Nesta nova etapa da sua vida, Manuel Mourato busca levar para a gestão municipal os mesmos princípios que sempre guiaram a sua vida: rigor, transparência, visão estratégica e proximidade com as pessoas. Entre o desejo de continuar a desenvolver o concelho, a atenção à qualidade de vida da população e a vontade de construir um legado duradouro, Mourato fala de objetivos concretos, mas também daquilo que lhe dá sentido na vida: família, leitura, cultura e descobertas históricas que partilha com o filho mais novo.
Natural do Alto Alentejo, Mourato criou raízes em Vila Nova da Barquinha durante a sua carreira militar, antes de se tornar perito forense. Mestre em Liderança de Pessoas e Organizações pela Academia Militar, é também docente universitário, investigador e formador. Autor do livro Análise Forense de Documentos Impressos (2021) e com várias publicações científicas, ele combina experiência técnica com uma visão estratégica de liderança, agora aplicada à gestão autárquica.

Casado, com três filhos — sendo que o mais velho faleceu tragicamente, o intermédio é psicólogo clínico e o mais novo pretende seguir medicina — Mourato valoriza a família e procura transmitir aos filhos o gosto pelo conhecimento, história e passeios pelo património, nomeadamente castelos.
Nos tempos livres, mantém o hábito da leitura, normalmente com dois livros em simultâneo, alternando entre ficção histórica e romances que lhe permitam explorar fundamentos históricos de forma envolvente. Gosta também de cinema, passeios por castelos, viagens em família e experiências que unam diversão, cultura e educação.

mediotejo.net: Quem é o novo presidente? Que momentos da sua vida marcaram mais o percurso que o trouxe até aqui?
Manuel Mourato: O novo presidente é, acima de tudo, uma pessoa comum, com uma vida feita de escolhas e responsabilidades que foram crescendo ao longo do tempo. Sou um cidadão que se sente parte de Vila Nova da Barquinha e que quer contribuir para o bem-estar deste território, deixando uma marca positiva. Nunca me imaginei há alguns anos a ocupar esta função, mas a vida dá-nos desafios que, quando abraçados, transformam-se em projetos e responsabilidades maiores. Sempre que me envolvi numa carreira, seja na faculdade, na PJ ou agora na política autárquica, procurei fazer bem e com dedicação total. No início, a proposta de participar no executivo municipal parecia apenas uma forma de dar um contributo pontual, mas o desafio foi crescendo e, com ele, a vontade de assumir responsabilidades maiores. É um percurso que se constrói com tempo, esforço e uma grande capacidade de adaptação às exigências que surgem.
Não é natural de Vila Nova da Barquinha, mas tem raízes aqui desde muito jovem…
Exatamente. Nasci no Alto Alentejo, e vivi lá até aos 15 anos. Mas passei parte da minha infância em Vila Nova da Barquinha, mais concretamente em Moita do Norte, com os meus pais. A carreira militar levou-me de volta a esta região aos 17 anos, quando ingressei na Força Aérea. Foi aqui que acabei por criar raízes, conhecer a comunidade e sentir que este território podia ser o lugar onde a minha família e eu iríamos assentar. Esta ligação antiga, embora não de nascimento, permitiu-me compreender a realidade local, as pessoas, a história e os valores que fazem da Barquinha um concelho singular.
O seu pai era ferroviário. Como sente que essa condição familiar e militar ainda marca a região?
A influência ferroviária e militar nesta região é muito forte. A minha família tem tradição ferroviária, assim como muitos outros familiares. O meu pai trabalhou toda a vida como ferroviário, e os meus avós também. Por outro lado, os militares sempre foram parte integrante da vida local. Esta combinação moldou, de certa forma, a identidade da Barquinha, e eu sinto-me parte desta história, ao mesmo tempo que trago a minha experiência própria adquirida fora da região.
Vinha de uma carreira como perito forense da Polícia Judiciária. O que o motivou a trocar essa carreira pela política autárquica?
Sinto que alcancei o auge da minha carreira técnica na Polícia Judiciária. Dediquei-me intensamente à especialização em análise forense, formei gerações de peritos e contribuí para tornar o país mais seguro no combate à contrafação e à criminalidade. A certa altura, senti que havia pouco mais para eu evoluir nesse campo. Apareceu então a oportunidade de assumir um novo desafio na minha própria terra. Aos 58 anos, percebi que era o momento de estar mais presente para a família e ao mesmo tempo aplicar todo o conhecimento adquirido em prol de Vila Nova da Barquinha. A política autárquica permitiu-me trazer para a gestão pública a disciplina, a capacidade de análise e o rigor que aprendi na investigação criminal, mas agora aplicados a projetos concretos que melhoram a vida das pessoas.
Que aprendizagens da sua carreira forense considera mais relevantes para gerir o concelho?
Aprendi a importância da minúcia, do espírito crítico, da análise detalhada e de ouvir diferentes perspetivas. Na Polícia Judiciária, lidamos com pessoas de todos os tipos e culturas, com situações complexas e de grande responsabilidade. Essa experiência ensinou-me a tomar decisões ponderadas, a gerir conflitos e a liderar equipas em contextos desafiadores. Hoje, na gestão municipal, essas competências ajudam-me a estruturar projetos, a ouvir os cidadãos com atenção e a tomar decisões que considerem o bem coletivo. A gestão autárquica exige tanto rigor quanto empatia, e é isso que procuro aplicar diariamente.
Como foi passar de uma vida reservada de perito forense para a exposição pública de um autarca?
Foi, sem dúvida, um dos maiores desafios. Sempre vivi no anonimato, e passar a ser uma figura pública exigiu tempo, paciência e muita comunicação com a população. Precisamos de ganhar confiança, e isso só se consegue mostrando disponibilidade, transparência e trabalho. A exposição é inevitável, mas também gratificante, porque permite estar mais próximo das pessoas, perceber as suas necessidades e responder de forma direta.

