composto por três eixos e remate em tabela, integrando telas pintadas.”

Outrossim, ainda sobre a Igreja de NS da Conceição, Matriz de Tancos, quer abordando o seu exterior, quer o seu interior, podemos ler o belo trabalho de investigação de José Manuel da Silva (2) em Carta Galeria Arqueológica de Vila Nova da Barquinha: http://www.cta.ipt.pt/download/AntropeDownload/2_2014Serie%20Monografica/carta-arqueologica_VNB-versao-web.pdf
O altar antes da intervenção
O altar de talha é do Séc. XVII. Foi por algum autores atribuído ao mestre entalhador José Rodrigues Ramalho. “No entanto novas investigações (Ferreira, Coutinho, 2004) sobre a obra deste entalhador e novas leituras do contrato, vieram lançar dúvidas sobre se o José Ramalho constante no contrato será de facto José Rodrigues Ramalho”. (2)
Certo que é que o mesmo é sublime e teve como outorgantes, no ano de 1696, em Lisboa, Vicente Lourenço de Carvalho, mestre sirieiro de Tancos e José Ramalho, mestre entalhador. Vejamos o título que suporta a feitura do altar mor. “20 de Julho de 1696 – Contrato ajustado entre Vicente Lourenço de Azevedo e José Ramalho, para execução do retábulo mor da matriz de Tancos. Obrigação e quitação Jozeph Ramalho a Vicente Lourenço de Azevedo. Saibam quantos este Instrumento de obrigação e quitação virem que no ano do nacimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e seiscentos e noventa e seis em vinte dias do mês de Julho na cidade de Lisboa … aparecerão presentes partes a saber da uma Jozeph Ramalho mestre entalhador morador … e da outra Vicente Lourenço de Carvalho Sirieiro morador … que estão cotratados … fazer o retábulo da Capella mor da Igreja Matriz da dita vila de Tancos; e assim dois caixilhos para as ilhargas da dita capella mor a qual obra toda há-de ser de bordão e do melhor entalhada toda e com toda a perfeição conforme pede arte; e a frontaria do dito retábulo há-de ser conforme a traça e perfeição do retábulo da capella mor de Santa Catarina de Monte Sinai desta cidade (Lisboa); e o trono da tribuna há-de ser na forma do trono e traça da Igreja dos Santos Reis do Campo Grande; e da mesma sorte a traça há-de ser a casa da tribuna cuja obra da Igreja dos Santos Reis ele Jozeph Ramalho fez; e a da dita Igreja de Santa Catarina de Monte Sinai tem bem visto e examinado a forma e traça dela e toda a dita obra do retábulo tribuna e trono e caixilhos e forro da tribuna há-de ser de bordão e entalhada sem entrar em toda a dita obra outra alguma madeira de outro género e será toda a dita obra feita na forma da frontaria do retábulo de Santa Catarina, e o trono e tribuna e forro dela na forma e traça da capella mor dos Santos Reis; e toda esta obra perfeita e acabada se obriga ele Jozeph Ramalho a dar assentada na dita capella mor da dita Igreja da vila de Tancos …”(3).
O altar reveste toda a parte frontal da capela-mor, formado por ordem dupla de colunas salomónicas helicoidais ricamente trabalhadas e cobertas de cachos de uva e pâmpanos que partem de mísulas em planos sobrepostos e continuam além do lintel em curva completa até ao outro lado.

O trabalho da talha é de muita boa qualidade e grande efeito, com uso frequente de folhas de acanto e de cabeças de anjo aladas.
O conjunto foi rematado ao cimo com um escudo destacado de armas dos Condes de Atalaia e de Tancos, os Manoeis, pintado nas próprias cores.
O altar todo revestido a talha dourada e/ou policromada apresentava alguma instabilidade estrutural, nomeadamente: através de elementos que se encontram deslocados da sua posição original; outros elementos possuíam envelhecimento natural das colas utilizadas para unir pequenos blocos; existia podridão e infestação pontual do suporte em madeira, com grande incidência na banqueta de altar; existiam elementos decorativos em falta sobretudo vegetalistas e em áreas convexas, causando assimetria na leitura do conjunto; haviam fendas e fissuras em vários elementos decorativos; haviam oxidações e corrosões de elementos metálicos; sujidade com depósitos de poeiras e alguns elementos policromados, apresentavam a sua coloração alterada, provavelmente devido a repintes e/ou camada de proteção alterada.
O seu estado era mesmo mau.
Conta-se que aquando das invasões francesas muito do património de Tancos foi destruído ou saqueado e entre ele mormente o “da velha matriz, uma tela dedicada à virgem, pintura do século XVII, envolvida em rica talha da mesma época, finamente trabalhada” (4) que se encontrava na parede lateral esquerda da Capela-mor onde, conforme imagem infra, é visível a sua falta.

