Hannah Arendt foi uma filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século XX. Créditos: DR

Mas como se vive com os mortos? Diz,
onde está o som que atenua o trato com eles?
Qual é o gesto quando, guiados por ele,
desejamos que a proximidade nos recuse?

Escrevo este texto no Dia Mundial da Poesia. Na verdade, 21 de março é dia em que se assinalam várias e valiosas causas: o Dia Mundial da Poesia, da Árvore ou da Floresta, o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial e o da Síndrome de Down. Mas isto anda tudo ligado, já dizia a canção do Sérgio Godinho (grande poeta) e a ligar tudo está a poesia. Não há vida sem poesia, quem não a lê vive-a, mesmo que não se dê conta. 

Circula pelas redes sociais um cartoon que diz tudo: «E agora o que faremos? Poesia, esses canalhas não suportam poesia». Bem a propósito. Há de facto uma espécie de gente com muito poder, desprovida de humanidade, compaixão e empatia. Incapazes de amar, claro que odeiam a beleza sensível de palavras que podem inspirar e mudar as mentes e os corações das mulheres e dos homens. A poesia é uma ameaça a qualquer autocrata que se alimenta das emoções domadas dos espíritos solitários e absortos, anestesiados pela mentira e pela sobrevivência. Sabem de quem falo, não é o único, lamentavelmente há muitos, demasiados, autocratas neste século XXI, além de Putin. Uns estabelecidos e outros aspirantes a sê-lo.

Nestes dias de ferro e fogo e de cheiro a morte, tenho pensado muito em Hannah Arendt. Na sua obra e na sua vida e personalidade, controversa em vida e depois da sua morte, até hoje (vivemos tempos de cancelamento e um «amigo» cancelou-me porque eu divulgo sistematicamente o pensamento de uma supremacista branca! Arendt que trocou correspondência com James Baldwin! A cegueira das trincheiras identitárias leva ao absurdo da falta de senso crítico…). 

Não há como entender o que se passa no cenário grotesco que se desenrola perante a nossa incauta perplexidade sem recuar ao século XX. E não é para mim possível entender a história do séc. XX sem ler e conhecer o pensamento de Hannah Arendt. Não esqueçamos também que Arendt foi ela própria refugiada e apátrida (com uma breve passagem por Lisboa) e que isso afetou profundamente o seu pensamento e o seu sentir. 

O espírito livre e lúcido de Arendt não cessa de me surpreender, a par com a sua corajosa e honesta resolução de querer compreender. Isto valeu-lhe duras críticas e uma dolorosa solidão em fases da sua vida, particularmente na sequência da obra que escreveu a propósito do julgamento de Eichmann, da qual emerge o seu conceito mais conhecido – a Banalidade do Mal. 

Talvez por estes dias e com a atroz guerra na Ucrânia a trazer fantasmas que se pensavam adormecidos na Europa a obra que mais se cite seja a monumental «Origens do Totalitarismo». De facto, está lá muito para entendermos o que está a acontecer e para melhor agirmos agora. 

Anne Applebaum (também ela crucial para entender este conflito) escreveu há dias no The Atlantic a propósito deste livro de Arendt:

So much of what we imagine to be new is old; so many of the seemingly novel illnesses that afflict modern society are really just resurgent cancers, diagnosed and described long ago. Autocrats have risen before; they have used mass violence before; they have broken the laws of war before.

Arendt sabia que a irracionalidade era recorrente e que a atrocidade seria sempre um cenário possível. Creio que a racionalidade de Arendt bem faria aos muitos fazedores de opinião que propalam visões a preto e branco, simplistas e maniqueístas e perigosamente inflamadas. Já escrevia Kant no seu Tratado da Paz Perpétua que esta é determinada pela forma como terminam as guerras. Não terminou bem a Guerra Fria, está bem de ver e também é obvio que a muitos serviria ler um pouco mais de história e filosofia. 

Emoções ao rubro precipitam decisões afuniladas e perigosas e têm dado espaço a extremos de intolerância em que tudo é visto como uma cruzada contra o mal. A este propósito bem escreveu Pacheco Pereira que é preciso pensar a cores e decidir a preto e branco. Há um invasor e um povo invadido e um só lado para se estar como é evidente (pelo menos para mim), mas a complexidade do contexto não deve permitir raciocínios e visões simplistas que nos possam precipitar além do espectro da ameaça nuclear em que já nos encontramos novamente.

Contudo, é a poesia de Arendt que tomou hoje o meu pensamento. Porque além da dureza e do sofrimento, há a poesia. Façamos uma pausa na guerra e um mergulho nas palavras sensíveis. 

Arendt não é comparável a grandes poetas e poetisas, bem entendido, mas vale a pena ler pela profundidade, sensibilidade e maturidade e, sobretudo, pelo carácter íntimo e biográfico. Escreveu ela que «a poesia, cujo material é a linguagem, é talvez a mais humana e a menos mundana das artes, aquela cujo produto final permanece mais próximo do pensamento que o inspirou. A durabilidade de um poema resulta da condensação, de modo que é como se a linguagem falada com extrema densidade fosse poética por si mesma.» Lindo.

Existe uma bonita edição pela Sr. Teste dos seus poemas traduzidos por José Aigner com ilustrações belíssimas de Isabel Baraona. Aconselho vivamente a leitura dos poemas que um pouco mais nos desvendam as suas relações intelectuais de amizade e de amor, particularmente com Walter Benjamin e, claro, da polémica relação com Martin Heidegger:

Porque me dás a mão
com timidez e às escondidas?
Tão longínquo é o país de onde vens?
Não conheces o nosso vinho?

Vives em tamanha solidão
que não conheces a nossa tão bela ferocidade
quando estamos um no outro
com o coração e com o sangue?

Não conheces as alegrias diurnas
quando se vai com o amado?
Nem conheces a despedida vespertina
de quem vai de luto sofrendo?

Vem comigo e deseja-me,
não penses nos teus medos.
Conseguirás ser sincero?
Vem, toma e dá!

Não é uma Hannah Arendt política, é uma mulher que pensa nos dilemas, na dor e abismos da vida. E no amor. 

Leiam as suas poesias. Ou outras, só não deixem de ler porque é o que nos salva da alienação.

Sara Cura

Arqueóloga de formação, dedicou-se durante largos anos à investigação e ao Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado no Vale do Tejo, em Mação. Atualmente exerce funções no Gabinete de Apoio à Investigação e Qualidade da Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa.

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