O que mais o surpreendeu nestes primeiros tempos em que está presidente?
Surpreendeu-me a amplitude das opiniões, a diversidade das críticas e, sobretudo, a velocidade com que as pessoas formam julgamentos. Aprendi a filtrar o que é construtivo e o que é destrutivo, a ouvir com atenção, a dialogar e a manter a minha postura, sem ceder a pressões externas.
O PS venceu, mas sem maioria absoluta. Como interpreta essa mensagem dos eleitores?
É um reflexo dos tempos que vivemos. Não foi apenas uma mensagem local, mas também nacional. Há uma crescente desconfiança e diversificação das preferências políticas, e isso exige mais diálogo, capacidade de construir consensos e atenção às novas forças políticas. O resultado mostra que as pessoas confiam na minha visão, mas também querem equilíbrio e pluralidade na gestão.
O executivo inclui uma vereadora do PSD, com pelouros. Como foi construir essa solução?
Sempre acreditei no diálogo e na construção de consensos. Quando percebi que havia convergência de objetivos, independentemente da cor política, vi uma oportunidade de trabalhar em conjunto pelo concelho. O importante é que cada membro do executivo contribua com compromisso, transparência e foco no trabalho.
O surgimento de dois vereadores do Chega alterou o equilíbrio político. Como gere esse novo espaço político no executivo e qual a sua estratégia para manter estabilidade?
A estabilidade governativa do concelho passa por garantir diálogo e cooperação com todos, respeitando o resultado eleitoral. No caso do Chega, estamos perante uma força política que representa uma parte significativa da população, e como tal, merecem respeito enquanto cidadãos e enquanto eleitores. Mas, política e ideologicamente, há limites claros: a linha vermelha para mim é a política radical, extremista e populista que defendem — ideias que, na minha perspetiva, vão contra princípios democráticos, de inclusão e de coesão social. Não se trata das pessoas em concreto, mas sim das políticas que advogam. Por isso, não haverá acordos, colaborações nem compromissos de governação com essas propostas. É uma posição firme e clara: podemos ouvir e compreender as suas posições no contexto democrático, mas o executivo seguirá o seu caminho, baseado no consenso, na colaboração interpartidária construtiva e na defesa dos interesses do concelho, sem ceder a extremismos. Esta linha vermelha serve não só para proteger a estabilidade da autarquia, mas também para reforçar os valores que considero essenciais na governação: responsabilidade, transparência e equidade para todos os munícipes.
Que compromissos assumiu para garantir governabilidade?
O compromisso foi claro: trabalhar com quem compartilha objetivos e valores semelhantes, sem prometer nada além de dedicação e trabalho. A governabilidade baseia-se na confiança, no diálogo e no respeito às regras democráticas.