Antes da intervenção, e apesar do furto de uma tela pelas tropas franceses, outra ali ficou. Segundo a “vox populi” teria sido aplicada pelas gentes de Tancos uma camada de uma substância desconhecida sobre a superfície, camuflando a decoração original, a fim de evitar o furto pelos invasores. Analisado o líquido colocado pelos nossos ancestrais, através de FTIR (infravermelhos) foi possível verificar a composição da camada escura que se encontrava sobre a pintura. Os espectros indicam a existência de uma camada de cera de abelha com pigmento e, sobre esta, uma camada de goma laca. Esta última camada terá sido aplicada numa intervenção de conservação e restauro anterior à realizada agora, porque é coincidente com a intervenção no restante altar (por exemplo, nas caras dos anjos, visivelmente amarelecidas.
“… os soldados … de Bonaparte foram como o fogo, que atacou a biblioteca da Alexandria; a perturbação, o susto, a desordem, o receio de perder a vida fez que os encarregados dos diferentes cartórios os entregassem a uma espécie de abandono, os quais eles não poderiam salvar sem muito custo, e no meio da colisão de perder o mais precioso do homem, que é a sua existência, vendo primeiro com pena desamparados nos próprios bens, e sua fazenda. Regozijavam-se os soldados de Massena de acenderem o fogo com os livros dos diferentes cartórios, e muitas vezes para objetos de suas privações, quando por alguma sentença inquisitória não eram postos em montão em alguma praça publica, e condenados às chamas, que os devoravam; e eram n’outras vezes publicamente rasgados, como foi visto na praça de Tancos, por quem estava no Arripiado da outra parte d’além do Tejo. Quase todas as cousas que dizem respeito a antiguidades municipais, não existem hoje em as câmaras, não só relativamente a posturas antigas, como a forais, etc.” (5)
Com a atual intervenção de recuperação em 2023 ficámos a saber que aquela tela camuflada apresentava uma NS da Conceição de enorme beleza, como podemos vislumbrar mais adiante.
O teto do altar mor

O teto de abóboda e artesanato, de pedra, com fundos decorados sobre estuque com decoração floreal, tem vários fechos de medalhas igualmente de pedra com motivos da paixão de Cristo.
Antes da intervenção o suporte pétreo do teto encontrava-se em favorável estado de conservação bem como a superfície polícroma conforme se pode visualizar na imagem pelo que houve que proceder a leves retoques.
As paredes laterais

As paredes do altar mor são revestidas, na área média-baixa, por azulejos do tipo “enxadrezados em azul e branco”, do século XVII e ainda, na área superior, por azulejos policromos seiscentistas de cor azul, branco e amarelo de tipo “enxaquetados e de tapete”, tal e qual como no restante templo, onde se enquadram, também, representações de santos.

