Num período da História em que tanto se fala acerca das alterações climáticas e de como estas estão a agravar a crise hídrica que as vilas ribeirinhas têm enfrentado nas últimas décadas, é importante perguntar: como é que a crise hídrica e as alterações climáticas afetam o Médio Tejo e, em particular, a vila de Tramagal? E a quem é que se deve atribuir responsabilidades para que o rio não perca a pouca água que já caracteriza a paisagem?
A verdade é que, a realização da minha dissertação de mestrado sobre este tema só foi possível por vários tramagalenses terem aberto as suas portas e as suas memórias e partilhado comigo a sua perspetiva deste problema. São estas partilhas que construíram o que aqui verão escrito.
A falta de água no Tejo, a poluição, a extração de inertes, as tentativas de intimidação da população por parte das grandes empresas que possuem interesses fortíssimos e perigosos nos nossos recursos naturais, são alguns dos temas que foram levantados nas entrevistas e, por isso, alguns deles terão aqui especial destaque. Afinal, quem é que usou e está a utilizar o rio Tejo de tal maneira, que muitos já não o reconhecem? As opiniões surgiram como uma só voz e os problemas foram-se enumerando à medida que os relatos se acumulavam.
Começando pelo motivo que mais foi apontado: a gestão que os governos luso-espanhóis praticam para com este recurso hídrico, tema este que frequentemente nos é apresentado em manchetes de jornais onde afirmam que os caudais ecológicos estipulados na Convenção de Albufeira continuam a ser incumpridos, ignorados ou até inexistentes (no caso da barragem espanhola de Cedillo, que regula a entrada do Tejo em território português) aquando do surgimento de novas possibilidades de acordos. Com isto, sabemos a quem nos dirigir e sobre quem devemos fazer pressão – as entidades governativas intermunicipais, nacionais e ibéricas.
No mesmo seguimento, um detalhe importantíssimo, que serviu de ponto de viragem na circulação livre no rio Tejo transfronteiriço: as sucessivas construções hídricas que foram diminuindo progressivamente as áreas de circulação livre no rio, tanto para fins económicos como a pesca profissional, na qual os pescadores chegavam a ir até Espanha pelo rio, como para momentos de lazer, como a pesca lúdica ou o usufruto da “praia dos mouchões” que outrora se enchia de tramagalenses com as suas famílias, para se refrescarem nos verões quentes que bem conhecemos, para partilhar momentos que são agora memórias muito acarinhadas, memórias essas que não conseguem reconhecer a realidade atual da paisagem.
Além disso, como se poderia a pesca profissional manter – atividade económica que fora dos principais meios de sustento da população de Tramagal há (várias) décadas atrás – se, devido às barragens, à poluição provinda das fábricas de celulose, e ao baixo caudal do rio, as espécies piscícolas deixaram de conseguir movimentar-se e reproduzir-se de modo seguro, para que se consiga preservar as suas espécies?
Vemos no nosso Tramagal, uma vila ribeirinha que é o reflexo de tantas outras que o Tejo banha – culturas e populações que detêm uma enorme proximidade com este recurso hídrico, mas com a exploração que este sofre, parece que o afastamento do mesmo se torna inevitável. Sem peixe para pescar, sem água para circular e mergulhar, como é que as pessoas se mantêm próximas do rio? Não obstante, não devemos ignorar um movimento social de retorno às margens do mesmo que tem vindo a acontecer, sendo visível a reaproximação progressiva, ainda que por vezes lenta, das pessoas para com o seu recurso hídrico.
Se tudo isto não nos demonstra o quanto as pessoas estão ligadas social, económica, política ou espiritualmente ao rio, o que é que o demonstra?
Como é que podemos contrariar esta corrente que nos leva a afastar do rio? Será que as pessoas querem estar envolvidas nas tomadas de decisões referentes ao modo como a natureza que as circunda é utilizada e explorada? Esta foi uma das perguntas que considero mais importante de todas as que fiz aos tramagalenses com quem conversei e, felizmente, a resposta foi imediata – “sim”.
As pessoas querem participar, querem estar informadas do que se planeia construir, de que maneira se projeta utilizar o meio ambiente e os recursos do planeta com os quais contactam e dos quais dependem. Não será então, absolutamente fundamental, democratizar a utilização dos espaços naturais e dos serviços de ecossistema para que as pessoas façam parte, estejam informadas dos benefícios, mas também dos malefícios, que as explorações dos seus espaços naturais possam trazer?
Todos fazemos parte da responsabilidade de preservar o nosso planeta e o que este nos permite ter, e passinho a passinho e a cada remada, podemos fazer parte da solução, nas nossas casas, sem deixar de nos unirmos nas ruas para que sejamos ouvidos pelas entidades responsáveis, desde as governamentais, até às privadas que tantos já tentaram, e tentam silenciar.
Que não nos esqueçamos de continuar a lutar, a informarmo-nos, a viver e aproveitar a natureza que nos rodeia e enriquece.
“Não há medidas mágicas para o ambiente, só as pessoas lutarem.” (Arlindo, registo de áudio da entrevista semiestruturada).