Como descreve a visão de Vila Nova da Barquinha que quer deixar no final deste mandato?
Quero consolidar aquilo que tem sido feito bem, mantendo a qualidade de vida, o desenvolvimento urbano, a cultura e o dinamismo económico. É fundamental garantir infraestruturas adequadas, planeamento sustentável e novos investimentos, mas sempre com atenção ao património, à história e à identidade do concelho. A minha visão é que Vila Nova da Barquinha continue a ser procurada pela sua qualidade de vida, pelas oportunidades que oferece e pelo equilíbrio entre modernidade e tradição.
Quais são as três principais prioridades estratégicas para os próximos quatro anos?
Primeiro, assegurar a continuidade e consolidação do crescimento económico, atraindo empresas e investimento. Segundo, manter e melhorar a qualidade de vida, através de educação, cultura, turismo e serviços sociais. Terceiro, reforçar a sustentabilidade ambiental e o ordenamento do território, garantindo infraestruturas, habitação e serviços adaptados ao crescimento da população.
Vila Nova da Barquinha tem um potencial turístico ligado à história, à cultura, ao ambiente e à natureza. Como pretende explorar isso?
O turismo é uma alavanca estratégica para o concelho. Temos um património histórico rico — castelo, monumentos, igrejas, museus — e uma paisagem natural única, com o Tejo a atravessar o concelho e zonas verdes que merecem ser valorizadas. A minha ideia é criar experiências integradas: passeios culturais, roteiros de natureza, atividades náuticas e eventos que mostrem a identidade do concelho. É importante não apenas atrair turistas, mas fazê-los sentir-se em casa, criar memórias e vontade de regressar. Isso exige investimento em infraestruturas de apoio, sinalética, comunicação e acolhimento, bem como parcerias com associações locais e empresários do setor.
Existe espaço para turismo inovador ou diferenciado?
Sem dúvida. Podemos explorar o turismo de experiências, como workshops de artesanato, gastronomia regional e atividades de descoberta histórica. O turismo fluvial também tem enorme potencial, não só para lazer, mas como forma de dinamizar a economia local. Acredito que podemos combinar inovação com preservação do património, garantindo que as gerações futuras vejam valor no que hoje temos.
Que papel dá à sustentabilidade ambiental no desenvolvimento do concelho?
A sustentabilidade é central na nossa visão. Não podemos pensar em crescimento económico sem proteger o ambiente. Isso implica gestão de recursos hídricos, reflorestação, valorização de espaços verdes e promoção da mobilidade sustentável. Pretendo implementar projetos que equilibrem o progresso urbano com a conservação ambiental, criando um concelho mais resiliente às alterações climáticas, mas também mais agradável para quem aqui vive.
Há projetos concretos nesta área?
Sim, desde a promoção de energias renováveis em edifícios municipais, passando por campanhas de educação ambiental nas escolas, até à criação de percursos pedestres e ciclovias que valorizem a paisagem natural. Também estamos a trabalhar em iniciativas de recolha seletiva, compostagem e redução do desperdício, integrando a comunidade em processos que são, acima de tudo, de responsabilidade coletiva.

Como encara a questão da habitação no concelho?
A habitação é um desafio crítico e estratégico para o futuro do concelho. Queremos garantir oferta suficiente, acessível e de qualidade, mas sempre preservando a identidade e o caráter das nossas localidades. Por isso, o planeamento urbano terá como prioridade o equilíbrio entre crescimento e sustentabilidade: novas áreas residenciais serão concebidas com espaços verdes, áreas de lazer e proximidade a serviços essenciais como escolas, centros de saúde e comércio local. Paralelamente, vamos promover programas municipais de apoio ao arrendamento e parcerias com promotores privados para criar soluções inovadoras que favoreçam jovens e famílias, permitindo que se estabeleçam no concelho com segurança e qualidade de vida. A ideia é que Vila Nova da Barquinha se torne um lugar onde se possa viver plenamente, crescer e criar raízes, sem necessidade de emigrar para procurar oportunidades habitacionais.
Há planos para apoiar e dar resposta a jovens e famílias?
Sim. Um dos objetivos é facilitar o acesso à habitação a jovens e famílias, através de programas municipais de apoio, incentivos a arrendamento acessível e parcerias com construtores. Queremos que os nossos jovens possam crescer e criar raízes no concelho, sem serem obrigados a emigrar por falta de oportunidades residenciais.
Quais são as prioridades em termos de infraestruturas?
A manutenção e modernização da rede viária é essencial, assim como a melhoria de acessos às freguesias e aos principais pontos turísticos e económicos. A mobilidade é um tema transversal: desde transporte público eficiente até ciclovias e caminhos pedestres. Também queremos investir em tecnologia e digitalização dos serviços municipais, para tornar a gestão mais eficaz e a interação com os cidadãos mais ágil.
Que atenção dedica às escolas e à formação dos jovens?
A educação é um dos pilares centrais da nossa ação. Queremos garantir que as escolas do concelho estejam não só bem equipadas e seguras, mas também dotadas de recursos que promovam a criatividade, a tecnologia e o pensamento crítico. Para além das infraestruturas, é fundamental apostar em projetos educativos inovadores: laboratórios de ciência e tecnologia, clubes de leitura e escrita criativa, programas de intercâmbio cultural, e oficinas de música, artes plásticas e desporto. Quanto à juventude, o objetivo é criar oportunidades concretas para que possam desenvolver talento, experimentar empreendedorismo e envolver-se ativamente na vida comunitária. Estamos a pensar também em incubadoras de projetos e espaços de coworking adaptados aos jovens, de modo a combinar formação e prática, e fortalecer uma geração que se sinta capacitada para transformar ideias em realidade no concelho.

