Há uns tempos, num blogue que acompanho desde o seu início chamado “A mãe é que sabe”, umas das autoras fez um post sobre uma situação que tinha presenciado entre uma mãe e a sua filha. Resumidamente a mãe estava claramente irritada e chamava a filha de “feia e má”. A blogger, desde sempre bastante defensora da parentalidade positiva e sem violência (física ou psicológica) questionava-se se deveria ter intervido.

Ora bem, arrisco dizer que terá sido um dos posts mais comentados do ano! Mas se fiquei um bocado chocada com a violência de determinados comentários (enfim, efeito Internet…), fiquei ainda mais triste com a quantidade de pessoas que ainda acha que uma “palmada na hora certa” não faz mal nenhum e é um bom instrumento pedagógico e que as nossas crianças se vão pura e simplesmente esquecer, ou não vão levar a sério, tudo aquilo que lhes dizemos, de forma repetida, ao longo da vida.

Chegam mesmo a defender que se não for assim, estaremos a criar pequenos monstros, que mandam e desmandam nos pais.

Vamos por partes:

Em primeiro lugar nunca na vida ousaria chegar ao pé de um pai ou de uma mãe e questionar o seu modo de educar, muito menos em frente do seu próprio filho. Eu não conheço a pessoa, nem a vida ou as crenças que tem. Já me chegam as vezes em que o meu filho se passa em público e aparece SEMPRE uma senhora de avançada idade que, sem me conhecer de lado nenhum, tenta “ajudar” e faz palpites sobre o grau de beleza do puto.

Em segundo lugar acho que se confunde muito a premissa da não agressão física e psicológica na educação de crianças com a chamada parentalidade permissiva. Não é por não bater ou chamar nomes, ou dizer “não gosto de ti”, ou mesmo não aplicar castigos, que eu não posso ainda assim estabelecer limites, definir consequências e impor respeito.

O estilo de parentalidade autoritário já deu mostras de que pode dar muito errado (note-se a sociedade alemã da II Guerra Mundial). Porque então continuamos a achar que é assim que deve ser? Porque foram assim connosco e nós estamos óptimos? Porque apesar de tudo amamos muito os nossos pais  e achamos que se eles fizeram assim é porque assim é que tem de ser?

Está provado que os indivíduos maiores vítimas de agressão na infância são os primeiros a defender os pais.

Está provado que quando alguém grita ou bate numa criança, isso diz mais sobre a falta de domínio das emoções da pessoa que perpetua o ato do que do comportamento da criança em si.

E depois são as vozes na nossa cabeça (não, não estou a ficar maluca): Imagine aquele momento em que falhou na vida. Aquele momento em que tudo ruiu. Em que se sentiu um falhado e inútil. Em que sentiu que não fazia nada de jeito. Já se sentiu assim? Já se sentiu com a sua auto estima bem lá no fundo? Agora pense nas vozinhas que dominaram a sua cabeça nesses momentos. Pense bem, muito bem e depois reflita se acha mesmo que se disser a uma criança que ela é má, estúpida e não faz nada de jeito que ela vai esquecer ou não vai levar a sério.

Dizem que não podemos considerar crianças mini-adultos mas, ao mesmo tempo, temos que nos colocar no lugar delas para as tentarmos perceber. É verdade! Basta estudar um bocadinho do desenvolvimento do cérebro de uma criança para se chegar facilmente à conclusão de que palmadas, ofensas e castigos são absolutamente inúteis (e até certo ponto injustas) mas que, no entanto, podem provocar um grande dano no sentimento de si.

O nosso cérebro racional, digamos assim, só termina a sua maturação por volta dos 25 anos (imagine-se!). Até lá, a maior parte dos comportamentos do ser Humano é comandado por emoções e por necessidades básicas. Muitas vezes nem as próprias crianças percebem porque agiram de determinada maneira. Muitas vezes o “mau comportamento” resulta simplesmente na sua incapacidade de demonstrar uma necessidade ou uma emoção.

Eu sei que tenho crianças ainda pequenas. Mas posso garantir que o mais velho me respeita e obedece apesar de nunca lhe ter batido.

A Parentalidade Consciente é algo difícil. Exige muito treino porque nós estamos programados para fazer as coisas de maneira totalmente oposta. Já fui para a cama a martirizar-me de que podia ter resolvido um determinado drama de outra maneira mas…

O caminho faz-se caminhando. E isto de ser mãe/pai é muito por tentativa/erro, até porque o que funciona com uns não funciona com outros.

Apesar disso nunca os meus filhos ouvirão da minha boca “és feio, és mau, a mãe não gosta de ti”.

Marta Gameiro Branco

Médica dentista especializada em endodontia, 31 anos. Mãe, para os bons e os maus momentos. Gosta de questionar, gosta de perceber, ainda que a questão seja óbvia. Porque o mundo é um livro aberto onde há sempre a possibilidade para mais uma leitura.
(E lavem os dentes todos os dias!)

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