Segundo Santos Simões “Em época difícil de determinar, mas já entrado o século de seiscentos, aparecem os primeiros arranjos de «caixilho» em que os elementos brancos, quadrados, são substituídos por azulejos «de padrão», ou seja, por elementos ornamentados. Nasce assim aquilo a que chamamos as composições de «caixilho compósito», derivadas diretas dos esquemas ornamentais anteriores. … As composições «caixilhadas» simples, de alguma importância espacial, são ultrapassadas pelos esquemas «compósitos» e finalmente abandonadas quando se generaliza o emprego da padronagem para composições dos «tapetes» policromos. Esta passagem do «caixilho» (simples ou «compósito») – dominado por linhas de força diagonais – ao uso generalizado do «tapete» não é brusca: ela parece processar-se por evolução e adaptação, havendo verdadeiras soluções de compromisso adotadas pelos azulejadores mais progressivos ou conscientes… são exemplos … o de Nossa Senhora da Conceição de Tancos …” Este autor quanto ao seu padrão menciona o modelo P-27 e P-84 ou seja, azulejos de intenção decorativa com hipertrofismo dos centros de rotação, visíveis nesta Igreja de Tancos como elementos de composição de caixilhos compósitos.
Refere ainda a presença de azulejos figurativos típicos (S. Pedro, S. António, S. Tiago, etc.)
Também aqui existem azulejos marianos figurativos (painéis) apontando o autor pela sua “ingenuidade ou composição original” os da Igreja Matriz de Tancos.
O autor data a época desta arte azulejar para Tancos, ano de 1660. (6)
Os azulejos encontravam-se com vidrado em mau estado, com destacamento acentuado do vidrado e fora do padrão.
Houve a necessidade de proceder ao levantamento integral do conjunto azulejar devido ao seu perigo de destacamento causado pela degradação das argamassas e a fenómenos de ascensão capilar e da existência de sais. Existiam alguns exemplares fraturados; destacamento acentuado de vidrados, alguns azulejos colocados previamente em locais errados que destoava do padrão.
Alguns dos azulejos poderiam ter vindo da antiga Igreja da Misericórdia retirados pela então DGEMN.
Como o estado do monumento necessitava uma intervenção urgente de conservação e de restauro, nomeadamente: no retábulo do altar-mor, elementos pétreos e pintura mural do teto da capela-mor; azulejos existentes nas paredes laterais e arco da capela-mor e pintura sobre tela e respetiva moldura em talha dourada localizadas na parede lateral da capela-mor, do lado da Epístola, decidiu o Município da Barquinha e a Junta de Freguesia substituir-se à administração Central e avançar para a sua recuperação sob pena de perda irremediável de tão belo património.
Foi feita uma candidatura, à operação – 10.2.1.6 – Renovação de aldeias, PDR2020-10216-058725. Esta veio a ser aprovada com um valor de investimento elegível de 199.842.93€.
A fundamentação para a mesma teve como pressupostos:
– Tratamento de conservação e restauro dos elementos em talha dourada e policromada no Retábulo-mor, incluindo trono, altar e banqueta; Moldura em talha (localizada no retábulo colateral do lado da Epistola).
– Tratamento de elementos pétreos (pedra e pintura sobre pedra), teto da capela-mor, incluindo mísulas, nervuras e fechos; arco cruzeiro; degraus, pavimento, cantarias das portas e do altar.
– Tratamento de pintura sobre tela com pintura sobre tela existente na parede lateral da Capela-mor (Epístola); moldura, grade/estrutura e sanca.
– Tratamento de azulejos do altar-mor.
Os trabalhos decorrem durante o ano de 2023 e encontram-se finalizados, no que a esta candidatura diz respeito.
A reabertura da igreja ao culto ocorreu no dia 25 de abril de 2024 com a presença do Exmo. Reverendíssimo Bispo de Santarém, Dom José Traquina.
Releva-se, outrossim, que a Junta de Freguesia de Tancos, com a apoio do Município, acabou de lançar um concurso público para intervenção no telhado da Igreja Matriz, para evitar as infiltrações da chuva bem como para pintar todas as paredes exteriores. O prazo para a execução será de 60 dias após a celebração do contrato de adjudicação.
Por último, apresentamos o trabalho final feito pela Água de Cal – Empresa de Conservação e Restauro.

(1) Miranda, Emílio. Os Autos da Barquinha – Gelo por sal. Edições Mahatma, 2014
(2) Silva, José Manuel, artigo que consta da Carta Galeria Arqueológica de Vila Nova da Barquinha, Centro de Pré-História, Instituto Politécnico de Tomar, 2014.
(3) Ferreira, Sílvia Maria Cabrita Nogueira Amaral da Silva -A Talha Barroca de Lisboa (1670 – 1720). Os Artistas e as Obras. Volume 1- Doutoramento em História, Universidade de Lisboa. 2009
(4) Mação, Hélder Vitória – Tancos, ecos do passado no presente, Vila Nova da Barquinha, Câmara Municipal, 1995
(5) História e Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa, Tomo VIII, parte I, 1823).
(6) Simões, J. M. dos Santos. Azulejaria em Portugal no século XVII. [Tomo I – Tipologia, e Tomo II – Elenco]. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa. 1971