Como estimular a economia local?
A economia é um eixo central do nosso projeto. Pretendemos dinamizar o comércio local, apoiar pequenas empresas e atrair investimento qualificado, criando emprego sustentável e diversificado. O foco será tanto em setores tradicionais, como agroalimentar e turismo, que já representam a identidade do concelho, quanto em áreas inovadoras como tecnologia, serviços e indústrias criativas. Queremos implementar programas de capacitação para empreendedores, apoiar startups e promover parcerias entre empresas e escolas para estimular a prática e o desenvolvimento de competências, além de duplicar a atual zona industrial, já lotada. Além disso, a valorização dos produtos locais, associada a campanhas de marketing e promoção fora do concelho, permitirá dar visibilidade à nossa economia e consolidar a Vila Nova da Barquinha como um território que alia tradição, inovação e oportunidades reais de emprego.
Qual o papel da cultura na sua gestão?
A cultura é um elemento identitário e um fator de coesão social. Queremos dinamizar atividades culturais em todas as freguesias, apoiar associações, promover eventos de artes plásticas, música e teatro, e valorizar o património histórico. A cultura é também uma forma de atrair turismo, mas sobretudo de enriquecer a vida dos habitantes, estimulando criatividade, pensamento crítico e orgulho no território.
Como se aproxima a política e a Câmara Municipal dos cidadãos?
Estou convicto de que uma gestão eficaz só é possível com proximidade. É fundamental ouvir a população, organizar encontros regulares, disponibilizar canais digitais de comunicação e garantir que cada freguesia se sente representada. Proximidade significa também transparência, explicar decisões e ouvir críticas construtivas. Acredito que os cidadãos são parceiros essenciais, não apenas destinatários das políticas públicas.

Para além da função política, o que lhe dá sentido na vida?
A família é o meu alicerce. Passar tempo com os filhos, partilhar momentos de descoberta, leitura, viagens ou simples conversas é aquilo que mais me motiva. Também encontro sentido no estudo da história, na pesquisa científica e na leitura — hábitos que levo comigo desde jovem. O trabalho autárquico, embora desafiante, é um complemento: um modo de traduzir valores pessoais em impacto concreto na vida das pessoas.

Qual o legado que quer deixar?
Gostaria que, no futuro, Vila Nova da Barquinha fosse reconhecida como um concelho unido, sustentável e cheio de oportunidades para todos, onde os jovens possam crescer e os cidadãos se sintam orgulhosos de viver. Ao mesmo tempo, reconheço e valorizo o trabalho dos dois presidentes de Câmara que me antecederam, cujas obras e políticas deixaram um legado sólido e inspirador. Gosto de pensar que posso ser, de certa forma, um pouco dos dois: continuar o que fizeram de melhor, mas acrescentando a minha própria visão, baseada em proximidade, inovação e humanização da gestão. Esse seria o meu legado: uma continuidade sólida, mas com identidade própria, reforçando os valores de responsabilidade, coesão social e desenvolvimento sustentável, sempre com foco nas pessoas e na qualidade de vida da comunidade.
